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Meus mortos

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Diogo Mainardi encara a arte, a morte e a própria decadência em um livro implacável. Entre ruínas venezianas e pinturas de Tiziano, ele transforma o fracasso — estético, existencial e humano — em linguagem, e a linguagem em rendição. Com ironia e um desespero quase sublime, a graphic novel de não ficção Meus mortos é o retrato impiedoso de um tempo sem transcendência.


Diogo Mainardi perambula por Veneza, seguindo o rastro de Tiziano, acompanhado por seu cachorro e fotografado por seu filho Nico.


De peste em peste, de morte em morte, ele reflete pateticamente sobre seu fracasso individual e — mais ainda — sobre o fracasso coletivo de seu tempo. Incapaz de qualquer forma de transcendência, apropria-se da arte desesperada e sublime do maior pintor da História, que retratou melhor do que ninguém nossos fracassos individuais e coletivos — assim como o sexo, o poder, a bestialidade humana, a brutalidade dos deuses e o fim dos tempos.


Durante esses itinerários venezianos, a linguagem do grande pintor esmaga a do pequeno escritor. As imagens asfixiam as palavras. Mas não se trata apenas de uma supremacia estética. A pincelada de Tiziano confere uma forma e uma cor — e, em certos momentos, até mesmo um arremedo de sentido — à pequeneza do escritor.


Em seu testamento literário, Diogo Mainardi despe-se completamente e, com as nádegas de fora, ostenta sua derrota.

288 pages, Kindle Edition

Published September 10, 2025

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Diogo Mainardi

19 books16 followers

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Mauro.
300 reviews22 followers
February 2, 2026
Há muito anos (anos), o Alexandre Soares Silva, partindo da corretíssima premissa de que todas as causas que são defendidas por pessoas peladas em parques são erradas, perguntava-se: “que espécie de argumento é uma bunda?”. No fim, exortava os pacifistas a, pelo menos, vestir uma cueca (se você googlar, certamente encontra o texto).
Pois bem.
Tempos depois, vem o Mainardi, falando dos seus mortos, a atestar a exatidão do argumento do Alexandre.
Todo o livro (fotonovela?) mescla fatos instigantes da vida de Tiziano, Rubens, Velásquez e outros pintores, com as tragédias pessoais do Mainardi, o que dá ao livro, além de alguma ração para o intelecto e de alguma curiosidade extra para ir aos museus, o tom melancólico e desalentado que já havia n’A Queda e nos dá, aos já admiradores do Mainardi, uma demão a mais de apego.
Ao lado dos quadros, das fotos de Veneza, dos retratos de família, o Mainardi sustenta, ou ao menos declara, todo o seu ceticismo; mais que agnosticismo, ateísmo, mesmo.
Eu, que sou apenas meio-burro, sou daqueles agnósticos que vêm gente muito mais inteligente e sensível crendo em Deus, e fico com inveja. Também fico com um pouco de inveja dos ateus conformados – porque eu, fosse ateu, jamais me conformaria: o desejo de transcendência não é circunstancial.
Essa conformação do Mainardi, ele que me perdoe, é falsíssima.
Primeiro, porque há poucas coisas – talvez a religião – mais duradouras para a humanidade, que as obras de arte que ele menciona, em especial as do Tiziano, que sobreviveram não só em si mesmas, mas na transcendência delas para as obras de outros gênios e, mesmo, na percepção que hoje temos do mundo e da vida.
Segundo, porque desde A Queda, o Mainardi parece querer expiar suas culpas: lá, pelo “erro” de verbalizar uma bobagem, supervalorizando seu apego à arquitetura renascentista do Pietro Lombardi e menosprezando a segurança de um parto. Aqui, por ter se zangado com seu pai e deixado de atender suas ligações, pouco antes que ele falecesse.
(É evidente que não há culpa nenhuma a expiar, em nenhum desses casos; haveria se o Mainardi, diferentemente de nós, tivesse herdado alguma coisa mais concreta dos áugures, além de uma atávica superstição, aparentemente crendo, sem querer crer, que se fizesse diferente, o resultado seria necessariamente outro).
Mas porque, então, o Mainardi, que certamente sabe disso tudo, se põe a desdenhar do desejo de transcendência? Se tudo é imanente, supérfluo, para que tentar expiar culpas? Pior: para que ter todo o trabalho de ir buscar as cinzas da mãe, episódio final de sua saga, senão para emular a eternidade?
E aí entra, ao fim e ao cabo, o argumento do rabo: ele o revela não só aos leitores, mas às suas próprias convicções. Afinal que espécie de argumento é uma bunda?
Profile Image for Dario Andrade.
769 reviews26 followers
September 15, 2025
Nos últimos 25 ou 30 anos, Diogo Mainardi se tornou mais conhecido como jornalista, resenhista, crítico e polemista profissional do que como escritor. Uma pena.
Sem dúvida, um dos melhores e mais originais escritores brasileiros em atividade. A sua escrita pública de cronista (e crítico dos governos brasileiros de esquerda e de direita) em grandes revistas de circulação nacional obscureceu a sua obra ficcional.
Dele, já havia lido “A queda”, um relato autoficcional bastante pujante.
Aqui ele está longe de um romance convencional. Utiliza a linguagem das histórias em quadrinhos, com fotos, imagens e frases que cabem dentro de um balão de texto.
Há vários jeitos de se ler o livro. Pode ser uma viagem pela arte de Tiziano, Rubens e Van Dyck.
Pode ser um exame de si e da sua família. Ele perdeu pai, mãe e irmão. Todos mortos em um espaço de poucos meses. Ou talvez os tivesse perdido aos poucos, ao longo de muitos anos.
Pode ser também um olhar sobre a morte, de como a morte de quem amamos é também um pouco a nossa.
Ou, então, de como essas pessoas que amamos, inclusive aquelas que não são da nossa família de sangue (como foi Ivan Lessa para ele) também permanecem vivas dentro de nós. Nós somos nós e nossos mortos (sempre em quantidade cada vez maior, até que chega um dia em que nós mesmos seremos — por um breve tempo — só a lembrança de um morto para alguém).
Pode ser tudo isso e tudo feito por meio das obras de Tiziano e seus copiadores. Talvez uma lição seja essa, como as pinturas de Tiziano, as coisas são melhor entendidas quando ficamos velhos. Ou, quando olhamos o Tiziano velho, podemos olhar melhor as coisas à distância ou compreender que viver é ver alguém indo embora. Sempre.
Há, é claro, como em tudo o que o Mainardi escreve, uma certa tristeza, amargura mesmo. Um certo desespero que eu não sei muito bem identificar. Ele se mostra ao mundo, mas como todo narrador que fala de si próprio, ele só mostra o que deseja. Esconde muito e qualquer leitor fica tentando olhar por essas brechas. E saindo de mãos vazias.
Talvez, no entanto, tudo seja como a morte de Rubens. Ele morreu numa quarta-feira. No sábado a viúva já estava vendendo todos os quadros de seu acervo....
Ao terminar o livro lembrei de uma frase do Christopher Hitchens: “Acontecerá a todos nós que, em algum momento, alguém baterá em seu ombro e dirá – não apenas que a festa acabou – mas algo um pouco pior: a festa continua, mas você tem que ir embora.”

P.S.: Considerando a quantidade de imagens, vale a pena considerar a compra livro em papel. Caso compre a versão kindle, considere ler no tablet com tela colorida ou na tela do computador.
P.S.2: “A longa ilusão do toque de ouro do grande pintor dissipava-se com a consciência final da absoluta irrelevância da operação artística diante da desgraça da história”
Augusto Gentili


Profile Image for Guilherme.
141 reviews1 follower
January 11, 2026
Meus Mortos é uma história em quadrinhos que constrói uma narrativa profundamente pessoal a partir do olhar de Diogo Mainardi sobre o pintor renascentista Ticiano, seus contemporâneos e seguidores. O livro mistura crítica de arte e ensaio, usando a representação da morte na pintura como fio condutor para reflexões mais amplas sobre finitude, memória e criação artística.

A leitura se mostrou mais interessante e envolvente do que eu esperava. Confesso que, num primeiro momento, não me senti atraído pela obra por um certo preconceito em relação ao autor, com quem já tive discordâncias. Ainda bem que deixei essas impressões iniciais de lado, porque livro conseguiu me conquistar pela forma como articula texto e imagem e pela intensidade das reflexões propostas. Li ouvindo Vivaldi, mergulhei em Veneza, e saí dessa viagem com uma bagagem para a vida.
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