O romance memorialístico da autora de Cartas a uma negra é uma obra antirracista e feminista.
"Entre a bem-aventurada ignorância dos primeiros anos e o momento em que cada pessoa toma consciência de si, há um tempo em que o diminuto ser se volta para a vida como planta ávida pela primavera. Um tempo mais ou menos ensolarado ou povoado de maravilhoso. O erro é imaginar que as crianças são incapazes de ter sentimentos tumultuosos e dizer, a propósito de tudo e nada, que elas não entendem."
Assim se inicia O tempo da infância, romance de formação sob o olhar de uma criança, que traça a imagem de uma vida camponesa e modesta em Morne-Rouge, na Martinica dos anos 1920.
Graças à escrita cheia de vivacidade de Françoise Ega, a quem os leitores brasileiros conhecem por Cartas a uma negra — um arrebatador diálogo imaginário com a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus —, mergulhamos na trajetória dessa garota humilde e negra que reconta sua vida numa comunidade rural antilhana nas primeiras décadas do século XX. Junto com sua descoberta do mundo físico, palpável, descortina-se também a dolorosa consciência do que é viver sob o jugo de uma metrópole (a França) sendo mulher, pobre, negra e descendente de escravizados. Em Françoise Ega, a escrita é a ferramenta adequada para alcançar a emancipação e, sobretudo, um universalismo efetivo — na melhor tradição dos feminismos negros.
Françoise Ega was an Afro-Martinican laborer, writer and social activist. She was most noted in her lifetime for her community leadership and advocacy for Caribbean migrants to France. Since her death, her written works, which explore themes of alienation, exploitation, and nationalism, have been recognized as an important voice for French Antillean women in the period between the end of the Second World War and the end to colonization.
um livro que me ensinou sobre um país, trouxe reflexões de raça e ainda me presenteou com uma personagem que se divertia, tinha dúvidas típicas de crianças e começava a aprender mais sobre o mundo
Narrativa nem tão detalhada nem tão vaga. Na medida para manter a curiosidade. A autora negra traz relatos muito específicos de sua vida que em muitos momentos lembra o sertão nordestino ou de um interior com suas dificuldades, desafios e idiossincrasias. O relato observacional é muito rico e interessante de seu período da infância, cuja sua família passou por várias dificuldades e perdas, mas que com o seu olhar infantil aprendia e tirava lições.
O livro traz aspectos culturais presentes em muitos lugares como o patriarcado, o racismo velado, a pobreza e indiferença aos menos necessitados, a histórias locais e a dialetos de seus ancestrais. Recomendo para aqueles - como eu, tem buscado ler e valorizar escritoras e histórias negras para entender melhor outras realidades e empatizar sobre outras vidas. Com suas histórias, vivências e dinâmicas sociais.
Li esse livro para um clube daqui de BH e me surpreendi com a leveza que ele trouxe. A infância da Françoise não foi exclusivamente agradável, mas mesmo os momentos difíceis foram retratados com uma delicadeza particular daquela ilha. Amei conhecer sua fauna, sua flora, seu povo, seu cotidiano, seu clima... Foi tão mágico, fiquei levemente triste ao descobrir que a autora só tem mais um outro livro publicado, mas pelo menos ainda tenho mais a ler dela. Caso te interesse ver uma resenha maior deste livro, postei um vídeo lá no Youtube sobre a encantadora experiência. Fica o convite pra você conferir meu canal literário, Gira Trinco: https://www.youtube.com/watch?v=qZMHK...
O livro é excelente, escrita fluida, fácil de ler. Tem episódios bem tristes, é triste no final, é contado por uma adulta, mas descrevendo sua visão de criança, que eu amo. Traz um pouco dos reflexos históricos da colonização e da escravidão na América espanhola, o que sempre me desperta a curiosidade. Só não dou 5 estrelas, pq tenho reservado as 5 estrelas pros livros que me marcam a alma de uma forma particular.
Que leitura prazerosa, interessante e delicada! Eu nunca tinha nem ouvido falar na ilha de Martinica (de onde a autora é) e amei descobrir aspectos culturais, naturais e emocionais do povo de lá. Li para um clube do livro, indiquei para uma amiga que gostou ainda mais do que eu!