Dez centímetros acima do chão é um livro sobre o que não está dito. Em alguns dos contos os subtextos surgem nas notas de rodapé e se revelam para o leitor. Em outros, o leitor encontra sentidos camuflados em detalhes cotidianos: um cão deitado no caminho pode ser uma mensagem cifrada, uma planta doente prevê o futuro, um oratório no canto da sala encerra histórias ocultas. Em outros, ainda, o implícito vem flagrado em instantes suspensos, como numa foto: a borbulha de infiltração no assoalho, a expressão de susto no rosto do interlocutor, o pequeno salto dez centímetros acima do chão. Cada um dos contos convida o leitor a pensar em seus próprios subtextos.
Flavio Cafiero nasceu no Rio de Janeiro em 1971 e mora em São Paulo desde 1994. Com formação publicitária, trabalhou doze anos como gerente de produto, tendo recentemente trocado a carreira de executivo pela de escritor. É também ator, dramaturgo e roteirista de cinema e televisão.
Sobe e desce de nível de um conto para outro, como quase sempre. Alguns não saem da cabeça e todos tratam de assuntos que são comuns, mas geralmente com um toque de inexplicável ou de fantasioso, até. Muito bem escrito, sem dúvidas, com umas invenções sobre as quais ainda não sei opinar, quanto à estruturação das narrativas.
Todos os contos apresentam algum tipo de experimentação e embutem alguma opinião do autor sobre comportamentos. Cada conto lembra uma caricatura com seus exageros. Isso torna alguns insuportáveis (como "a última aventura do herói"), alguns insignificantes e outros excelentes. É um livro único.
Os contos do Flavio são bem da vibe que eu gosto: urbanos, algo amargos, violentos, mas sem deleitar-se com essa condição. São olhadelas em algo que está acontecendo no apartamento ao lado ou na próxima esquina, e que, talvez nunca soubéssemos, era o ponto de mudança na vida de alguém, bem ou mal. // Flavio's tales have a vibe to them that i thoroughly enjoy: urban, somewhat bitter, violent, but without delighting in this condition. They are glimpses of something happening in the apartment next door or on the next corner, which we might have never known, was the turning point in one's life, good or bad.
Contos que nos encantam com o cotidiano misturado com o não cotidiano de pensamentos e ações de seres que poderiam ser amigos, desconhecidos, qualquer pessoa ou nós mesmo. Uma simples ação gera e resulta em milhões de conexões neurais que nos balançam entre a vida cotidiana e à loucura.