Um dos grandes pensadores portugueses partilha influências, reflexões, perguntas e muito do tanto que ensinou e aprendeu.
A infância em Moçambique, a brincar com os negros, com cobras aos ombros e a vestir o fato de banho para ir apanhar chuva, vendo as mulheres de seios despidos e seguindo a sua dança, é apenas o começo da biografia de um menino, conhecido como Zeca, que, aos oito anos, queria escrever um livro como Guerra e Paz e, aos treze, leu Marx sem ter percebido nada, julgando ter compreendido tudo.
Só depois vieram a juventude solitária, o regresso à metrópole e a um país comprimido politicamente, a Sorbonne, o Maio de 68 dentro e fora da academia, as aulas de filosofia no ensino secundário, o trabalho como motorista de ambulância de uma clínica psiquiátrica, para estudar os loucos, a Córsega, a experiência política, a análise do carisma dos líderes e o prazer vital de trabalhar.
Só muito mais tarde, com o ensaio Portugal, Hoje - O Medo de Existir, um fenómeno que dominou os tops de vendas, o protagonista deste livro se tornou amplamente reconhecido.
Nestas páginas, e entre muitos outros assuntos, o Professor José Gil aborda o sentimento doloroso, mas também de liberdade, de ser moçambicano, francês e português, o fracasso da democracia, que defende ser necessário reformular, a ascensão do populismo e do fascismo, a lentidão das respostas aos problemas globais e a urgência de pensar para lá das ilusões e manipulações, que se assume como um dos mais fortes gestos de resistência perante o perigo de continuarmos a escrever a História com uma mão e a apagá-la com a outra.
Excellent interview. José Gil, like Deleuze, did not delve into the history of philosophy; instead, he wanted to know directly how the philosopher thinks. With a few questions and clear answers, he shows that the best way to answer a question is often to ask it again. He seeks not singularity, but his singularity. Congratulations on the book. Happy is he who has retained the capacity for transformation. Thank you, Marta Pais Oliveira—a strong interview, with a fitting close.
This book was given to me by my future sister-in-law as a birthday present.
Gostei mesmo muito muito. É um livro excelente — uma longa entrevista conduzida de forma brilhante pela Marta Pais Oliveira. As perguntas são inteligentes e bem colocadas, e a escrita está muito bem conseguida: fluida, clara e ao mesmo tempo profunda.
O livro mistura a vida e o pensamento. José Gil fala da sua infância e da sua experiência em Paris, do regresso a Portugal e das suas ideias sobre o corpo, o tempo, a liberdade e a forma como vivemos hoje. Gostei especialmente da forma como ele liga filosofia à vida real — não fala só de conceitos, fala de sentir, de viver e de estar no mundo.
É um livro que se lê devagar, porque dá vontade de pensar em cada resposta. Mas é também fácil, mesmo para quem não costuma ler filosofia. Sente-se que há verdade no que ele diz e que pensa com o coração, não só com a cabeça.
Li A última lição de José Gil, de Marta Pais Oliveira, como nesta foto, como se estivesse sentado à mesa ao lado de uma conversa importante. Eles conversavam e eu acompanhava com um lápis na mão, cercado de post-its, tentando não perder nada do que se dizia ali. Em vão: algumas ideias não se deixam capturar, apenas continuam a ecoar. (Mas a riqueza, talvez, habite justamente aí). Em dada altura José Gil responde dessa forma: “São sempre mais importantes as perguntas do que as respostas”. Percebi, então, que o diálogo não ficou entre os dois. E sigo com essa sensação, a de que a melhor lição é a que continua a perguntar. 🇵🇹