Cresci num bairro nos anos 90. Ir para a rua era a melhor parte do dia. No meu bairro éramos bués, cada um tinha o seu papel, sem a consciência disso. Hoje, com a consciência disso, partilho o papel que cada um teve na minha vida. Os primeiros ídolos estavam na rua, com quem convivíamos de perto. Tudo girava em torno do bairro. As nossas mães “Podes ir para a rua, mas não saias do bairro.” Combinávamos com amigos que não eram do nosso bairro, para irem ter ao nosso bairro. Apresentávamos amigos do nosso bairro, a amigos de outros bairros, com orgulho. Convido-te a ir ter ao meu bairro, conhecer os que ali cresceram comigo.
Há livros que nos trazem a sensação de “estar lá”. "Dallas - O Meu Bairro" faz exatamente isso: não estamos só a ler a história do Galhanas, estamos a acompanhá-lo rua fora, a ouvir as vozes, a ver o campo de terra batida, a sentir aquela mistura de caos e ternura que só quem cresceu num bairro conhece.
Galhanas leva-nos de volta aos anos 90, a um bairro onde crescer era, ao mesmo tempo, uma escola de vida e um palco para histórias que hoje parecem quase inacreditáveis.
Nem tudo era fácil: havia limitações, dificuldades, o peso de um ambiente duro. Mas havia também uma força comunitária que se sente em cada página: a sensação de pertença, de família construída na rua, de amigos que se tornavam irmãos. E é impossível não sorrir ao ler certas passagens: das brincadeiras aos torneios improvisados de futebol, das alcunhas impossíveis de inventar a episódios que só quem viveu mesmo o bairro reconhece (e sim, até às famosas cuecas partilhadas …. quem sabe, sabe).
O que torna o livro especial é a voz do autor. A escrita é simples e direta, mas cheia de ritmo e personalidade. Parece que estamos sentados numa esplanada, com um café meio frio à frente, enquanto ele nos conta tudo isto olhando-nos nos olhos. Há humor, há ternura e há o direto e cru. Nada é romantizado, mas tudo é contado com afeto.
É uma leitura rápida, leve na forma mas cheia de substância emocional. Daquelas que nos fazem fechar o livro e pensar: a nossa história também vale ser contada.
“Hoje enquanto adulto, quando piso aquele bairro, recordo-me de todos eles, de todas as brincadeiras e histórias que guardo na minha memória para sempre. Às vezes ainda olho para aquela janela do 6° direito do lote 22, e espero que a minha mãe me chame para ir para casa.”
Este livro trouxe-me de volta àquela fase pura em que o tempo parecia infinito e a rua era o nosso reino. Fez-me lembrar as escondidas com os vizinhos, os berlindes disputados no recreio e os apelidos que inventávamos sem maldade. Lembrou-me de jogar ao Super Mario na consola, de brincar na rua até o sol desaparecer, até a minha mãe gritar pelo meu primeiro e segundo nome para eu aparecer em casa.
A memória da caixa de bolachas (as butter cookies!) que afinal guardava agulhas e linhas, do pão com manteiga e açúcar, das idas ao videoclube a escolher filmes em VHS, dos CD’s que ouvíamos sem parar, dos videoclipes na MTV e das gomas compradas com moedas contadas. Recordei o telefone fixo, as fisgas improvisadas, a regra de “fazer os trabalhos de casa antes de ir brincar”, os grupos de música da nossa época e a liberdade de correr, cair e levantar sem medo.
Este livro não foi só uma história, foi um portal para o passado, para as pequenas alegrias que me formaram. Deixou-me com um sorriso no rosto e um quentinho no peito, a recordar que a infância fica sempre connosco, mesmo quando crescemos.
Este livro vai tocar-te fundo, vai-te levar a teres saudades dos tempos em que bastava a rua e um punhado de amigos para seres feliz.
O livro conquistou-me logo de início com o prefácio espetacular do autor. Apesar de não ter capítulos, a leitura fluiu de forma tão envolvente que só dei conta disso já na página 50. A narrativa, tão direta e verdadeira, levou-me numa viagem ao Carregado — um nome que conhecia apenas da placa da autoestrada e do famoso Marco do Big Brother (que deu um pontapé na Sónia e foi expulso… sim, era do Carregado, nunca esqueci 🤷♀️) — pareceu-me estar em cada história, em cada brincadeira e com cada personagem. O melhor do livro, e que para mim é de um valor fenomenal, é o sentido de humor que o autor tem e que transparece genuinamente na sua escrita. Recomendo mesmo.