Eu dilemas da escritas em si é uma coletânea organizada pelas escritoras Gabriela Aguerre e Natalia Timerman que reúne, de forma inédita, textos de importantes autores e críticos contemporâneos sobre os limites da ficção.
Com ensaios de Adriano Schwartz, Amara Moira, Andrea Saad Hossne, Anna Faedrich, Bianca Santana, Bruna Mitrano, Camilo Gomide, Diana Klinger, Felipe Charbel, Gabriela Aguerre, Ieda Magri, Isabela C. Lopes, Joselia Aguiar, Julián Fuks, Julio Pimentel Pinto, Lubi Prates, Luciene Azevedo, Mariana Delfini, Natalia Timerman, Samara Lima, Tatiana Salem Levy, Trudruá Dorrico e Yasmin Santos.
Quando o eu fala em um texto, quem escreve? O mistério da voz narrativa e a relação que traça junto ao público leitor é um antigo debate teórico. A cumplicidade entre autor e leitor é, afinal, o fundamento de qualquer pacto literário, mas hoje, ao que parece, sua estabilidade se encontra em disputa.
Escrever a partir da primeira pessoa, as chamadas “escritas de si”, enseja paixões de especialistas e do público em geral. O debate, no entanto, usualmente se estabelece na dimensão afetiva, dos gostos pessoais, e para fugir da banalização e do esvaziamento do termo, que desponta como a marca da escrita do início do século, as organizadoras compilam alguns pontos para uma discussão mais proveitosa.
Estão aqui reunidos grandes nomes que despontam no cenário literário brasileiro, escritoras e escritores, críticas e críticos interessados nos temas da autoficção, do relato, da escrevivência, da memória, entre outros. Na primeira parte desta coletânea, “Eu e nó gêneros instáveis”, estão reunidos ensaios que revisam e testam a instabilidade das classificações. Na segunda, “Eu conceitos em debate”, são apresentos textos que tensionam a calcificação dos termos críticos. E, por fim, “Eu a própria voz” aproxima sujeito e verbo no enunciado para narrar à luz da própria experiência.
Eu dilemas das escritas de si não traz respostas absolutas; em troca, oferece possibilidades para a compreensão de uma questão antiga, mas que, com especificidades contemporâneas, exige novas abordagens. Este é um convite para expandir as fronteiras da nossa observação e esgarçar os limites entre fato e ficção, para então refletir sobre quem, como, onde, por que e o que escreve neste início de século.
Coletânea de ensaios muito interessantes. Alguns dão a sensação de que estamos andando em círculos quando falamos de definições, mas, ainda assim, levam à reflexão sobre a forma e o conteúdo, mesmo que de maneira um pouco limitada.
"O que parece distinguir as autoficções contemporâneas das outras narrativas autobiográficas (em que se inclui a própria obra de Proust) é que as primeiras parecem produzir seu próprio “horizonte de expectativas” de leitura, elas demandam que o leitor reconheça o autor no texto, que não se adentre na leitura como num mundo autônomo e autossuficiente. Os protagonistas das autoficções contemporâneas – fantasiados de ser o próprio autor – com frequência mencionam outros livros que o autor tenha publicado, ou artigos de jornal ou postagens em mídias sociais, ou quaisquer outros fragmentos de discursividade que já seja pública e que o leitor possa checar e satisfazer sua curiosidade voyeurística. A narrativa de autoficção nos remete a um fora dela, a um campo discursivo exterior a ela, se recusando a ser lida no espaço da sua autonomia."