A ternura dos laços humanos e a fragilidade de um poeta que, diante da morte, resolveu escrever. Ao combinar lirismo, crítica social e um olhar pungente sobre as relações humanas, Carga viva conta a história do advogado Carlos Alberto ao descobrir sua condição terminal e embarcar em uma fuga simbólica e literal com seu amante, Félix, para o litoral paulista.
Em Ubatuba, a convivência em uma casa de praia entre as montanhas e o mar revela não apenas as tensões da saúde debilitada de Carlos, vítima de uma doença devastadora e ainda envolta em desconhecimento e preconceito, mas também as nuances de uma relação marcada pela fragilidade do pouco tempo de vida e pelo desejo de se viver em plenitude. Quem resgata essa história anos depois é uma pesquisadora acadêmica grávida, com o auxílio de sua irmã mais nova, paradoxalmente presente e distante.
Abordando temas universais e profundamente humanos, este romance entrelaça narrativas pessoais com a complexidade do contexto histórico e político dos anos 1980 e o tempo presente. A obra expõe preconceitos, desigualdades e a luta pela manifestação da própria identidade, ao mesmo tempo que examina contrastes culturais e dilemas éticos por meio de sua rica gama de personagens. O ambiente litorâneo serve como arena de conflitos e a beleza da paisagem camufla tensões latentes, refletindo as dinâmicas emocionais e sociais que moldam a vida de todos, ontem e hoje.
Com uma linguagem sensível e reflexiva, Ana Rüsche constrói uma narrativa que se alterna entre momentos de leveza e de profundidade visceral. Carga viva é uma celebração da resistência e da vulnerabilidade humana, onde cada personagem movimenta sua própria carga de vida — memórias, desejos e perdas —, enfrentando os desafios impostos pelo tempo, pela sociedade e por suas escolhas. Um livro que pulsa com intensidade e oferece ao leitor uma experiência tão vibrante e colorida quanto introspectiva.
Adoro ler ficção científica, fantasia, poesia, dá para deduzir por minhas estantes.
Sou escritora, meu último trabalho é "A desconexão telepática e seus abalos sísmicos" publicado na revista seriada Mafagafo #2.2 e a novela Do Amor: o dia em que Rimbaud decidiu vender armas, edição caprichadíssima pela Editora Quelônio (2018). Ainda em prosa, publiquei o romance "Acordados" (2007).
Publiquei também 4 livros de poesia - meu primogênito recebeu tradução e publicação no México, Rasgada; o segundo foi republicado recentemente pela Editora Patuá, Sarabanda, o terceiro, Nós que adoramos um documentário recebeu o apoio do Proac, Gov. do Estado de São Paulo; o quarto eu mesma publiquei e fiz uma grande festa, o Furiosa, que também recebeu uma edição novayorkina.
Um livro com múltiplas narrativas que se entrecruzam entre a serra, o mar, a metrópole, dois vírus, uma substância misteriosa, a política brasileira e a poesia. Aí me pergunto: sobre o que é o Carga Viva? A resposta emergiu depois de uma segunda leitura atenta: é sobre o amor. Ou melhor, sobre os amores. O amor romântico está lá, em mais de um casal, nem sempre da forma como estamos acostumados a ver retratado, com códigos de comportamento relacionais diversos. Há também muito do amor fraterno entre irmãs (amor... sororno?), com seus conflitos revestidos de cuidado. Há mais de uma jornada de amor próprio, há muito do amor de amigos. E sobretudo o filamento que ata esta "narrativa em timeline" e suas histórias entrecortadas: o amor à vida!
Cacá é um poeta dos anos 80 que acaba de descobrir que tem pouco tempo de vida devido ao HIV, por isso pede que Félix, seu companheiro, o acompanhe em uma estadia numa casa de praia em Ubatuba onde escolheu passar seus últimos dias de vida. Enquanto isso, no final da pandemia de 2022, Inês está estudando a vida do poeta já falecido e tentando concluir seu mestrado. Separados pelas décadas e pela vida, a histórias de ambos se encontram em uma narrativa melancólica, insólita, esperançosa e poética. Nada do que Ana Rüsche escreve é menos do que brilhante. É sempre um texto caprichado em todos os sentidos. Sua habilidade poética complementa a prosa, transformando o livro quase em uma música. Assim como no igualmente brilhante "A telepatia são os outros", há aqui a presença de uma substância marginalizada e rodeada de preconceitos, mas que parece desafiar os limites da experiência humana e até mesmo a compressão que o indivíduo tem de si mesmo. Tudo isso vem acompanhado de uma coleção de personagens cativantes, todos muito vivos, muito humanos. Não se trata de heróis ou vilões, e sim de pessoas tentando lidar com suas pro´rias crises existenciais. Até o vizinho milico tem o valor enquanto personagem. Dito isto, eu particularmente gostei muito de Gilda, que carrega as dores de ver a irmã presa em um relacionamento tóxico e, por consequência, dragada por um conservadorismo que chega a colocar e cheque a própria relação conturbada que possuem. Também fiquei fascinado por Félix, em como ele carrega para si uma missão difícil de testemunhar o fim da vida de seu amor e ao mesmo tempo pagar o preço de uma anulação gradativa e nada silenciosa. A relação com Cacá é uma montanha russa, os sentimentos são muito grandes e muito conflitantes, o que torna todas as decisões, inclusive as pequenas, em um peso muito grande para se carregar. Não quero dar spoilers aqui porque acredito muito que este livro mereça a sua atenção, mas vou dizer que adorei o final de Félix e sua última aparição no livro. Um final melancólico, agridoce, heróico e enigmático. Carga viva é um livro que desafia aquilo que sabemos sobre o amor, convicções pessoais e a importância de uma rede de apoio para atravessar as catástrofes e pandemias que a vida vai, invariavelmente, jogar em cima de nós. Não é uma história de amor, propriamente dita, mas é também.
sobre o amor e sobre a arte. esse livro reinventa o Brasil e também traz referências de sonho/realidade q me lembram o livro "floresta é o nome do mundo" da Úrsula le guin (que por um acaso da vida comecei a ler enquanto terminava esse livro)
é um livro bem escrito, as temáticas presentes são interessantes e a abordagem é bem executada. minha nota se justifica pelo fato de que eu não gosto dela, simplesmente. e eu queria muito ter amado, ter me emocionado, mas, à medida que os fatos se desenrolavam, eu confirmava que eu não me importava de verdade com os personagens, as lutas deles não me emocionavam nem profunda ou superficialmente.