Um romance de formação emocionante que apresenta o olhar delicado de uma criança para as experiências traumáticas dos pais durante a ditadura militar brasileira.
Protagonista deste romance, que é uma joia de concisão e lirismo, Rodrigo é um garoto introspectivo, filho de pais separados, às voltas com a rotina paulistana do início dos anos 1990: o futebol meio desastrado na escola, a timidez com as meninas da classe, as férias com os avós.
Os pais estão no centro de sua vida. Navegando entre as casas de cada um, explorando esses "continentes" tão diferentes entre si, Rodrigo os observa com lentes de conhece seus hábitos, suas obsessões, até detalhes de sua anatomia — como as estranhas marcas no antebraço a mãe, "pequenos círculos escurecidos e enrugados que mais parecem as pegadas de um hipopótamo em miniatura".
Nem tudo, porém, está ao alcance dos olhos. Rodrigo entende que, a despeito da relação tempestuosa dos pais, algo no passado os mantém unidos. Sabe que ambos foram perseguidos pelo governo, que viveram no exterior e se separaram depois de seu nascimento. Afora isso, é tudo muito nebuloso — e talvez seja melhor assim. "É bom estar longe das coisas", afinal. Mas até que ponto é possível manter essa distância?
O apache Winnetou, bonequinhos de Playmobil e do He-Man, figurinhas de antigas Copas do o universo do garoto é circunscrito ao olhar infantil. Mas é também feito de silêncios, incertezas, pequenas — e enormes — descobertas. Como nos clássicos romances de formação, o preço a se pagar por se aventurar no mundo é a perda da inocência.
Cioso do ritmo de cada frase e da precisão de cada palavra, Chico Mattoso constrói uma narrativa comovente, cujo ponto de vista se estabelece na exata medida de seu a realidade se expande conforme o protagonista amadurece, proeza de que só os melhores escritores são capazes.
A ideia de observar a ditadura militar e seus impactos através do olhar de uma criança não é particularmente nova, mas é sempre bom ver um texto bem escrito sobre qualquer coisa, sobretudo aquelas coisas mais conhecidas, porque o exercício de buscar um ângulo, uma abordagem, entender onde se encaixar no meio dessa tapeçaria de histórias já contadas pode render algo muito interessante quando conta por alguém que escreve bem. É o caso de Chico Mattoso nesse livro escrito tantos anos depois de seu último trabalho. A vida de Rodrigo como ele a compreende passa a se transformar insidiosamente em outra coisa quando ele percebe a mãe fragilizada após ver alguém na rua. Daí é preciso de muito pouco para ele, e para quem lê, entenderem as complexidades de ser filho de sobrevivente, mãe de sobrevivente, ser parte de um família que sobreviveu, e não sem sequelas. É brevíssimo, divertido em certa medida, inesperadamente tenso e comovente como bons livros conseguem ser.
esse silêncio não existe, é uma miragem, as coisas estão sempre dizendo o que são, ele sabe o nome de tudo e isso independe das perguntas que deixou de fazer ou das respostas que não quis escutar: isso vive nele, como uma marca em sua pele.
A premissa do livro é interessante: apresentar a experiência de um casal, maioritariamente a da mulher, em tempos de ditadura, apenas por meio das observações do filho ainda pequeno, com tudo aquilo que ele consegue (ou não) interpretar a partir das pistas que a vida oferece. Acho bonita essa escolha narrativa, que nos permite ver apenas o que a criança vê, mas ao mesmo tempo nos convida a buscar as interpretações que ainda não estão ao alcance dela.
Como esse observador tem poucas informações em mãos, muitas coisas ficam nas entrelinhas ou sem total clareza. Isso, em si, não me incomodou tanto. O que senti, no entanto, foi uma falta de maior exploração da história, de mais camadas que sustentassem essa proposta. A leitura é simples e rápida, o livro é curto, e eu costumo esperar de narrativas breves um ponto forte que as sustente nesse espaço reduzido. Aqui, porém, senti que quase não havia nada que desse esse apoio.
Li com a expectativa de sentir mais na pele a experiência dessa criança, ou de encontrar alguma nostalgia da infância vivida nesse período do Brasil, ou ainda de desenvolver mais empatia pela mãe. Infelizmente, nada disso aconteceu. Tudo permaneceu distante, sem profundidade emocional suficiente para me envolver.
o livro não é ruim de jeito algum, o chico tem uma escrita simples, mas que não deixa de ser cativante, que flui bem, em nenhum momento se sente a narrativa ficar empacada ou prolixa. a simplicidade talvez seja, justamente, o que marca a história tanto para o melhor quanto para o pior. a premissa, por si só, é simples, o livro segue o ponto de vista de rodrigo, uma criança cuja vida é afetada pelas marcas deixadas em seus pais pelo regime militar, um capítulo sanguinolento da historia recente do brasil. rodrigo não entende muito bem os pais, o porquê são do jeito que são, o que viveram e, sendo bem honesta, o leitor também não. falta detalhes que possam fazer o leitor se conectar com o personagem e com o drama vivido por ele, um caso raro de tentou mostrar demais e acabou falando muito pouco. no geral uma leitura agradável, mas que não vai gerar o impacto devido que uma obra sobre a ditadura deveria gerar.
Pelo que vi de alguns comentários e observações, muitos dizem ser essa a história dos pais do personagem principal, Rodrigo, na época da ditadura brasileira, e também latino americana, haja visto que eles se exilaram primeiro no Chile, mas tiveram que fugir de lá quando ocorreu o golpe militar chileno. Mas para mim toda a história gira em torno de traumas, principalmente o trauma da mãe, e o filho, uma criança, tentando compreender a complexidade de sentimentos que decorreram da situação de tortura vivida pela mãe, a partir de uma visão simples e infantil, que vai se tornando complexa conforme ele entende o que aconteceu com a mãe e amadurece. Assim, a partir dessa premissa, acredito que Chico Mattoso conseguiu, com excelência, traduzir no papel o amadurecimento, a descoberta dos sentimentos complexos por uma criança que está amadurecendo. Ademais, ele consegue demonstrar como traumas são geracionais, como eles se estendem nos anos e gerações, como podem impactar todos à volta.
"O Hipopótamo", de Chico Mattoso, nos apresenta a experiência da ditadura em pequenos indícios a partir da visão de um menino curioso que descobre um pouco do passado complexo de seus pais. Acompanhamos o amadurecimento do protagonista, Rodrigo, que lida com as típicas questões e inseguranças da infância e com a descoberta de parte do passado de sua família. A leitura é leve e rápida e muito fica nas entrelinhas. Senti falta de uma exploração maior dos temas articulados. O final, um pouco "no ar" pode ter sido uma estratégia do autor, mas senti falta de um desfecho mais completo.
O Hipopótamo começa de um jeito ligeiramente despretensioso com um mergulho na mente de um menino (que não sabemos a idade exata, mas chutaria entre 8 e 10 anos) e, quando você percebe, está completamente arrebatado. A forma como Rodrigo (o menino) conta de seu mundo e dos sinais à sua volta que ele não entende (mas a gente entende os sinais dessa família sobrevivente da ditadura) vai aos poucos te pegando e quando você percebe acabou a primeira parte e você está rendido. É um romance curte, direto, que ao final a gente adoraria que fosse mais longo. Mas vale cada minuto dentro dele.