Numa terra de cedros milenares e banhada pelo Mediterrâneo, encontra-se um país nascido de cidades que existem desde a Antiguidade e que cresceu como nação entre convulsões e conflitos.
Em "Líbano, uma biografia", Safaa Dib reconstrói uma cronologia familiar ao longo de gerações, que se cruza com a história libanesa desde o final do Império Otomano até aos dias de hoje, passando por revoltas, fomes, guerras mundiais e civis, fugas pela sobrevivência ou explosões devastadoras. Mas faz também um relato de migração, integração, crescimento e adoção de um novo país e de uma nacionalidade, a portuguesa, durante as últimas décadas do século xx, sem nunca perder as raízes profundas que a ligam ao Líbano.
Num retrato emotivo e sensível, esta é tanto uma história de família como a da resiliência de um país que viu muito do seu povo disperso pelo mundo, mas também uma janela para as complexas vivências da imigração, mostrando que somos todos feitos de múltiplas identidades.
Safaa Dib é filha de imigrantes libaneses e passou grande parte da vida entre Lisboa, Oeiras e Cascais. Desde muito nova, demonstrou uma paixão insaciável por livros que a levou a formar-se em Línguas e Literaturas Modernas, na Faculdade de Letras de Lisboa. Ao longo de uma década, trabalhou no mundo editorial português, onde se especializou em ficção. De natureza irrequieta, pôs fim à sua carreira editorial e fez uma breve passagem pelo mundo da restauração, até finalmente abraçar a política a tempo inteiro. Fez parte da fundação do LIVRE, integrando atualmente o gabinete do partido na Câmara Municipal de Lisboa. Continua ligada ao mundo editorial e organiza o festival de banda desenhada Maia BD, desde 2023. Escreve regularmente crónicas para o Jornal Económico.
Uma história pessoal de uma família libanesa emigrada em Portugal que se lê num àpice. Com um breve contexto histórico -para mim necessário- o livro está escrito de uma forma apelativa, de que gostei bastante e recomendo
“Afinal, o que é uma história de imigração? Partir do ponto A em direção ao ponto B e depois fazer o caminho de volta. Carregar às costas a casa que queremos construir, em direção ao sonho que desejamos concretizar. É um acumular de esperança. Sempre a esperança subjacente de que a vida que está por vir será infinitamente melhor do que a vida que teríamos tido.”
Este livro começa por me dar uma lição de história de uma terra que pouco conhecia. Acompanhamos os vários povos que o habitariam, as diferentes lutas, invasões, momentos áureos e outros mais pesados (bem mais pesados…). A história do Líbano é fascinante e fiquei com vontade de saber mais. A certa altura passamos a conhecer a história dos bisavós da autora e, num entrelaçar impossível de desfazer com a história recente do Líbano, acompanhamos os anseios, alegrias, ansiedades e sofrimento das gerações e das convulsões que os últimos 100+ anos lhes trouxeram. O capítulo da guerra civil é especialmente difícil mas necessário para entender as várias transformações que levaram ao Líbano de hoje. Não fica difícil de entender os motivos que levaram a família da autora a emigrar, mas não por isso deixo de empatizar com a sensação de culpa que os seus pais sentiram por estarem longe do resto da família, do seu país, quando atravessavam momentos menos bons. A última parte é mais pessoal, a autora consegue expor de forma clara a sensação partilhada por muitos imigrantes: a de a sua identidade nunca ser totalmente do país de acolhimento, por muitos anos que passem, e de não pertencer já ao país de origem, sendo fácil encontrar a sensação de solidão num local e noutro. Apesar disto, a autora tornou-se num exemplo de integração, participando ativamente na política portuguesa sem deixar de carregar consigo a sua identidade. Gostei imenso de o ler, foi de leitura agradável e fluída e espero que a autora continue e publique outros títulos.
Recordo com saudade almoçar na Casa dos Cedros, altura em que descobri quem era a Safaa e comecei a seguir o seu trabalho.
Safaa foi poupada aos horrores da guerra, mas privada de conhecer os familiares que ficaram para trás. Neste livro, conta a história da sua família ao longo de décadas no Líbano, mas também a sua própria vivência em Lisboa, nos anos 80 e 90, com os pais e irmãos.
Gostei muito de conhecer o retrato da família El Dib, uma entre tantas outras que, fugindo às desgraças que persistem nos seus países de origem, encontraram um novo começo em Portugal.
Recordo-me da Safaa Dib através do ex-Twitter, onde era uma pessoa muita ativa, popular, acarinhada, bondosa, acessível. Sempre foi uma pessoa multifacetada com muitos projetos, um exemplo de dedicação às causas em que acredita. Apesar da radicalização recente do país foi com alguma surpresa que no ano passado que vi campanhas agressivas de perseguição online xenófoba por elementos de extrema-direita contra ela. Num momento em que o país recebeu muitos imigrantes esquecemos as suas histórias de vida, que se confundem muitas vezes com a história dos seus países de origem
É por isso que este livro é importante. Safaa mostra-nos a história dos povos do Líbano, principalmente os drusos, este povo misterioso com uma religião misteriosa a que Safaa pertence. Acompanhamos a história recente do Líbano pelos olhos de Saada Dib (nascida em 1875) e seus descendentes (Safaa Dib é um deles) e que viveu 107 anos até à Guerra Civil no Líbano, parte inevitável no livro, incluindo um capítulo dedicado a um horrível massacre.
Ninguém escolhe ser refugiado de guerra e muitas vezes é mesmo a única opção. Há uma frase do livro onde tal é espelhado de forma direta quando o avô de Safaa diz para o pai de Safaa: “Parte se puderes e leva a tua família, nada resta aqui para ti". Safaa acabou por não nascer o Líbano, fruto da sua família ter tomado a decisão difícil de abandonar o país em guerra.
Quis o destino que a família de Safaa tivesse escolhido Portugal para viver. E este é também um livro sobre os desafios de quem tem uma dupla matriz de origem, a do país de origem da sua família e a do país onde cresceu. De procurar estar bem com os dois lados e de tentar não pô-los em conflito.
Uma leitura atual que gostei bastante e que recomendo
Uma obra poderosa, mas de grande contenção. Uma biografia, quase saga, que sem entrar em emotividades fáceis e tentadoras, narra o essencial do que é ser estrangeiro em dois países. Naquele em que se nasceu e naquele que foi escolhido para se viver. E se tantas vezes é mais fácil, para esses que migram, tentar passar despercebidos para não se meterem em trabalhos e perigos, Safaa acabou por escolher a via da visibilidade, da participação cívica ativa, com coragem e verticalidade.
Grande também é o valor de todo o enquadramento histórico, religioso e cultural que a autora foi fazendo ao longo do seu discorrer narrativo.
Um livro que começou por parecer demasiado histórico, contrariamente ao que esperava, mas que pouco a pouco surpreendeu e compreendi o porquê de tanta história para conseguir enquadrar a narrativa. Esta é uma das zonas (Líbano e países que com ele confinam) mais complexas da história, e a descrição da autora ainda mais me surpreendeu, permitiu elucidar-me um pouco sobre uma complexidade que eu não imaginava; o mosaico de religiões e etnias superou tudo aquilo que eu conhecia, e está aqui muito bem exposto. A história da vida da autora e família é outra coia a que não estamos habituados, felizmente não conhecemos o que e´viver permanentemente em guerra e ter de emigrar por esse motivo. Fascinante a história que inicia no Líbano, passa para o Dubai, volta ao Líbano e finalmente...um destino improvável para esta família, Portugal. Interessantíssimo o ponto de vista de uma libanesa-lusa com toda a riqueza de experiências aliadas ao património histórico riquíssimo da família.
Um livro emocionalmente intenso, guiado pelas figuras femininas da família ao longo da História - do Líbano, da família, e da própria autora.
Li com lágrimas nos olhos, ao projetar as figuras da minha própria família naqueles cenários: o que seria da minha mãe, da minha avó, das minhas tias se tivessem passado pelo mesmo? As histórias e dificuldades por que elas passaram na vida poderiam ter sido semelhantes se Portugal tivesse sido devastado pelos conflitos e jogos de poder naquela região.
Um livro centrado nas pessoas e muito importante para entender o Líbano e a região como um todo.
A autora, de origem drusa, veio para Portugal com os pais e irmãos ainda criança e aqui se formou, mas mantendo sempre uma estreita relação com os familiares residentes no Líbano. Conta-nos a história do Líbano desde o final do império Otomano até aos dias de hoje, conta-nos as divisões étnicas e religiosas existentes e as sucessivas lutas pelo poder que levaram à ruína do seu país. E nesse aspeto, muito interessante. Saffa evidencia as suas opções políticas, ligadas à extrema-esquerda (Livre). E é aqui que a minha nota baixa do 4 para um 2,5 que generosamente arredondo para 3. Pensei que o termo “a bota do capitalismo” como sendo uma máquina trituradora implacável já estava desatualizada, mas afinal não. Sugestão: Safaa, visite um país socialista, porque ainda há alguns, como p. ex. Cuba e lá fale com as pessoas e julgue por si mesmo se é essa a sociedade que pretende!