“Um Auto de Gil Vicente” é uma obra de texto dramático escrito por Almeida Garret, escritor e dramaturgo do séc XIX. O texto dramático apresenta uma história protagonizada por vários célebres autores portugueses do séc XVI/XVII e algumas figuras da realeza, logo de início, trazendo uma dimensão de proximidade tangível para o leitor. É uma história de amor proibido na semelhança de obras como “Romeu e Julieta” de William Shakespeare, porém que, a meu ver não é das melhores iterações de uma obra deste género.
Esta peça poderia ser facilmente confundida por uma peça de Gil Vicente para o olhar desavisado, e até o modo de escreve — ainda que notavelmente romântico — poderia passar por uma peça do século XVII. Isto em si não é algo negativo, pelo contrário, adiciona um towhee de surpresa e originalidade. Porém os meus elogios param por aí.
Esta peça carece de personagens interessantes ou profundos. Tirada toda a linda folhagem dourada linguística que Garret usa na sua escrita das falar dos personagens— como o protagonista Bernardim Ribeiro — o que resta é um drama vazio e simplório, e personagens ainda mais.
A única personagem com algum tipo de complexidade é Paula Vicente, assim como tem um melodrama muito mais aliciante que nos faz se interessar mais pela personagem e as suas dores do que os heróis românticos tipicamente egocêntricos e ,honradamente, chatos e aborrecidos. Porém, Garret parece não valorizar o melodrama, o bom melodrama. Nenhum espectador do teatro ou cinema pode negar o peso e a importância do melodrama e a sua dramatização; quer por elementos cénicos ou até mais elementos gestuais e corporais dos atores. Garret parece também ignorar o meio que escolheu para a sua obra, o constrangimento no uso do teatro é notável e parece dar quedas nenhum material para aqueles que a vão representar ou até para compor uma boa “mise en cene”.
Dados estes pontos, posso afirmar que “Um Ato de Gil Vicente” é uma obra no meio errado, com uma história quase amadora que não se valoriza nem ao teatro que tem como objetivo elogiar. Uma peça que espero não refletir a obra inteira do autor e a sua visão do teatro enquanto arte.