Edição portuguesa da BCF Editores, Maio 2023
É muito hábil a não pensar no que não quer pensar enfim tenta ser hábil, tenta e é tão cansativo. É por isso que está sempre cansada. Se tivesse de se pôr a pensar em tudo o que pensa ficava tão cheia de pensamentos que já não podia ver televisão nem sequer telefonar pois seria totalmente absorvida pelos seus pensamentos.
A cineasta Chantal Akerman (1950-2015) prova que em menos de 60 páginas se consegue contar uma história de luto com apenas o essencial, de modo discreto e quase ténue.
“Uma Família em Bruxelas” apresenta-se sob a forma de uma narrativa orgânica e melopeica, primeiro na terceira pessoa e, depois, numa transição quase imperceptível, na primeira pessoa, num fluxo de consciência adensado pela escassez de vírgulas.
Centra-se numa mulher de alguma idade que ficou recentemente viúva e que mantém o contacto telefónico com as filhas que vivem noutros países e também o contacto físico com a família da parte do marido, que não a deixa sentir-se só e a acarinha.
Agora eles vêm buscar-me e dizem que os filhos ficam contentes por me ver e que gostam muito de mim e eu também gosto muito deles e beijo-os e isso até aquece os ossos. Eles são muito gentis gosto deles e eles gostam de mim e isso abre-me o apetite. É a minha família.
Exceptuando o marido, Jacques, nenhuma das personagens é nomeada, sendo antes a mulher, a filha mais velha, a filha casada, as irmãs do marido, os maridos das irmãs, as primas, além da tia que vive num lar e estranha que a sua irmã, mãe da protagonista, nunca a visite.
Ela até acredita que a minha mãe, sua irmã ainda está viva mas ela morreu em 1942 e muitas vezes pede notícias dela e não sei porquê, imagina que ela está na América mas ela nunca lá pôs os pés, se estivesse lá certamente que não teria morrido em 1942.
É uma pista inesperada, como outras que vão surgindo, para o drama antigo que marca esta família, - como, aliás, também marcou a da própria Chantal Akerman - vinda da Polónia para Bruxelas, que refere “a nossa língua” em contraponto com a que adoptaram neste país, onde o casal foi subindo a pulso, até ao dia em que Jacques adoeceu.
Quando começava a gemer ainda era mais insuportável e sentíamos que não podíamos fazer nada por ele a não ser cantar uma e outra vez canções na nossa língua.