Ugo Giorgetti, nascido em São Paulo no ano de 1942 é um aclamado cineasta brasileiro. Dirigiu os elogiados “Festa” (1989), vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Gramado e “Sábado” (1995). Seu maior sucesso de bilheteria foi o divertido “Boleiros – Era uma vez o futebol”, lançado em 1998 e até hoje muito reprisado e comentado.
Este último filme de Giorgetti revelou o que muita gente já sabia: que ele é um boleiro dos bons que acompanha o futebol com um olhar aguçado e muito senso crítico. Os responsáveis pela edição do jornal “O Estado de São Paulo” perceberam o potencial desse “lado boleiro” do cineasta e lhe deram um espaço: uma coluna dominical em que ele publicaria uma crônica sobre essa grande paixão nacional que é o futebol.
Portanto de 2004 a 2020 o “Estadão” publicou crônicas de Giorgetti que se tornaram uma grande atração das edições dominicais desse tradicional jornal. Este ótimo livro, lançamento, caprichado do selo literário Quimera da editora Imprimatur, reúne 132 crônicas das mais de 500 que ele publicou no “Estadão” além de outras que Giorgetti publicou e 2021 a 2023 no blog “Ultrajano” do jornalista José Trajano. Além de todas essas ótimas e divertidas crônicas o livro traz catorze contos inéditos que também abordam o tema futebol e belos posfácios de autoria de Alcir Pécora, crítico literário, editor e professor e do jornalista José Trajano.
Vale a pena ressaltar que Ugo Giorgetti é um nostálgico que vê o futebol atual com grandes reservas. O futebol de hoje, marcado por expressões como “recomposição defensiva”, “VAR”, “intensidade”, “ocupação de espaços”, “box to box” e “versatilidade” para ele é uma deturpação imposta pelo domínio do mercado sobre o esporte. Giorgetti valoriza em seus textos o futebol baseado no improviso, nos arroubos geniais dos grandes craques, na observação in loco do jogo reverenciado por arquibaldos e geraldinos nos estádios de antanho ao contrário das modernas “arenas” que ele execra. Creio que em alguns momentos essa nostalgia incomoda um pouco pois, creio, que é natural as coisas mudarem mas, de qualquer forma, os textos são muito bem escritos e merecem ser conferidos na íntegra, principalmente por quem gosta do “rude, porém belo, esporte bretão”. Acerca desse aspecto nostálgico que permeia os textos de Giorgetti o posfácio de autoria de Alcir Pécora faz uma análise muito bem fundamentada:
“No limite, os textos de Ugo Giorgetti são uma forma de apóstrofe ao leitor: ele o convoca a tomar um lugar na lenda do futebol, isto é, para se deixar impregnar pelo clima, pelas histórias fantásticas, pela literatura do futebol, não pelo jogo cru da publicidade. Por isso mesmo se regozija de não haver registro midiático do que houve de melhor no futebol brasileiro: os tantos gols de Pelé que não foram vistos por quem não os testemunhou in loco; os milhares de dribles fulminantes de Garrincha em campos recônditos; as faltas de Didi que foram morrer no fundo do gol como folhas secas que descaem ao vento imprevisto e que se conhecem apenas de ouvir falar etc, etc. Enfim, tudo o que não foi registrado apenas pode emergir em imagens intermediadas por fantasmas [...]. Se preferirmos uma imagem mais adequada ao narrador cineasta, teríamos que pensar no futebol brasileiro mais como uma Cinemateca, onde as imagens recolhidas e tratadas são sobretudo as de um jogo de mortos. Então, o que as imagens provam é que o absurdo da existência não são os fantasmas, mas o nosso descaso pela sua existência”.
Todas as crônicas são um atrativo à parte mas, em minha avaliação, merecem destaques especiais “O santo remédio”, “O inglês de Joel Santana” (curioso como Giorgetti se indignou com o festival de gozações que surgiu em função do inglês macarrônico de Joel), “O burro”, “Dois nomes”, “O começo e o fim” (emocionante texto que aborda a questão dos bons jogadores que, após se retirarem dos gramados se tornam treinadores: “Esses, quando se retiram também da carreira de treinador, é como se morressem duas vezes. Não há mais nada diante deles”, observa o autor com certa melancolia), “A maior atração” (texto sobre o pênalti, momento ímpar do jogo que disputado por 22 se reduz nesse momento a 2: “Todos os outros jogadores em campo se reduzem, drástica e subitamente, a torcedores iguais aos das arquibancadas”. [...] “O pênalti pertence ao futebol, mas não é o futebol”), “Graças a Deus” (texto em que Giorgetti, indignado pela irritante mania de muitos jogadores considerarem-se abençoados pelo todo-poderoso por seus feitos em campo, tenta abordar a questão por outro aspecto) e “Câmeras, ação” (excelente texto, quase um ensaio, em que o cronista questiona de forma ácida a onipresença das câmeras no futebol atual. Giorgetti, cineasta experiente, entende que a câmera, ao invés de retratar fielmente a realidade, tem também o poder de iludir, falsear e, até mesmo, de criar realidades).
O escritor Ivan Ângelo, numa excelente matéria sobre “Era uma vez o futebol” publicada na revista “451” (Maio de 2025) concluiu assim o seu texto:
“O leitor fecha o livro satisfeito, mas com certa melancolia pelo que se perdeu no futebol. Sem sofrimento, porém, até com discreto sorriso, como quem concorda: foi bom, não foi?”
Excelente pedida!