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O Osso da Borboleta

Uma cidadezinha atlântica portuguesa, hoje. Praia, casino, pescadores, peixeiras, doutores, bandidos, o rasto dos refugiados judeus da Segunda Guerra. Nesta terra consumida pela grandeza do passado — ou pela falsa memória de que foi grande — um homem escondeu-se do mundo. Onde nem todos os polícias juntos o encontram. Fala com as pombas e com deusinhos gregos, tem um Olimpo de vitrine. Quem não fez isto e aquilo e aqueloutro naquela altura?

A vizinha de baixo arrasta as pantufas da velhice e da solidão, insulta as suas flores. Purificação já foi a mais bela mulher da cidade. O jogo do passado vem ter com a Borboleta. Um deus de província e do dinheiro sujo quer esmagá-la. Morre o cão, acaba a raiva.

«O Osso da Borboleta» é um romance sobre um país que não encontra lugar no mundo. Da aflição das pessoas que procuram o amor, de fracasso em fracasso. Comédia humana onde, apesar de tudo, o mal pode morrer e a vida continuar.

224 pages, Hardcover

First published October 1, 2014

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About the author

Rui Cardoso Martins

28 books32 followers
RUI CARDOSO MARTINS nasceu em Portalegre, a 25 de Março de 1967. É um escritor, jornalista e argumentista português. Foi repórter e cronista no Público, e foi um dos fundadores das Produções Fictícias, sendo um dos escritores do programa Contra Informação, da RTP 1. Para o cinema, escreveu o guião de "Zona J" e (em parceria) o da longa-metragem "Duas Mulheres".

O seu primeiro livro, "E Se Eu Gostasse Muito de Morrer", de 2006, está na quarta edição em Portugal, tendo sido publicado na Espanha e Hungria. O seu segundo livro, "Deixem passar o homem invisível", foi premiado com o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores/Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.

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Displaying 1 - 8 of 8 reviews
Profile Image for Márcia Balsas.
Author 5 books109 followers
January 10, 2015
Por vezes há livros que não me dizem nada. E se de início a leitura não me envolve, e aqui vejo o claro inconveniente de ter muitos livros por ler, deixo de lado e passo para outro. O osso da borboleta foi um desses livros que me custou começar, não percebi o início, francamente não sabia o que estava a ler, não entendi, não me identifiquei.
Foram vários os motivos que me fizeram continuar. Alguma futilidade, pois os livros da Tinta-da-China são lindos e é um prazer tê-los nas mãos. Algum sentido prático, pois este é o livro da leitura em grupo para a sessão de Fevereiro da Comunidade de leitores Leya e grupo. E, a partir de uma certa altura, o verdadeiro interesse, na medida em que a acção se passa numa cidade que, pelas descrições, me começou a ser demasiado familiar, e que decidi que, para mim, seria a cidade onde cresci.
A partir deste momento criei o meu palco, e um palco conhecido ainda por cima, portanto tinha de continuar a conhecer as personagens que vivem, se movimentam e interagem nas ruas que eu conheço, habitam casas localizadas em bairros que eu sei onde ficam, conversam sobre edifícios e locais que eu sei quais são.
A partir daqui criei uma ponte válida para continuar, para conhecer um livro que se revelou, aos poucos, uma maravilha, oscilando entre passado e presente de forma hábil, construindo vidas para as quais eu fui atribuindo caras, permitindo-me o meu próprio exercício ficção/realidade. Se teria sido uma leitura mais interessante considerando uma cidade desconhecida, sem ruas definidas na minha cabeça, nem rostos reais a quem atribuir estórias? Talvez. Mas assim criei uma forma peculiar e interessante, e até pessoal, de prosseguir a leitura.
Foi o primeiro livro que li de Rui Cardoso Martins e, após um começo sinuoso, a escrita peculiar do autor foi-me convencendo e agradando cada vez mais. Apesar de não ter mencionado acima, o estilo pouco óbvio e a forma de dar só um pouco de cada vez ao leitor, foram também determinantes para que, mesmo sem dar por isso, me fosse agarrando mais ao livro. Constrói a narrativa de forma lenta mas sustentada, criando bases e razões para as atitudes das personagens, aguçando o interesse e dando a sensação de fim, de que tudo se vai fechar e fazer sentido.
Se no inicio é apresentado um homem que vive isolado e escondido num sótão, envolvido num mistério e secretismo que pode funcionar como uma construção caricata para suscitar a dúvida e fazer o leitor prosseguir, apesar de, como já referi, esta personagem inicial não me ter impulsionado para a leitura, antes me provocou estranheza e até algum asco, a narrativa vai fazendo surgir outras personagens com vidas que se tocam no presente mas com passados que se vão descobrindo devagar, numa leitura, agora sim, prazerosa e suculenta.
Se estivesse ao meu alcance classificar um livro de forma objectiva, “O osso da borboleta” seria um gráfico ascendente, demonstrativo do crescente empolgamento que me proporcionou. É sem dúvida um exemplo a reter de que, por vezes, vale a pena insistir, superar dificuldades e resistências para descobrir algo superior, que me levou muito além do que pude esperar. Um autor para continuar a descobrir.
Sinopse
“Uma cidadezinha atlântica portuguesa, hoje. Tem praia, casino, pescadores, bandidos, o rasto dos refugiados judeus da Segunda Guerra. Nesta terra consumida pela grandeza do passado — ou a falsa memória de que já foi grande — um homem escondeu-se do mundo, num sótão. Fala com as pombas e com deusinhos gregos, tem um Olimpo de vitrine. É ladrão mas não o admite. Quem não fez isto e aquilo e aqueloutro naquela altura? A vizinha de baixo arrasta as pantufas da velhice e da solidão, insulta as suas flores. Já foi a mais bela mulher da cidade. Purificação, ou melhor, Borboleta, antiga especialista em palpites de jogo. O passado vem ter com ela: um deus da província e do dinheiro sujo quer esmagá-la. Borboleta sai à rua e defende-se. Morre o cão, acaba a raiva.
O Osso da Borboleta é um relato em directo do último século de um país, Portugal, que não encontra lugar no mundo. Da aflição das pessoas que procuram a felicidade, de fracasso em fracasso. Uma comédia humana em que, para nossa alegria, o mal pode ser envenenado e a vida continuar.”
Tinta-da-China, 2014
Profile Image for Magda Cruz.
100 reviews81 followers
July 13, 2024
Uma história sobre solidão, uma solidão levada ao extremo por uma personagem que se torna insólita.
São aliás várias as histórias de solidão, cada uma da sua maneira.
É um romance que não se caracteriza pela facilidade de leitura, mas é muito prazeroso terminar a história, que ganha um novo fôlego nas últimas páginas, já que tem algumas partes mais difíceis de desenvolver, mas que têm como objetivo nos manter no enredo e intensificar a nossa relação com as personagens.
É um livro que fica cada vez melhor com a leitura.
Estou agora a ler o romance seguinte do autor, que surge dez anos depois, e vejo um ritmo renovado na história. Assim, quem perceber que este livro não tem o ritmo que desejava, pode estar descansado e continuar a ler o autor.
Adoro Rui Cardoso Martins, com a sua maneira de escrever insólita e pessoal.
Profile Image for Ana.
112 reviews43 followers
June 30, 2017
Um homem refugiado num sítio onde nem os polícias chegam. Uma vizinha mal humorada com problemas familiares, e passados também. Parece algo que eu escreveria mas Rui Cardoso Martins antecipou-se - é tão bizarro que chegamos a pensar que é verdade. É alucinante.

E deuses numa vitrine? Aposto que a Barbie ainda não se mexeu e o outro não vai dar o primeiro passo para saltar para cima dela. E Purificação? Que mulher.

Purificação e o nosso amigo sem nome que vive isolado vivem no passado e o autor é capaz de mostrar de uma maneira muito poética como o isolamento e o envelhecimento nos afeta, até porque "quem inventou a velhice devia arder no inferno". Tanta metáfora, tanta coisa boa.

Mais em: http://historiastantas.blogspot.pt/20...
Profile Image for Miguel Casalinho.
6 reviews
October 5, 2024
Que livro peculiar e estranho e tão misterioso. Nunca percebes qual é o ponto da história mas a história no início vai oscilando entre o POV de duas pessoas solitárias/isoladas por razões diferentes. E ao longo da história vamos descobrindo cada vez mais o contexto das situações e pq elas estão nessas posições.

E como a vida deitou estas duas personagens a baixo e elas não têm força para lutar e encontram se neste limbo de existência. Mas ao inspirar-se no que vê à sua volta a Purificação sai deste ciclo e luta contra o que a aflige e “mata” literalmente e figurativamente o que a prende e as flores voltam a crescer.

Acho que essa é a moral da história, a borboleta descobriu o osso e parece inspirar no fim do livro a outra personagem principal a uma mudança também. “Eu abro a boca e afinal tenho voz”.

Gostei imenso da maneira como a cidade é descrita e as tangentes que o narrador faz para histórias/memórias que vêm à personagem que estamos a seguir mesmo que não avancem a história para a frente. Estás a viver dentro dos pensamentos destas personagens solitárias que vivem muito dentro da própria cabeça.

Achei também interessante da história ter um tom mais moderno com humor negro e absurdo por vezes como por exemplo a estátua do Deus Apolo estar com vergonha de entrar na cama com a barbie, essa foi a que me ficou mais na memória. Não é para toda a gente acredito, mas achei muito bom

This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Andreia Morais.
522 reviews33 followers
May 13, 2022
TW: Morte, Referência a Doenças Terminais, Violência, Linguagem Explícita

O tom de desgraça é transversal a toda a história, que nos permite conhecer uma sociedade tipicamente portuguesa: conformada com a ideia de fracasso, mas sempre predisposta a sobreviver, a procurar por maneiras de contornar as adversidades. Assim, deambulando por uma série de temas concretos e outros abstratos, como se conversássemos sobre tudo e sobre nada, em simultâneo, somos transportados para um ambiente um pouco surreal, mas igualmente cómico. Os cenários parecem bizarros, mas é nesta insanidade que vamos identificando rostos e vivências. Original e com uma escrita envolvente, a beleza desta narrativa está nos detalhes.
Profile Image for Ana Ramos.
128 reviews12 followers
April 5, 2015
Admiravelmente bem escrito, surpreendente no registo e no estilo, nas variações da narrativa. Original e intrigante qb, com a sua nota disfórica.
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