Uma mãe católica e devota interpreta a transição da filha trans como uma morte simbólica. O enredo percorre uma infância marcada por repressões, o afastamento familiar no início da vida adulta. Ao lado de amigas travestis, como Luana, Júlia cria novas formas de pertencimento e reinventa a ideia de família. Cartas, fotos e objetos carregados de lembranças revelam como a memória sustenta a construção da identidade. A história se passa no Brasil contemporâneo, onde discursos conservadores e a violência contra pessoas dissidentes coexistem com expressões de fé popular. O deslocamento da personagem para Berlim amplia esse horizonte, ao contrapor intolerância e liberdade cultural.
O estilo da autora combina realismo cru e lirismo poético, entrelaçando experiências íntimas e símbolos de transformação. Imagens de santos, plantas e corpos surgem como metáforas da resistência, enquanto a oralidade travesti dá voz a uma coletividade historicamente silenciada.
Em seu primeiro livro, Júlia da Silva Moreira constrói uma narrativa que mergulha na intimidade de uma mulher trans e se abre a questões universais sobre identidade e lugar social. Ao tensionar as fronteiras entre fé e reconhecimento, o romance mostra como o afeto pode se tornar um gesto de restituição em meio às violências cotidianas.
Júlia da Silva Moreira nasceu em Itapeva, SP, em 1986. É formada em Enfermagem e atua como professora de jardim de infância em uma escola bilíngue em Berlim. Participou de oficinas literárias com João Silvério Trevisan e Marcelino Freire, que contribuíram para sua formação como escritora. Em 2024, publicou seu primeiro conto na Revista Peixe-Boi, volume 2. Acho que vamos todas para o céu é seu livro de estreia.
Escrita maravilhosa, que flui ritmada como uma poesia. Traz uma sensibilidade, humanidade que toca e emociona muito. Meu livro favorito desse ano sem dúvidas!