Que país é esse a que chamamos «irmão» e que Stefan Sweig apelidou de país do futuro, frase que colou até se perder a sua origem, até o mundo o apontar também como a grande promessa do futuro? Que literatura é a dessa nação com que partilhamos a língua e parte da História? Como podem os seus escritores ajudar-nos a encontrar sentido no complexo quebra-cabeças da sua identidade e existência?
Isabel Lucas, uma das mais conceituadas jornalistas culturais portuguesas, empreende uma viagem-descoberta pelo Brasil, esse país simultaneamente tão próximo quanto longínquo, tão íntimo quanto desconhecido. Fez as malas e partiu da literatura brasileira – dos seus escritores e das suas obras basilares – como a forma possível de perscrutar a identidade dessa geografia imensa.
Mergulhando nas obras de autores imperdíveis – Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Erico Verissimo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Mário de Andrade, Milton Hatoum, Raduan Nassar, entre muitos outros -, Isabel Lucas oferece-nos nestas páginas um fascinante vislumbre da alma do Brasil, das suas inquietudes e conflitos, das suas emoções e contradições, um país ainda – e sempre? — em formação, atravessado por uma língua comum, a portuguesa, que ali se reflecte em toda a sua vibrante riqueza e diversidade.
Isabel Lucas tem formação em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa. Jornalista e crítica literária, escreve regularmente no jornal Público e colabora com várias publicações, sobretudo nas áreas de cultura e viagens. Ao longo dos últimos cinco anos, tem vivido entre Lisboa e Nova Iorque. É autora do livro Conversas com Vicente Jorge Silva (Temas e Debates, 2013). Viagem ao sonho americano resulta de um périplo pela América, a partir da sua literatura, vertido em reportagens publicadas ao longo de um ano no jornal Público.
Não consigo ler livros que generosamente se debruçam sobre outros livros, sem sentir o remorso de não usar o tempo para ler directamente os ditos. Mas há certos deles que me põem num virote. Assim com Kundera, que me pôs à procura de Os Sonâmbulos por este deserto editorial onde nunca nada está à mão: são sempre três volumes e desses o alfarrabista nunca tem mais que dois. Como a recente Vallejo, que conhece bem o poder aditivo das listas e me pôs em remordimentos dolorosos com os antigos por ler (ali me aguarda, vinda de um leilão da internet, a Oração da Coroa, que seguramente vai mudar a minha vida). Certos efeitos são rápidos e inesperados (Tom Jones?) outros mais tardios, como há pouco tempo, quando dei por mim a cotejar a leitura que fazia do Jane Eyre com as opiniões de James Wood. Assim com este Viagem ao País do Futuro, que mistura entrevista literária, relato de viagem, diário, pesquisa sociológica e depoimentos vários à volta de um centro formado por um clássico da literatura brasileira. Reunião de textos jornalísticos, integra métodos diferentes, interessantes de modo diferente para leitores diferentes. Eu arrimei-me a ele como a um guia, quer para visitar autores que já conhecia e faziam parte (Nassar, Rosa) ou não (Trevisan) do meu panteão, quer para me inteirar de vultos com que inexplicavelmente nunca me cruzara, como Graciliano Ramos e Euclides da Cunha (esse peculiaríssimo Os Sertões, que me deixou embasbacado). Utilíssimo para o leitor confundido que sou, este itinerário brilha, sobretudo, nas entrevistas, e tem o seu máximo na visita a Nassar, que finta eficazmente o enorme elefante na sala (a obra) enquanto se diverte a trocar fatias de bolo e comentário político com uma jornalista em transe tanto com a intensidade da obra como com a do café servido. Curitiba é um passeio dentro do invisível Trevisan e os textos sobre escritores mortos são sobretudo o farejar da geografia, à procura do mistério autoral. No meio, Isabel Lucas fala com pessoas, produz um retrato social do Brasil de Bolsonaro, interessante mas por vezes demasiado entrecortado pelas vozes dos académicos. A mim, sinceramente, dava-me jeito ter de vez em quando um livro assim.
Incrível o olhar da jornalista portuguesa sobre obras clássicas brasileiras. Raramente dou chances a livros que falam de outros livros, mas este foi uma exceção realmente inspiradora, que faz querer mergulhar mais fundo em tantas obras-primas do nosso país.
Estou lendo esse livro desde janeiro. Eu leio mesmo devagar, gosto de tirar um tempo pra deixar o pensamento decantar dentro da minha cabeça e passo semanas revivendo as palavras, costurando os pensamentos e fazendo isso virar conversa de bar na primeira oportunidade. Com esse livro não foi diferente.
Sinceramente que ideia fantástica conhecer um lugar por seus livros. Eu estudo espaço, falo o tempo inteiro sobre futuro, identidade, e se eu não estou planejando uma viagem, estou com a cara enfiada em um livro.
Isabel me fez ver o Brasil com outros olhos. Me senti de viagem junto com ela, alguns capítulos cansativos, outros muito empolgantes. Revisitei clássicos que rejeitei na adolescência na época das aulas de literatura e que agora entraram pra lista e continuei sem resposta alguma sobre como definir nossa identidade nacional.
Mas tudo bem, tenho gostado de não ter tantas respostas mas ter experimentado fazer boas perguntas.