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A infelicidade é a excepção na vida dos animais amados, e não, como no caso dos humanos, a regra. Isto que dizer que nós, que partilhamos a experiência irreversível do gosto pelos animais, conseguimos por vezes trazer a felicidade absoluta a algumas criaturas deste planeta. A felicidade dos animais ainda é uma ideia nova na Terra. Estamos a tentar explicá-la e impô-la. Pedimos desculpa pelo incómodo causado.
Foi auspicioso o início desta colectânea de crónicas de Paulo Varela Gomes publicadas entre 2002 e 2012 no jornal “Público” e na revista “Os Meus Livros”. Numa secção intitulada “Bichos”, o autor reúne textos sobre os animais, num libelo contra o abandono, a caça e a tourada, com uma reflexão sobre o abate de animais para consumo humano, em que me senti em total sintonia com ele.
De entre todos, só as crianças e os cães têm olhos que podem fazer baixar os nossos. Estamos imunes em relação aos pedintes da espécie humana. Há muito tempo que são precisos efeitos especiais para que suscitem a nossa atenção, para já não falar da nossa piedade: malformações genéticas ou auto-infligidas, vestígios de doenças (...).
Na segunda parte, “Com os Olhos“, o meu interesse começou a esmorecer e, ao contrário do que previa, não se espevitou no conjunto de crónicas sobre a Índia. Não simpatizei com este autor, e isso parece-me essencial num livro feito de exposição de temas pessoais e experiências de vida. Ou, se calhar, é o tom impessoal e altivo, sem vestígios de humor ou calidez, que me impede de terminar este livro em que o autor parece preocupado sobretudo com o ordenamento do território em Portugal e na Índia. Tenho pena, mas não é para mim.