Foi ao ler Os Pescadores, de Raul Brandão, que Djaimilia Pereira de Almeida encontrou a frase que haveria de inspirar anos depois A Visão das Plantas. Raul Brandão fala de personagens que conheceu quando era levado pela mão até ao colégio. Entre eles, estava o capitão Celestino:
“[T]endo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. […] A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino… Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mundo.”
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA nasceu em Luanda em 1982. É licenciada em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Teoria da Literatura (2006) e Doutorada em Estudos Literários (Teoria da Literatura) (2012), pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2013, foi uma das vencedoras do Prémio de Ensaísmo serrote atribuído no Brasil pela revista serrote, do Instituto Moreira Salles. Fundou e dirige a Forma de Vida (www.formadevida.org). Trabalha na Fundação para a Ciência e a Tecnologia e é, desde março de 2021, consultora da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
A conversa não acordou o capitão que, após dissertar sobre o regadio, versava o estudo que andava a fazer às pétalas. Talvez não gostasse de pessoas, nem sentisse saudades. Aquele não era um lugar assombrado. O homem previdente que ali vivia só plantava as flores do seu sepulcro.
Não resisto a histórias sobre eremitas rezingões, pessoas que optam pelo isolamento e pela solidão, e o velho lobo-do-mar que protagoniza “A Visão das Plantas” e regressa à sua terra-natal depois de uma vida de violência e brutalidade no ultramar, é uma personagem realmente intrigante. Celestino volta para a casa da sua infância, agora abandonada, cego de um olho, cheio de aventuras assustadoras para contar às crianças das redondezas e dedica o resto dos seus dias a um luxuriante jardim repleto de cheiros e cores, assombrado pelos fantasmas dos seus remorsos. É o segundo livro que leio desta autora num curto espaço de tempo e a conclusão a que chego é que conta histórias bonitas na sua simplicidade e emotividade, onde o conteúdo poderia valer por si só, mas enfarpela-as com constantes recursos estilísticos e com uma linguagem que se torna excessiva, que me cansa na decifração do sentido subjacente a muitas frases.
As plantas viam-no como um olho de vidro vê a passagem das nuvens. Elas e o seu amigo eram seiva da mesma seiva, da mesma carne sem dó nem piedade. Atrás das costelas, no lugar do coração, o corsário tinha uma planta. E, por tudo isso, não o julgavam.
Foi difícil entrar na história e estive para desistir. A autora escreve muito bem, mas acredito que tem de haver um limite para as frases descritivas de léxico quase indecifrável. Ainda bem que não desisti, porque depois a narrativa ganhou ritmo e transformou-se numa história cativante.
"Mergulhou para dentro. No final de contas, a vida não lhe dera a nobreza de morrer em novo. Deixara-o sobreviver num esqueleto inútil. Quisera que se visse abandonado. O mesmo mar que o cuspira, permitindo-lhe o regresso, zombava dele, num último lance de ironia, tornando-o em terra uma curiosidade para a imaginação das almas puras. Domesticara-o: enjaulara-o num jardim."
Em A Visão das Plantas, estamos diante de uma breve história que se ambienta em Portugal, mais concretamente no quintal de um ex-capitão de navio negreiro, Celestino, que abandonando o mar, passa a cultivar um jardim com paciência e afeto, se contrapondo a pessoa que foi no passado.
Utilizando-se de frases curtas, confusas e desconexas, a autora narra as duas faces do ex-capitão, que conta a quem quiser lhe ouvir todas as atrocidades que cometeu, desde derramar cal sobre as cabeças dos cativos, até banhar o mar com seus corpos, tudo isso, sem arrependimento algum. Em contradição, fica visível a sensibilidade para com que cuida de suas plantas, que diferentemente do que imaginam, não estava cultivando seu túmulo e sim, a vida.
Por mais que a temática seja louvável, a leitura da obra foi um tanto indigesta, caótica, entre o espaço da vida e da morte, há muitas lacunas, de tal forma que não recomendaria, uma vez que a narrativa não é fluida e nem prazeirosa.
Lindamente escrito e super lírico, o que eu gosto bastante, mas eu não consigo dizer que eu entendi muito mais do que a premissa aqui. Sinto que ou o livro se perdeu um pouco na sua linguagens ou ese é um daqueles que é mais inteligente do que eu (e tudo bem).
Ein Buch mit Pflanzen, das muss doch eine alte Gärtnerin lesen, aber dann erhielt ich etwas völlig anderes als ein hübsches Gärtnerinnenbuch. Die Autorin, in Angola geboren, in Portugal aufgewachsen, hat sich eine Figur aus dem Buch „Die Fischer“ des portugiesischen Schriftstellers Raul Brandão ausgesucht, einen Kapitän Celestino, der einst Pirat gewesen und Verbrechen begangen haben soll, aber im Alter einen zauberhaften Garten anlegte. Seinen Lebensabend beschreibt ihr Buch in einem wilden, fieberhaften, poetischen Stil.
Man erzählt sich schreckliche Dinge über den alten Seemann, der in Brandãos Buch am Lebensende ein Heiliger wird. Hier ist aber von Heiligkeit keine Rede, eher von dem alternden Fahrer eines Sklavenschiffs, dessen schlimme Taten ihn einholen und allmählich wahnsinnig werden lassen. Dabei gibt es keine Einsicht oder Reue, keine Anklagen oder Beschuldigungen. Die Opfer gedeihen in den Träumen des Täters wie die Pflanzen in seinem Garten, dem er alle Zeit widmet. Pflanzen, Personen, Handlungen verschlingen zu einem großen Zusammenhang oder einfach nur zu den Gedanken eines alten einsamen Mannes, wer weiß?
Ich bin mir nicht ganz sicher, was die Aussage des Buches sein soll. Die, dass aus einem Mörder vielleicht ein Gärtner, aber keinesfalls ein Heiliger werden kann? Oder: traue keinem Gärtner mit schönem Garten? (Beeindruckend war jedenfalls, wie ein Seemann, der fast noch als Kind aufs Schiff gegangen ist, sofort auf Gärtner umsatteln konnte.) In Rezensionen las ich auch von Aufarbeitung der Kolonialgeschichte. Falls das Absicht war, dann nicht sehr deutlich.
Lesenswert war das Buch vor allem durch die ganz außergewöhnliche Sprache, in der die Gedanken eines immer verwirrter werdenden Alten mit dem Garten bzw. den Pflanzen verbunden werden bis sich alles auflöst.
Ich weiß nicht so recht, was ich schreiben soll. Nachdem ich ein Buch lese, das ich nicht so recht beurteilen kann, lese ich mir immer die Rezensionen anderer dazu durch - in der Hoffnung, darin etwas zu finden, das mir beim Verstehen hilft.
In diesem Fall sind nahezu alle verfügbaren Rezensionen auf Portugiesisch geschrieben. Als herausstechend empfindet man dort die archaische Sprache, die dem Buch wohl eine gewisse Würze zu geben scheint. Ohne, dass es die Schuld der Übersetzerin sein könnte, würde ich behaupten: Das habe ich beim Lesen der deutschen Fassung nicht gemerkt.
Was ich schreiben kann ist, dass das Buch ... "etwas hat". Ein Garten voller blühendem Leben, ein alter Schlächter in seinen letzten Jahren. Eine Synergie, die man sich ganz gut vorstellen kann und die dann doch wieder grotesk scheint.
A partir de uma citação de Raul Brandão, a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida recria uma história possível para o Capitão Celestino, o ancião cheio de mistérios que habita sozinho (ou, melhor, com os seus fantasmas) um casarão português. Sabemos que Celestino foi, nos tempos da escravidão, um temível capitão de barco tombeiro, conhecido pela sua crueldade. Hoje, aguarda o final da vida cultivando o seu jardim, acompanhado pelos fantasmas do passado, que se aparecem em sonhos e em visões, mas sem aparentes remorsos pelas suas ações.
Pereira de Almeida consegue, numa linguagem poética e evocadora, cheia de imagens sensoriais, adentrar-se pelas contradições e ambiguidades morais de uma personagem que, ao mesmo tempo que pode inspirar a ternura pela fragilidade da velhice solitária e o encantamento pelo jardineiro que cultiva com maestria as suas flores, gera a repulsa e o desprezo pelo escravagista sem piedade, capaz de matar centenas de cativos acorrentados no porão do navio negreiro, ou de abandonar uma criança amarrada a uma árvore no meio do mato.
Num campo literário e cultural cada vez mais definido pelo asséptico, a autora não tem medo de se arriscar humanizando uma personagem desumana, fugindo do retrato fácil de traços grossos.
Belíssimo livro. A partir de uma personagem retirada do livro de não-ficção de Raul Brandão, Os Pescadores, Djaimilia constrói uma narrativa de ficção do capitão Celestino, quase cego e santo, dedicando-se às plantas depois de uma vida como pirata “de uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil”. O perfume intenso das flores, os odores inebriantes dos frutos “os atilhos coloridos que prendiam os ramos mais altos das rosinhas cor de chá às paredes da casa, a paz do quintal, o amor posto em tudo (...)” “ As plantas viam-no como um olho de vidro vê a passagem das nuvens. Elas e o seu amigo eram seiva da mesma seiva, da mesma carne sem dó nem piedade. Atrás das costelas, no lugar do coração, o corsário tinha uma planta. E, por tudo isso, não o julgavam.”
Kolonialismus, Unterdrückung, Schuld und Schönheit. Djaimilia Pereira de Almeida bringt mit "Im Auge der Pflanzen" eine poetische Betrachtung zu den Themen und schafft es, mit dem kurzen Buch zu begeistern und sprachlich zu packen.
Seu primeiro livro que li foi Esse cabelo, e agora após a leitura de A visão das plantas posso afirmar que seu jeito de escrita é bem peculiar. Djaimilia usa frases soltas e meios desconexas na narrativa que a meu ver diminui a fluidez da leitura, entretanto não há como não ter excelentes reflexões nas suas palavras. A visão das plantas é um livro que narra a história de Celestino, ex capitão de navio negreiro e sua relação com as plantas do seu quintal. Ao passo que Celestino vai cuidando das plantas algumas histórias do seu tempo de capitão de navio negreiro são contadas, como também algumas memórias e alucinações, uma vez que, ele já está bem idoso e já quase cego. Saindo um pouco da história do capitão em si a autora nos faz refletir sobre o excesso de julgamento que fazemos com o outro e como isso se opõe a humanidade do ser o humano, quero dizer, que julgamos o outro binariamente como bom ou ruim e nos esquecemos que são várias facetas numa mesma pessoa. Alguns assuntos relevantes como arrependimento, indiferença e empatia são refletidos nas entrelinhas, uma vez que o personagem faz uma autocritica dele com o mundo e há claramente uma indiferença das plantas com ele e dele com a realidade. Apesar de todos os esforços de Celestinos com as plantas, para elas ele não era “ninguém”. "Capitão Celestino amava as flores, se é possível amar sem guardar memória. Ou Deus queria fazer dele exemplo de que o amor não precisa da lembrança para amar, ou a bondade do seu quintal não era aquela que foi destinada às coisas naturais, o seu saberem fazer o bem sem saberem o que fazem, a bondade de cabeça oca de uma máquina perfeita, perfeitamente diabólica".
Livro interessante, qualidade de escrita inegável. Ao contrário do ponto de vista que o título sugere, apenas em partes a narrativa se concentra num ponto de vista externo ao ser humano. São efetivamente as melhores partes, quando a narrativa flui com uma dissociação da experiência humana e uma adaptação da flora ao contacto com o ser humano. Ao longo de toda a narrativa é referenciado o caráter duvidoso do protagonista, bem como um passado a fervilhar de possibilidades de um confronto, mesmo que não físico e real, mas pelo menos psicológico e pessoal. A narrativa parece efetivamente ameaçar ser um passado que levaria a uma reflexão do protagonista, dada a sua situação de vida, mas infelizmente nunca é realmente confrontado. Existe muita promessa a uma determinada altura com a introdução de uma personagem pelo menos culturalmente relacionada com o passado do protagonista mas, tão rápido como surgiu, essa personagem desaparece levando-me a ponderar exatamente qual o real objetivo da sua introdução. A experiência de leitura deste livro foi agradável, pois a escritora tem uma capacidade impressionante de agarrar o leitor com as suas descrições vívidas e detalhes idiossincráticos, mas deixou-me algo insatisfeito quanto ao arco da história, que terminou abruptamente com uma parte final confusa e algo dispersa.
Fiquei na dúvida entre 3 ou 4 estrelas. A premissa é muito boa e, em alguns momentos, a leitura também. Mas fica um gostinho de livro presunçoso que não me agrada. rs
(Essa capa belíssima com ilustração do Wiliam Santiago é de emocionar.)
Quando uma vida de crueldades dá lugar ao cultivo da vida que é indiferente ao criador.
Repleto de ambiguidades, o livro narra o retorno do Capitão Celestino, comandante de uma equipe de negreiros, ao seu antigo lar. Em seu retiro ele troca a morte pela vida: passa a cultivar com afinco um jardim com as mais variadas plantas. Sua jornada de crueldades é ofuscada pela vitalidade de suas plantas, tratadas pelas mãos que, no passado, caçaram, enganaram, sufocaram e mataram. Essas plantas, porém, regidas pela Natureza e indiferentes aos dilemas dos homens, sequer notam qualquer torpeza naquele jardineiro e seguem seu curso vital; ou deveria dizer: são indiferentes e resilientes àquele que poda seu livre crescimento, que as escraviza.
Diversas passagens e frases são marcantes e me peguei refletindo que para nós, humanos e dotados de consciência e razão, os dilemas morais são o que nos assombram; por mais que tentemos ofuscar nossa vileza, ela nos acompanha, mina nossas forças, sufoca. E levando a uma analogia às plantas: nós tornamo-nos aquilo que cultivamos em nosso ser.
"Que havia de fazer aos seus dias, agora que estava perto do fim? A casa materna não viajara, embora as suas paredes estivessem tisnadas, como a pele do capitão. Não havia matado ninguém, apesar de ostentar cicatrizes, de conter dores mudas. Contava só com as tatuagens do tempo, com os ninhos das andorinhas, que tinham borrado os beirais dos telhados como se borra uma alma".
Um livro escrito pra lembrar que os canalhas também envelhecem. É angustiante ir acompanhando o jardim ganhar vida, ao mesmo tempo que a mente de Celestino vai perdendo a lucidez. Enquanto Celestino cuida das plantas, ele também se torna planta, sai do mar e se torna terra, pra onde todos voltam.
Uma leitura intrigante, angustiante, desconfortável e impossível de largar. Toca na ferida que Portugal quer esconder.
Reconheço que é um livro extremamente bem escrito, mas talvez por não estar habituada a ler livros escritos em português europeu, a linguagem mais rebuscada atrapalhou meu ritmo. Acredito que esse seja um livro pra ler de uma vez só… se acostumar de uma vez com o vocabulário e se encantar com a inteligência da autora.
Maravilhoso, anseio por lê-lo muitas vezes ainda. Um livro pequeno mas denso, não se engane pelo tamanho achando que vai ser uma leitura rápida, porque requer paciência e calma. Mas vale todo o tempo investido.
demorei um pouco pra engatar na história mas li porque é leitura obrigatória fuvest e no meio do livro passei a apreciar o estilo de escrita da autora. o livro é muito descritivo e não tem uma linguagem tão simples, mas há muita beleza e poesia no enredo.
Tenho certeza de que Djaimilia escreve muito bem e que a história é belíssima - ainda que trate de alguém cruel. Mas sua escrita não funciona pra mim. Não consigo acompanhar, nem entrar na história e muito menos seguir o ritmo. E nem sinto vontade de tentar de novo…
É um livro extremamente descritivo. Em um momento você consegue ver, sentir, cheirar, tocar a história, mas em outro fica intragável o excesso de descrições em uma linguagem arcaica, difícil de decifrar. Tive que ler e reler quase todos os parágrafos com certo esforço. Não é um livro com uma leitura fluida, é bem dura e truncada. Depois que você simplesmente desiste de querer entender cada palavra, fica melhor. A história não é nada demais, nada mesmo, até penso que o ponto desse livro não é a história em si, mas sim como é contada. Gostei e não gostei. Como o final é conduzido é decepcionante, esperava mais. Por ser uma escritora contemporânea, poderia trazer uma linguagem mais atual.