Do fabuloso monólogo de Lilith num paradisíaco ventre materno, primeiro conto deste volume, até «Estrela», que fecha o livro, numa violenta, mas irresistível, história de abuso sexual paterno que leva a filha ao suicídio, Maria Teresa Horta traça, num português sumptuoso, ao longo de mais de trinta contos, uma vasta e belíssima galeria de «Meninas». Quase todas negligenciadas, quando não abandonadas e maltratadas, entregam-se à magia ou à leitura salvadoras.
É assim com Beatriz, à beira do abismo no Faial, com Laura, abandonada pela mãe em «Eclipse», com Branca, perseguida pela madastra e o pai, com Maria do Resgate, que abre a porta aos anjos na falta da mãe, com Rute, ladra «sem culpa» de uma rosa apaixonante. Mas também com a infância de personagens históricas como a sanguinária condessa húngara Erzsébet, com a rebelde Carlota Joaquina, inconformada com um destino que não quis, a seduzir e enfeitiçar o pintor Maella autor do seu retrato oficial, ou literárias como Katie Lewis, apaixonada pela leitura e assim retratada por Edward Burne-Jones, a gerar o fascínio de Oscar Wilde. "As Meninas" é um livro mágico e encantador, com que Maria Teresa Horta abre um novo rumo na história da literatura portuguesa.
Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros was a Portuguese feminist poet, journalist and activist. She is one of the authors of the book Novas Cartas Portuguesas (New Portuguese Letters), together with Maria Isabel Barreno and Maria Velho da Costa. The authors, known as the "Three Marias," were arrested, jailed and prosecuted under Portuguese censorship laws in 1972, during the last years of the Estado Novo dictatorship. The book and their trial inspired protests in Portugal and attracted international attention from European and American women's liberation groups in the years leading up to the Carnation Revolution.
Maria Teresa Horta escreve muito bem, já se sabe. O tema - meninas marcadas pelo abandono - é apelativo. Mas, a cada conto que passa, a história repete-se: as meninas são abandonadas pela mãe loira, esbelta e impetuosa, às mãos de um pai médico demasiado atarefado e de uma avó que não tardará a morrer ou de uma madrasta má. Torna-se muito repetitivo. A segunda parte é melhor, com as histórias à volta da nossa odiada Carlota Joaquina e com o último conto, Estrela, a despertar sentimentos de asco e revolta perante a impunidade de um abuso reiterado.
Nesta coletânea de contos vemos os despojos de infâncias onde as figuras maternas ocupam o coração das filhas, que as veneram. Vemos o sofrimento de mulheres melancólicas, depressivas, que se tornam ainda mais belas aos olhos das suas meninas, quando se sentem perturbadas. Uma mãe nem sempre é sinónimo de acolhimento, pode ser muito mais de desabrigo. Através das personagens femininas de cada conto vemos porções da sua vida, como se cada Menina fosse um espelho da autora. Cada palavra está no lugar certo, cada vocábulo respira necessidade de apego, de protecção, como se o cordão umbilical jamais fosse cortado. A fragrância frutada do corpo da mãe; os cabelos louros ondulando na brisa marítima; o olhar azul-cobalto, invadido pelo torpor, ficará para sempre coado na memória da menina como um caminho para o abandono, que nem o amor, dito incondicional, será entrave da sua fuga. A menina procurará reinventar esta imagem glorificada para sempre. Para isso, tornará a sua presença eterna nos seus escritos. Uma mãe que foi tema proibido nas conversas da família, uma mãe que aos olhos do pai não fazia jus a esse papel. Uma mãe que esteve fisicamente presente na primeira infância, ausente uma parte da sua vida, mas perene no seu coração. Essa menina reinventou-a nas suas palavras, mesmo que com isso regressasse ao inferno da dor, por cada memória lembrada. Nesta narrativa de precipícios e almas abismadas há uma celebração do feminino, da Lilith que habita cada uma de nós. Uma celebração a todas as mães que pretendem salvar de si, os seus filhos, dos caminhos mais obscuros das suas mentes. Sempre existiu em Maria Teresa Horta um sentimento de não pertença, uma singularidade que sempre a preencheu. Há também um tributo a Virgínia Woolf, através do conto Ondas; a Clarice Lispector e outros nomes femininos da literatura; Meninas, muito autobiográfico, está escrito num ardor febril, com jorros de palavras que anseiam amor e liberdade, que resultam nesta alquimia ímpar, que nos estilhaça e nos acolhe. Um livro imprescindível.
"Meninas" de Maria Teresa Horta provocou-me uma série de sentimentos e reflexões, não só sobre a leitura mas também sobre a autora. MTH é uma escritora superior. Como é que uma autora que ombreia com V. Woolf ou C. Lispector permanece desconhecida do grande público? Ainda para mais, quando à qualidade da sua escrita, acrescenta um papel na luta contra a ditadura e na defesa do feminismo?
Ler "Meninas" é entrar na mente feminina, infantil ou juvenil, assolada pelo abandono, solidão, obsessão ou espanto. São 30 contos escritos de forma cuidada, introspectiva e extremamente sensorial. Textos repletos de cores, cheiros e emoções que resultam numa experiência intensa e intimista.
Há também um curioso aspecto onírico que liga grande parte do contos. As meninas têm cabelo castanho, as mulheres são loiras de olhos azuis e os homens têm cabelo escovado com brilhantina. Mães sem amor em fuga e pais ausentes. Caminhamos por escadas e corredores sombrios. Somos levados para um limbo onde se esbate a fronteira entre ilusão e realidade. Estaremos perante vidas diferentes ou várias experiências de uma mesma vida?
Além do exercício literário interessante, há textos únicos, alguns em jeito de homenagem. Como "Sem Culpa", conto publicado no Brasil numa coletânea de homenagem a Clarice Lispector ou "Katie Lewis" em que Oscar Wilde é personagem. Ou ainda as várias referências literárias a Shakespeare, Rilke ou Bradbury, entre outros.
Estar a apontar favoritos é sempre injusto, mas recorro à memória para pescar Lilith, Azul-Cobalto e Estrela pelo nível de intensidade numa leitura que deixou marcas. Ler Maria Teresa Horta é desafiante. O vocabulário é cuidado e a prosa tem fluxo de consciência, labirintos linguísticos e contos que não são mais do que momentos de reflexão. Mas passado o primeiro impacto, a qualidade literária e o assombramento são inegáveis. Fica na galeria das autoras de eleição, de tão talentosas e admiráveis que são.
Como diz a contracapa, uma colectânea de histórias sobre Meninas, num português sumptuoso, a mostrar como se escreve à grande e com classe neste novo século da lusofonia. Mas... 90% das meninas fogem para a floresta, dois terços foram abandonadas pela mãe, muitas evocam magia, anjos e afins, e pelo menos umas 3 moram nos Açores. O livro torna-se um pouco repetitivo e apesar das belíssimas passagens fiquei perdida a confundir as meninas. Mesmo sendo umas das que fogem para a floresta, realce-se a inesquecível Carlota Joaquina :)
o desprezo e o repúdio das mães pelas filhas na primeira parte deste livro foram uma experiência de leitura muito dolorosa. também o último conto sobre noites infindas de violação é algo que preferia não ter lido.
dito isto, há contos belíssimos, a começar pelo primeiro que parece descrever um amor lésbico e é afinal sobre um parto, vários de meninas (sendo que elas são um pouco a reprodução uma das outras) que flutuam na realidade ou os da princesa carlota joaquina.
enfim, maria teresa horta conhece a doçura das palavras. é uma qualidade que nunca cansa.
A escrita de Maria Teresa Horta é fabulosa… não será para todos, provavelmente não, mas para mim é 😃 Meninas é uma conjunto de contos, onde o papel da mulher, seja na figura maternal (claramente autobiográfico), criança ou outro, é o fio condutor. Havendo ali textos que são verdadeiras obras de arte literárias… para ler, degustar, saborear, sublinhar… etc, etc…
Numa escrita intensa e perturbante, a autora conta-nos histórias de 'meninas' num turbilhão de sensações. Histórias de abandono, obsessão e abuso, entre 32 contos. Contos que marcaram: azul-cobalto, Kate Lewis e Estrela. Leitura lenta para absorver os pormenores das histórias e acompanhar o ritmo de interpretação por a escrita ser tão densa.
O carácter circular do tema deste contos fazem com que se constitua num romance. O tema é a criança abandónica, a mãe que parte, a madrasta que castiga e um pai conivente e ausente. Belo e triste e escrito de forma magistral como só esta magnífica poetisa seria capaz. Lindo de tão doloroso.
“- Inconsciente... - diagnosticou o pai, que era médico, e estava interessado em que ela fosse considerada vítima do abandono materno, exasperado de nela reconhecer traços da mulher que o abandonara. - Sai daqui menina, que me fazes lembrar a tua mãe! - irá repeli-la mais tarde, ao vê-la aproximar-se em busca de carinho, como os animais.” “Fora a minha primeira carta de amor, e comi-a. Como se a incorporasse. - Onde escondeste a carta que a tua mãe te mandou? -Qual carta? Sumida, uma voz sumida que soltei trémula fazendo frente à fúria enorme e descontrolada da mulher do meu avô, madrasta que nem era minha e sim da minha mãe, mas que transferira para mim o seu ódio resguardado. - Estúpida rapariga! Ingrata! A defender uma maluca, uma leviana, que nem sequer lhe liga. Ela deixou-te, largou-te! Ela abandonou-te!” “Mas numa fúria, ela continuou: -Ela não te quer, ela deixou-te! De uma vez por todas percebe quem é a tua mãe. Uma maluca, uma mulher sem vergonha nenhuma! Olhei-a. Olhei-a nos olhos verdes-garços, antes de começar a gritar. Antes de começar a soltar aquele grito imenso, agudo, a subir de tom, vindo do fundo do meu peito, subindo pela garganta, a alastrar, a galgar, a trepar sem fim, a sufocar-me.”
Escritora de singularidades, escritora que sabe o bom uso que faz das palavras, sem desperdício de sentidos. Neste livro de contos, revela “meninas”, o feminino que se rebela, fala com os anjos, sente o abandono, mães, filhas, avós. Não é um livro de leitura rápida, deixou me emocionalmente estremecida em diversos trechos e foi preciso maior tempo pra decantar o texto de Maria Teresa Horta.
Pequenos contos de enorme beleza sobre as meninas que somos ou fomos. A escrita é bela, o conteúdo é a crueldade das vidas reais das meninas, nas mais variadas épocas, sociedades, culturas.
Escrita dura e crua, mas simultaneamente melodiosa. Contos que nos incomodam e nos alertam para a necessidade de cuidarmos melhor das nossas crianças, em particular, das nossas meninas.