This disturbing, unsettling tale takes place in a small town in Brazil in the 1930s, under the regime of Getulio Vargas, when the Constitution stated that every good citizen should support the national policy to whiten the country. Vidal unflinchingly portrays the bigotry and racism infecting Brazilian culture. Her narrative weaves between the diverse and compelling perspectives of her characters as prejudice is deconstructed amidst scenes of violence and horror.
Nara Vidal é mineira de Guarani. Editora, tradutora, professora, é autora de livros para crianças e adultos. Seu romance de estreia "Sorte" (Editora Moinhos, 2018) foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos em 2019 e está traduzido na Holanda sob o título "Lotgevallen" (Nobelman, 2020) É autora de dois livros de contos "A Loucura dos Outros" (Editora Reformatório, 2016) e seu mais recente trabalho "Mapas para desaparecer" (Faria e Silva, 2020) Escreve mensalmente para A Tribuna de Minas e Jornal Rascunho.
Imagina se toda a gente tivesse os dentes sadios de um negro? Os ossos dessa gente são valiosos. Mas da pele, a gente não precisa.
“Puro” é, pelo seu cariz histórico mas mais pelas imagens que evoca, uma história de terror. Baseando-se num execrável movimento real do início do século XX no Brasil, o seu conteúdo só podia ser chocante e arrepiante, mas Nara Vidal cria episódios grotescos que, no entanto, são geralmente aplacados por uma escrita apurada e uma técnica narrativa original e eficaz.
Olavo explica sou louco pelo meu filho. Ícaro é um menino bom, mas tem muitas limitações. (…) Fomos abençoados com Ícaro. (…) Olavo pensa como essa criança baba, tropeça, me dá vergonha. Voa, Ícaro, voa.
Santa Graça é uma cidade definida pelo racismo e pelo capacitismo, onde levam à letra o Artigo 138 da Constituição de 1934 (“Incube à União, aos Estados e aos Municípios estimular a educação eugênica”) numa altura em que se seguia com entusiasmo o movimento eugénico do Brasil, que visava alcançar a pureza da raça branca, impedindo a miscigenação e a deficiência.
Lázaro fala Ícaro, sai dessa janela, retardado. Deixa só eu crescer mais um pouquinho e vou virar político. Vou levar você lá pra casa do pinel. Manda a Íris acabar logo o serviço aí porque tem chão pra ela lavar aqui. Quem sabe hoje ela lava direito aquela mão preta dela e fica limpa e pura? Íris preta e suja. Ícaro retardado.
Num casarão sinistro vivem três velhas irmãs que um dia encontraram um bebé abandonado, a quem deram o simbólico nome de Lázaro, que “nasceu de ninguém querer”. Em frente, mora Ícaro, um rapaz que vive com as sequelas neurológicas de ter sido abanado pelo pai em bebé, numa casa em que a única pessoa que o acarinha é a empregada negra, Íris.
Íris pensa lá se foi esse menino pra cama, amarrado e cheio de remédio. (…) Não queriam de jeito nenhum que eu ficasse com o menino. O menos contato possível era a recomendação médica conforme explicitavam uns papéis vindos de São Paulo. A gente aceita porque a vida é assim, mas dá vontade de matar essa gente, isso dá.
Gostei muito de “Puro” por retratar uma corrente social no Brasil que eu desconhecia por completo, mas achei-o um pouco maniqueísta, em que as únicas personagens boas eram o menino deficiente e a empregada negra, já que todos os brancos fisicamente aptos eram seres hediondos, com a agravante de os membros da Igreja, por mais críticas que a instituição mereça, serem todos depravados. Acho que nunca elogiei as capas da Relógio d’Água que, apesar de ser uma das minhas editoras preferidas, não se esmera nesse campo, no entanto, 30 segundos para apreciar esta. É esteticamente bonita neste contraste entre branco e preto, tão essencial a esta história, e remete para uma imagem comovente de Íris, a mãe de um nado-morto, fruto da esterilização forçada.
"Infelizmente, o que não falta é preto querendo virar branco. Fazem tudo igual a gente. Até apoiar governo que quer se livrar deles eles apoiam. São cegos, não têm a inteligência que nós temos. Santa Graça será a cidade mais pura do Brasil. O que essa gente precisa é rezar e pedir a Deus o reino dos céus, se quiserem descansar."
PURO é um livro curto, leitura para matar numa manhã.
Como o nome antecipa, o tema central da história é a eugenia, mais precisamente o movimento eugenista brasileiro e seus ideais de busca por um cidadão "puro", (ou seja: branco, heterossexual, sem nenhuma deficiência física, moral, de caráter, seja lá o que isso signifique), algo escancarado na época de Getúlio Vargas.
Alguns pontos interessantes:
- O livro pode ser lido pela lente do horror latino-americano. Os monstros são os vivos, as figuras eugenistas vêm plenas com seus discursos e perversões de revirar o estômago, enquanto os mortos aparecem fora da esfera monstruosa. Essa presença do sobrenatural, mesmo que apresentada de modo a manter a dubiedade da sua existência, foi algo que me pegou de surpresa e que gostei de ver. Alguns mortos existem para proteger, outros para se vingar.
- O livro explora o ponto de vista dos eugenistas também. Vários deles, aliás. Então a autora consegue ir fundo na mente e no discurso dessas pessoas bizarras que ainda caminham entre nós. Um personagem se cria pelo que ele pensa, pelo que ele diz e pelo que ele fala. Mais ainda, pela diferença entre esses três pontos, e Nara Vidal joga bem com essas diferenças.
- Outro ponto positivo foi lembrar que embora a gente considere a ciência hoje a voz da razão, essa mesma ciência por muito tempo (tempos que perduram quando vemos mulheres terem a possibilidade de aborto legal recusada, quando vemos médicos antivacina recomendando remédios panfletados por um presidente negacionista) simplesmente pegou os preconceitos viscerais da igreja católica e reproduziu mudando a explicação. A desculpa para ser racista, capacitista e lgbtfóbico não era mais Deus, era o pensamento dos intelectuais da ciência. O livro bate firme nesse ponto, a eugenia colocava muitas esferas de mãos dadas, inclusive a medicina e a igreja.
- Existe uma construção que flerta com o suspense e com o horror que é bem eficiente. No início estava preparado para não gostar, achando o discurso um pouco ingênuo considerando o buraco que nos encontramos atualmente, mas foi só avançar mais umas páginas e me vi completamente envolvido.
- Esse envolvimento se dá não pelos eugenistas escrotos, mas pelas personagens que estão à mercê deles: Íris, uma mulher negra que trabalha na causa de uma família eugenista e Ícaro, um menino de quem ela cuida e que parece lidar com alguma deficiência mental. Digo parece porque o livro deixa em aberto qual seria a condição desse menino. Se é algo de nascença, se é autismo severo numa época sem diagnóstico, se é remédio que enfiam nele ou se ele teria ficado assim por ter tomado uma surra do pai. Os pensamentos desses de Íris e Ícaro diante de um bando de personagens desagradáveis e cruéis nos permite um ponto de empatia e, quando eles estão em risco, cria o suspense.
- O livro também levanta a bola de que mulheres negras, periféricas, muitas vezes são esterilizadas sem seu consentimento. E põe lado a lado essa violência e o ideal de miscigenação que tinha como objetivo embranquecer a população brasileira (os eugenistas achavam que quando um negro e um branco tinham filhos, que a pele branca seria sempre preponderante por conta da sua superioridade racial, um papo torto bisonho, como sempre). Isso ajuda a reforçar o quanto a medicina pode ser um instrumento violento de racismo. Quem é pessoa LGBT vê desgraça parecida atualmente com terapias de conversão aqui no Brasil.
Feitos os elogios, vamos aos poréns:
- Existem dois personagens com traços queer nesse livro. Dois personagens que poderiam ser considerados LGBT, embora não se tenha muito aprofundamento. Os dois têm suas experiências sexuais associadas ao ambiente da igreja católica. Um é um abusador, claramente. O outro carrega a dubiedade: pode ter sido abusado ou pode ter curtido as experiências. Só que para por aí o assunto, a representatividade. E foi foda ver um livro que se propõe a fazer uma crítica tão firme a um pensamento medonho como o eugenista não construir um contraponto aos abusadores católicos, um contraponto que criasse um personagem LGBT sem associá-lo à perversão. Legal mostrar a hipocrisia de quem faz às escondidas o mesmo que persegue às claras. Mas sem o contraponto o que a gente lê é: os personagens queer são abusadores pervertidos.
- Outro ponto que me incomoda é o arco da Íris, a personagem negra. Ela começa o livro mostrando pensamentos meio heroicos, se propondo a ajudar um menino que claramente sofre nas mãos da família. A todo instante os pensamentos dela e as ações nos levam a crer que ela vai se emancipar daquela bagunça toda. Que ela não aguenta mais e vai contra-atacar. Porque ela sabe que aquelas pessoas são ruins. Ela sofre na pele, ela testemunha as coisas. Mas com o avançar do livro a personagem vai ficando mais ingênua. Mais "trouxa". Me parece MUITO improvável, que uma pessoa negra que vê o que ela vê, que é perspicaz como ela é, fosse agir contra os próprios instintos e acreditar em padre e nas promessas que ela escuta no final. E o final do livro tinha TUDO pra colocar a personagem de volta aos trilhos. Ela vê outras pessoas negras olhando torto pra ela por conta da decisão que tomou, ela lida com um fantasma que foi vítima da crueldade dos brancos, mas não consegue fugir do seu destino de vítima.
Fico com a sensação de que embora o livro critique com força o eugenismo e mostre quem eram as vítimas disso, a história não conseguiu emancipar certos personagens dessas mesmas teorias. Não é que todos os personagens não "raça superior eugenista" precisassem ter um final feliz. É uma questão, como eu disse ali ao comentar dos personagens queer, de se construir contrapontos.
Eu teria gostado muito mais se o livro me permitisse um momento de catarse no final? Sem dúvida. Mas já que não era essa a proposta, que pelo menos existisse uma variedade de finais possíveis. E não, não acho que a catarse fosse a escolha fácil. Fácil pra quem?
Resumo da ópera: li vidrado do início ao fim, gostei do texto, mas fiquei com essas questões atravessadas.
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"Esses pardos que os senhores encontraram estão mentindo sobre nosso suposto envolvimento. Esse sr. Jão da Lavagem, coitado, com um nome desses, não sabe o que diz. Os senhores por acaso acham que nós tiramos o couro e a carne dos negros, que as cozinhamos em caldeirões pro almoço e nos livramos da gordura grossa à qual se refere esse elemento que cresceu com os porcos? Ora, tenham paciência."
Indigesto. Uma leitura que embrulha o estômago e desperta os piores sentimentos contra (quase) todos os personagens. Curtíssimo mas com um impacto imenso.
Um livro curto, mas que vem como um soco no estômago atrás do outro. Um livro que se passa nos anos 1930, mas cuja temática reverbera até hoje. O estilo de escrita me foi estranho no começo, como se fosse um relatório. A linguagem também soa bem contemporânea para um livro que era para se passar nos anos 1930.
puro é um livro curto que conta uma história extremamente necessária mas muito difícil de ler, quase como se alguém desse um soco no estômago. li o livro de uma vez só e estou embasbacado
Se você ler “Puro” e não sair horrorizado com o que leu, boa gente você não é. Em torno de 100 páginas, a corajosa autora escancara uma trama brasileira extremamente horripilante, tocando em feridas abertas do Brasil e do mundo de uma forma pungente e impossível de ignorar. Um livro pra devorar e marcar a terapia em seguida!
I finished “Pure” in almost one sitting. Or one breath, to be fair, because it took away all the rest.
Vidal’s pen is straightforward but shocking and haunting, the story borders on magical realism, has Pedro Páramo (but this time in a town) vibes, will appear in your dreams, and follow you to every butcher shop for the rest of your life.
It’s the perpetual story of racism and the history of oppression and genocide, but this time in such vivid imagery you can feel with all your senses and every nerve fiber.
It is structured in different narratives, but you can follow and understand perfectly what is happening. There is no bias, just honesty, and stories from people you meet every day. A cripple, whites and blacks, sterilizing, skins that aren’t good enough, but bodies that could be recycled for better usage. This is humanity, at the core, with all its aspects.
The English translation is done by my amazing friend Nathalia Faula , and I may be biased but this book reads like it was written in English.
I have to admit I was speechless for a month after I finished it. I hear it was submitted for the booker prize and I must say I have never seen a book that was more deserving.
Duro como pede o enredo, como foi (é?) a época narrada e como tem sido o grande pano de fundo. Impactante e de ritmo acelerado até a última frase. Corajoso e impiedoso. Ainda bem.
Não é que este livro me deu um murro no estômago... este livro deu-me um tareão dos antigos e, quando eu já estava no chão, ainda me deu uma cuspidela na testa!
Eu nunca tinha lido um livro escrito desta forma. Nós termos acesso ao que as personagens pensam (e não apenas ao que dizem) muda toda a história. É revoltante ler este livro do inicio ao fim: a lei; o que as personagens dizem, pensam e fazem; a forma como veem o mundo à sua volta; a forma como educam a próxima geração...
Só não dou 5 estrelas porque acho que o livro pecou por excesso de maldade. Ninguém, tirando o Ícaro, é bom nesta história; nem a Íris que, quando tem oportunidade, prefere desviar o olhar em vez de fazer alguma coisa (eu entendo o contexto, a época e tudo mais, mas ainda assim...)
Terminei de ler Puro e estou completamente embasbacada. Na verdade já estava desde a primeira página… Puro conta uma história que se passa em Minas Gerais, nos idos de 1930. Conta um pouco da vida de Íris, mulher preta que trabalha na casa de pessoas brancas. Conta também um pedaço da vida de Ícaro (ah, Ícaro!), de Olavo (que vende a enciclopédia da eugenia brasileira), de Lázaro, de Helga, do padre Arcanjo, de Jão, de Olavo, dr. Lírio, Alpínia, Dália e outras personagens muito bem construídas em poucas páginas de história. Puro conversa com a resistência, com o racismo e com a eugenia que existiu (passado?) no país no começo do século XX. Puro mostra os acontecimentos esquisitos na cidade de Santa Graça, as atitudes das personagens e, de forma teatral - e genial -, seus pensamentos (tão horríveis que se ‘verbalizados’ não teriam o mesmo impacto). Puro foi lido por mim como um conto de terror, de arrepiar inclusive, mas também como uma crítica importante e necessária. Que livro Nara Vidal !! Que livro!
Um livro bem escrito, lê-se de uma assentada. O tema é pesado e macabro - li para um book club, de contrário dispensava. No entanto a história é um pouco simplista e previsível, e tudo parece convergir no mesmo sentido.
Puro é daqueles livros escritos para causar desconforto. Seja pela história, que retrata uma comunidade eugenista na década de 1930, realizando e dizendo as maiores monstruosidades e barbaridades racistas com uma naturalidade que até pouco tempo não seria questionada. Ou seja pelo seu formato, que não desenvolve uma prosa contínua tradicional, com texto corrido, mas opta por um encadeamento de diálogos e pensamentos que parece rubrica teatral, mas não o é. O lado positivo é que esse formato nunca deixa o leitor confortável e sempre exige que ele reúna os pedaços e complete as lacunas. Curto, direto e claro, é um romance impossível de se demorar.
O cenário de todo o horror de uma cidade/estória fictícia, mas que se assemelha de forma pungente a uma realidade não muito distante. Talvez esse livro ainda vá me assustar por um bom tempo. É do tipo que precisa ter estômago para encarar, mas, ao mesmo tempo, deveria ser leitura obrigatória.
Que potência e que crueza! E que raiva!!! Se você for sensível, não recomendo ler de noite. E se você estiver passando por um momento complicado na vida, não recomendo a leitura. Precisa de estômago para ler este livro! A raiva não passa tão cedo! Que história necessária, mas muito incômoda, como um bom livro sempre é.
Este livro mistura história real e ficção com uma pitada de gótico. É um livro curto, rápido de ler, mas que trata de um tema difícil: a eugenia.
A eugenia existiu no Brasil e foi apoiada não só pela igreja, mas também pelo governo brasileiro, em especial na década de 30. O triste é que na escola, quando estudamos sobre a política desta década, isso não é mencionado. E assim, apagando parte da história, nos sujeitamos a deixar que se repita.
O livro está dividido em três partes que se conectam e são narradas do ponto de vista de vários personagens.
Achei incrível a forma como Nara escreveu a história, quase como uma peça teatral. Aqui temos acesso ao que o personagem fala, mas também ao que ele pensa de verdade.
É através destes pensamentos que as máscaras caem e conhecemos o que cada personagem é. E às vezes também acontece de o personagem falar e pensar a mesma coisa, porque para ele está tudo bem, não é necessário manter aparências. Impressionante como isso se mantém atual, né? A história é cíclica, infelizmente.
Além de falar da eugenia, a autora abordou a podridão que existe dentro da igreja (além do racismo, a pedofilia).
Através da personagem chamada Delfina/ Helga, a autora também retrata pessoas oprimidas que se tornam opressoras para tentar aliviar seus sentimentos, para ter a sensação de poder fazer com outros o que fizeram com elas.
A parte gótica da narrativa gira em torno das três irmãs, comparadas com bruxas, que vivem num casarão envolto em mistério que me causou bastante aflição.
Outra coisa interessante e que não sei se foi intencional, pois nas entrevistas da autora ela não fala sobre, foi a escolha dos nomes de alguns personagens: Ícaro que voou próximo ao sol e Ícaro que queria a liberdade (aliás sofri muito por ele). A Iris que tudo vê, mas não fala. O Lázaro que ressuscita para uma nova vida (que ranço desse moleque, mas que dó também, pois ele foi criado daquela forma, então talvez não possa culpa-lo diretamente pelas atitudes dele naquele momento). E Arcanjo, que era para ser um defensor e aqui é um carrasco.
Li algumas obras que falam sobre preconceito, mas nunca tinha lido algo que falasse diretamente sobre eugenia.
Achei a história brutal. Quando eu achava que não tinha nada de mais podre a ser narrado, vinha algo mais asqueroso. E o mais doloroso é saber que isso existiu e pode voltar à tona se esse acontecimento da história não for levado a conhecimento, não for debatido, se não ficarmos atentos.
A eugenia é a ideia de uma raça perfeita. Ela atacou, principalmente, pessoas negras e serviu de base para os ideais nazistas. Mas a eugenia também fere a existência de pessoas com deficiência, independente da cor, da crença, da convicção política. Ou seja, fere ao mundo inteiro.
Enquanto lia passei por momentos de choque, de raiva, revolta, de tristeza.
Odiei a forma como Dr. Lírio engana Iris, a forma como usam da ignorância dela para usá-la para fazer mal aos seus. E aqui aproveito para elencar outra pauta do livro: pessoas que são alvo do preconceito ajudando a propagar a eugenia ao invés de ajudar a combate-la, algo que ainda acontece hoje em dia.
O final da história tem uma coisa poética que é horrível como o livro todo, mas é belo - não no sentido de que aplaudo o que aconteceu, não é isso e a fala soa contraditória, eu sei. Não sei bem como explicar sem trazer spoiler... Tem a tragédia, mas tem a libertação. Acho que quando você ler, entenderá melhor o que tentei dizer.
Gostei bastante dessa leitura, a capa é incrível tanto quanto a escolha do título, pois fazem total sentido, são perfeitos no conjunto da obra. Recomendo esta leitura e pretendo ler outras obras da autora.
Deixo também recomendação de material extra e sugiro assistir depois da leitura, para evitar o risco de spoiler:
1) Entrevista de Nara concedida a Eliane Alves Cruz, autora do livro 'Solitária', outro livro maravilhoso que recomendo fortemente a leitura: "Escritora Nara Vidal é a convidada do Trilha de Letras" no canal TV Brasil no YouTube
2) "Nara Vidal explica o porquê decidiu abordar a eugenia em seu novo livro "Puro"" no canal da TV Cultura no YouTube
3) "PURO | NARA VIDAL" no canal Nota TV no YouTube
Esse livro me fez entender a força do ódio . E me lembrar que eu absolutamente amo ler !
(Li enquanto fazia cardio e nunca pedalei tanto e com tanta força na minha vida))
Vamos começar com a forma que a história é narrada! Por meio de falas, pensamentos e situações entendemos o que se passa na eugênica cidade do interior de MG. É difícil querer enquadrar essa leitura como uma distopia com traços tão fortes de realidade e a proximidade histórica com a era Vargas… mas que parece, parece. Distopia realmente não se encaixa, uma ficção com traços doloridos de verdade, traços que são rasgos. cortes profundos que mesmo quando cicatrizam deixam marcas que horrorizam.
—— Citações que saltaram aos olhos e afins ::
“Acho que a Íris estava triste porque as mães dos meninos queriam avisar pra polícia do desapareci-mento, mas ninguém parecia se importar.” Diziam que os negrinhos voltariam quando tivessem fome ou estivessem sujos, mijados e fedidos pra trocar de roupa. As mães das cri-anças, inclusive duas mulheres que trabalhavam na casa do prefeito, não deviam se preo-cupar, porque aquilo era coisa de criança.
“O bom de ser louco é que boa parte do tempo ninguém te incomoda.”
“Acham que o menino é doidinho, mas aquilo tem é minhoca na cabeça. Pensa demais.”
“PADRE ARCANJO TEM: medo de Deus dor de cabeça.”
“DR. LÍRIO SENTE: medo de Deus dor na cabeça um pouco de culpa.
ÍRIS SENTE: muito”
Na hora do recreio, vem uma professora e se senta do meu lado. Tem um banco pintado de amarelo em frente ao ipê-branco do quintal da escola e lá eu fico.
“Sonho em pular da janela do meu quarto pra dentro do tanque de água pros patos dos vizinhos. Sei que lá dentro é fundo, um voo que vai me fazer flutuar e sair desse desassossego que são as outras crianças.”
Mas nada disso é possível porque, além de tomar remédio demais, estou sempre acompanhado por alguém. Só a Íris me ouve. Só ela sabe dos meus sonhos.
(Delfina defende e justifica a eugenia até em frutas) “Bastava olhar como se chupa uma manga e como se saboreia um morango. A diferença era enorme. “Uma fruta grosseira, a outra um refinamento. […] “
(Delfina acredita estar do) “lado certo da história, um lado glorioso, patriota e cristão” ((Deus, pátria e família não era o que viria a ser defendido nos próximos anos . . . ?))
Somos levados à cidade fictícia de Santa Graça, que, apesar do nome, esconde uma realidade repleta de hipocrisia e moralidade falsa. A narrativa, fragmentada e com trechos curtos, apresenta personagens cujas vidas se entrelaçam em um contexto de tensões raciais e desigualdades sociais, refletindo as ideias eugenistas que permeavam a sociedade dos anos 30 no Brasil. Entre os personagens, destaca-se Lázaro, um menino com aspirações políticas, e Ícaro, que enfrenta problemas de saúde e se relaciona com Íris, uma empregada negra que lida com o preconceito. A história se desenrola em meio a desaparecimentos misteriosos de crianças, revelando a crueldade e o desprezo que permeiam a cidade, onde discursos de figuras influentes sustentam a ideia de superioridade étnica. A estrutura do livro é inovadora, com uma narrativa que se assemelha a uma dramaturgia, permitindo que diferentes perspectivas sejam exploradas, enquanto a cidade busca uma pureza ilusória, refletindo uma crítica à sociedade contemporânea. Através de diálogos e pensamentos, a autora constrói um microcosmos que expõe a luta contra a marginalização e a busca por dignidade em um ambiente hostil. A cidade de Santa Graça, com sua representação do preconceito e da estratificação social, é um microcosmo que reflete questões universais. Os nomes dos personagens, como Ícaro, que simboliza a ambição e a queda, e Íris, que representa a percepção silenciosa, são cuidadosamente escolhidos para transmitir significados profundos. Lázaro, que renasce em um ambiente repleto de preconceitos, e Olavo, que evoca a figura de um filósofo da extrema direita, acrescentam camadas à crítica social. O Padre Arcanjo, com sua postura quase militar, e a mulher que sai do mosteiro para trabalhar como babá, ilustram a luta interna de indivíduos que negam suas identidades e, consequentemente, se tornam opressores. A narrativa também aborda a realidade das crianças abandonadas em Santa Graça, que sobrevivem à margem da sociedade, refletindo as feridas históricas do Brasil.
Nara Vidal, nascida em 1974, natural de Guarani (MG), formada em Letras pela UFRJ, com mestrado em Artes pela London Met University, estudiosa da literatura inglesa, escritora é a autora de “Puro”, livro objetivo – apenas 96 páginas – mas deveras contundente. A trama foi ambientada pela escritora mineira na fictícia cidade mineira de “Santa Graça”, nos anos 30 do século passado onde a “fina flor” da sociedade abraça com todo fervor as teses eugênicas defendidas durante o “Estado Novo”, ditadura de inspiração fascista capitaneada por Getúlio Vargas. Narrado por várias vozes – a empregada doméstica Íris que assiste aterrorizada à tortura e crueldades contra os “doentes”, o garoto Ícaro, considerado “doente” e constantemente dopado e segregado, o “perfeito” garoto Lázaro cuja educação eugênica ambiciona prepara-lo para ser o futuro prefeito da cidade, a “cuidadora” Helga, uma entusiasta da eugenia – o romance transita entre vários gêneros e soa assustadoramente atual como muito bem descreve Micheliny Verunschk, escritora, no artigo “Teatro de Horrores” publicado na revista“451”, edição de abril de 2024.
“O romance transita entre gêneros: o teatral, a ficção de horror, o romance histórico e um flerte com a distopia steampunk, mais pela criação de um ambiente gótico que envolve a invenção de objetos sombrios do que pelas próprias regras do subgênero”. [...] “Puro” se inicia com um prólogo polifônico, em que trechos de documentos históricos dão conta de determinado ideário no qual a raça e as fantasias de origem repercutem ao longo dos tempos, de 1452 aos anos 1930. Embora o enredo seja circunscrito à década de 30, o romance soa assustadoramente atual, especialmente quando o noticiário se enche de manchetes que poderiam ser advindas daquele cenário ficcional. O que acontece em Santa Graça não fica em Santa Graça, nem acaba ali”.
Li exatamente em uma noite, um feito inédito até então. Me atraiu o estilo thriller ambientado na Minas Gerais arcaica, pelos idos de 1930. Tempo de casarões, fogão a lenha, padres onipresentes e... negros semi-escravizados vivendo à margem da sociedade.
Esse, aliás, é um dos temas centrais do livro: o racismo como raiz da sociedade brasileira. Até aí o livro tinha tudo pra ser interessante.
Mas o fato é que, mesmo sendo fã desse tipo de livro mais denso e por vezes brutal, esse aqui não me pegou muito. A violência narrada - física e psíquica - é tão intensa e constante que acaba por deixar de causar efeito. E fiquei esperando, como contrapartida, uma grande história que simplesmente não veio. Ficou somente o efeito semelhante ao de assistir um filme de terror vulgar.
Mas, como leitura de 2 ou 3 horas, acho que serviu bem ao propósito.
P.S: Não mencionei o tema da Eugenia, que de fato é o tema central aqui. Nisso o livro serve como denúncia, ao invés de pura ficção. Não sabia, mas a Eugenia foi política de Estado durante o governo de Getúlio Vargas. E basicamente essa política consistia num desejo de erradicação completa do negro (e demais indesejados) da sociedade.
Uma leitura intensa e desconfortável, que presumo que fosse a intenção da autora, "Puro" narra a história de uma série de personagens numa cidade que idolatra o movimento eugênico brasileiro.
Apesar de ser fácil de descortinar alguns dos "mistérios" que as personagens colocam (desaparecimento das crianças e o seu destino e as operações médicas a uma parte da população por um surto, por exemplo), o livro consegue captar completamente o leitor que, no misto de emoções provocadas, acaba por questionar a si mesmo "até onde é que este movimento e estas personagens irão e quão mais desconforto me irão trazer?". É um relato e crítica fortes a uma parte da história brasileira que, pessoalmente, não conhecia completamente, e aconselho a leitura.
Enquanto mulher negra, admito não ser muito militante. Sigo minha vida me educando e me protegendo como posso.
Comprei o livro por recomendação (de uma mulher branca) e o que percebi foi uma obra pretensiosa na forma, tentando expressar uma frieza e um distanciamento que, para mim, não funcionaram, só deixaram a história truncada e desinteressante. Também me pareceu ser um livro escrito POR uma mulher branca PARA pessoas brancas (é só ver a foto de perfil dos demais resenhistas aqui no Goodreads).
Pela profundidade, complexidade e relevância do tema, eu esperava mais.
De tanto reclamar que faltava nuance no romance contemporâneo brasileiro encontrei um desafiante interessante em Puro, de Nara Vidal. Sim, é um livro quase didático sobre racismo mas faz isso com uma proposta e uma estrutura tão particulares que se destaca automaticamente de outros exemplares mais festejados e muito menos imaginativos da recente safra. Desde a maneira como Nara estabelece as vozes a partir do que fazem e pensam, até os contornos de terror que oferece à trama -o relato do surto de apendicite é desesperador- tudo aqui é social e político, mas é também, e sobretudo, literatura.
Uma obra curta, mas carregada de intensidade e dor. É uma escrita envolvente, sombria e direta. Uma das passagens que mais me marcou ilustra bem a dinâmica de poder e conivência que atravessa todo o livro: "Padre Arcanjo comenta com dr. Lírio; com Olavo; com as três velhas; com Helga, com Lázaro, que a Íris sabe. (...) Irís ganhou uma fazenda; roupas novas; dois cavalos; empregados; fartura; dor de cabeça. Íris garantiu o silêncio."
Imagina uma comunidade eugenista em pleno interior de Minas Gerais? É um livro surreal e incômodo porque, crescendo no interior de SP/MG, os discursos são bem possíveis e nos faz pensar no quanto nossa história é violenta, mesmo sendo uma obra ficcional. A escrita é bem criativa, alternando os pontos de vista, atitudes e discursos (coisas bem diferentes) de vários personagens, tanto algozes como vítimas.
Eu não esperava, ao começar a leitura de Puro, que o livro se inscrevesse no gênero do terror. Além disso, a narrativa me causou incômodo.
Puro apresenta uma história que aborda racismo, eugenia e abuso sexual ambientada em uma cidade do interior de Minas Gerais no Brasil da década de 1930.
Com 96 páginas, a leitura é rápida, mas a sensacão ao terminar o livro é profundamente desconfortável pela falta de contrapontos aos temas cruéis retratados.