“Ouçam as mulheres”, dizia Maria Ribeiro em um programa TV, Sim, ouçam-nas e leiam-nas, sobretudo as cronistas. O gênero da crônica está cada vez mais afeito à participação feminina, e talvez seja até seguro dizer que são principalmente elas as que têm se sobressaído recentemente no gênero. E isso inclui Maria Ribeiro.
“Não sei se é bom, mas é teu” (Record, 2025) é apenas o segundo livro de crônicas da também atriz, e o primeiro dela em dez anos, desde o lançamento do adorável “Trinta e oito e meio”. Nesse período, lia-se Maria Ribeiro em suas colunas por aí, mas agora se percebe muito bem: ela estava fazendo falta nos livros de crônicas.
Maria não é uma atriz que gosta de falar de si e por isso resolveu juntar alguns textos no formato de livro, aproveitando a fama para vender bastante. Não se trata de uma escritora circunstancial. Ela é uma cronista de fato, daquelas que cultuam os mestres do gênero e enxergam a expressão artística da crônica pessoal.
Basta ver como Maria Ribeiro enxerga a crônica: uma mistura de literatura com diário e com “jornalismo das pequenas grandes banalidades” e que, mesmo sem chegar a ser nenhuma dessas três coisas, serve para deixar tanto os leitores quanto os próprios autores “mais leves e sensíveis aos cantos despercebidos da vida”.
A cronista conjuga muito bem os três gêneros que apontou como formadores da crônica e, em textos amplamente confessionais, comenta o que vê, vive, sente ou pensa, sem nunca se fechar nas próprias idiossincrasias, mas sempre oferecendo ao leitor uma possibilidade de diálogo, como se a crônica não terminasse no texto.
Maria escreve sobre a política e o mundo, admirada que eles sejam conduzidos da forma que são, mas sempre atenta aos vislumbres de esperança. Às vezes, quando quer escrever sobre o mundo, percebe que o mundo é sua mãe. E então apresenta aos leitores uma das principais dimensões da sua crônica, que é a da afetividade.
Ela fala da mãe que envelheceu e sofreu uma queda, evoca memórias do pai, não se esquece do irmão, mas o afeto de Maria está bem longe de se restringir à família. A cronista está sempre disposta a reconhecer o bem que outras pessoas fazem a ela ou ao mundo apenas por serem o que são – e usa a crônica para expressar isso.
Suas crônicas-homenagem engrandecem nomes como Teresa Cristina, Fernanda Young, Rita Lee, Paulo José, Nara Leão, Paulo Gustavo, Isabel do Vôlei, Anitta, João Gilberto, Rayssa Leal, Antônio Cícero, Caetano Veloso e família, Moraes Moreira, Fernanda Torres, além de Domingos Oliveira, o amigo de décadas recém-falecido.
De cada um desses nomes, Maria extrai lições ou momentos em que se sentiu mais à vontade com a vida e a condição humana. As crônicas que escreveu para elas são uma forma de agradecimento, mas também de reforçar algumas belezas que talvez estivessem passando despercebidas, mesmo quando se trata de pessoas públicas.
Outro eixo importante da crônica de Maria diz respeito aos relacionamentos. Ela esquadrinha, poeticamente, os seus sentimentos e as pequenas tensões que, de forma natural, surgem na interação entre duas pessoas que se pretendem amar. As reflexões de amores que passaram, na forma de quase cartas, são bem tocantes.
Mas ela também se ocupa de outras formas de relacionamentos, talvez até mais viscerais, como a da cronista com a cidade, o seu Rio de Janeiro. Também é uma relação que pode oscilar bastante, mas nem por isso é menos amorosa. O vínculo com o tempo também está bem presente nesse livro, como já estava na sua estreia.
Ela continua atenta aos anos do calendário, agora com as circunstâncias próprias de quem já envelheceu desde o último livro, inclusive a menopausa. Maria trata tais temas com sinceridade e sensibilidade. Ela também acompanha o crescimento dos filhos, com todos os desafios que isso significava no período da pandemia.
Várias crônicas estão de algum modo associados à pandemia, em geral com foco nas mudanças. Depois de 2020, Maria decidiu que inteligente é o sujeito que sabe amar, e passou a aproveitar o tempo e as ocasiões – na sua filosofia, é necessário aproveitar tudo o que acontece, inclusive os engarrafamentos e as dores de amor.
Nem sempre é fácil, sobretudo em tempos de Bolsonaro. Maria se considera uma pessoa diferente da que era no seu livro anterior, e muito disso é consequência de ter se tornado mais conscientemente feminista. Apesar de tudo, temos discutido de forma inédita temas como igualdade de gênero e preconceitos de raça e classe.
Deve-se mencionar ainda a relação da cronista com o futebol, sua torcida pelo Fluminense, suas idas ao Maracanã e o Fla-Flu de seus filhos. Ela também está sempre atenta aos produtos culturais, e em tudo promove diálogos com outras pessoas ou consigo mesma, chegando a resultados inteligentes e bonitos.
Maria Ribeiro é uma das muitas mulheres que se sobressaem na crônica na década de 2020. Sua escrita é sensível e sincera e suas causas são aqueles nas quais se pode realmente acreditar. Ela se expressa muito bem, e sai-se da leitura dos seus livros convencido de que esta é uma orientação essencial: leiam as mulheres!