Doze anos após o lançamento de sua última obra, Adélia Prado, vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis, retorna à poesia com O jardim das oliveiras, uma reunião de 105 poemas inéditos.
Após doze anos sem publicar um livro inédito desde o comovente Miserere (2013), Adélia Prado retorna ainda mais profunda e madura em O jardim das oliveiras, um livro que é ao mesmo tempo síntese e reinvenção de sua obra, um mergulho poético na aridez e na transcendência, no mistério e na lucidez.
Os poemas aqui reunidos retomam temáticas vivas na obra da autora, como o conflito essencial entre luz e sombra, fé e dúvida, poesia e silêncio. Em versos de grande força simbólica, o sagrado e o cotidiano se entrelaçam com rigor e desatino. A poeta elabora uma reflexão radical sobre a origem da linguagem poética e seu papel diante do mundo — “era Deus quem doía em mim”, escreve, em um dos momentos mais cortantes da obra.
A poesia aqui se mostra em estado de vigí há ecos metalinguísticos, diálogos com a própria história literária da autora, desde o nascimento de Bagagem até a comunhão mais serena com o mistério. É um livro que ouve vozes — as do povo, de Minas, do divino, da vida íntima — e as entrelaça com extrema precisão sonora, clareza lírica e uma compaixão crescente pela condição humana.
Agora, a tempo de comemorar os prêmios Camões e Machado de Assis (ABL), conquistados em 2024, e os 90 anos da autora, completados em dezembro de 2025, O jardim das oliveiras chega aos leitores com capa do premiado designer Leonardo Iaccarino, criada a partir da tela Cactus (1983), da artista plástica mineira Fani Bracher.
Adélia Luzia Prado Freitas, is a Brazilian writer and poet. Started writing at the age of 40 which is relatively late in life for a poet. Although much of her outlook is religious, deeply Catholic, her works are often about the body. Adélia Prado's poems were translated into English by Ellen Watson and published in a book entitled, The Alphabet in the Park. (Wesleyan University Press, 1990).
Tem algo em Adélia que não me alcança. Bate e escorre, mas eu acabo gostando mesmo assim. Há poemas muito lindos mesmo na primeira metade do livro, em especial Timbre, Mapa e Solo. Voltarei a eles algumas outra vezes ainda até acabar este ano.
Um dos pontos positivos e na verdade uma das principais razões para se participar de clubes de leitura é entrar em contato com obras e gêneros que não estão na zona de interesse direta do leitor. Sim clubes de leitura e leituras coletivas não são para mimar o leitor e sim desafiá-lo, tirá-lo da sua zona de conforto permitindo-lhe expandir os horizontes. Dentro desse espírito li O Jardim das Oliveiras de Adélia Prado para o Leia Brasileiros e Lusófonos. Poesia definitivamente não é um gênero que eu tenha costume de ler ou que me cause grandes comoções, salvo algumas poucas exceções são textos que de um modo geral para mim soam pretensiosos demais ou quase impenetráveis. Sou analítico demais e toda essa coisa de “tocar” e “sentir” não costuma fazer sentido para mim. Faço esse preâmbulo para admitir que a “falha” nessa leitura provavelmente está em mim e não no trabalho da autora. O Jardim das Oliveiras de Adélia Prado compõem-se de uma série de pequenos poemas, alguns extremamente curtos que versam sobre diversos temas ainda que em quase todos perpasse referências à infância, ao sofrimento do trabalhador ou das mulheres. O tom religioso também se faz presente em muitos dos textos. Um de meus problemas com o texto inclusive advém do fato dos poemas serem extremamente curtos (ênfase no “meus”), quando eu começava a me envolver com a ideia o poema já tinha acabado. O fato de ter efetuado leitura silenciosa também não ajudou muito, mesmo reduzindo a velocidade de leitura e focando na “voz interior” para “ouvir” os versos. É possível que numa releitura, mais espaçada e lidos em voz alta os versos funcionem melhor, algo para talvez tentar no futuro. O livro começou a me despertar um pouco mais de interesse a partir da metade, quando as referências religiosas em alguma medida começaram a servir de pontos de apoio. Ainda assim em dado ponto a carolice dos versos começou a me enfadar. Vejam eu entendo que a autora quis criar um paralelo entre o sofrimento humano e o de Cristo, mas talvez pelo fato os ter lido em sequência a ideia comece a cansar. Seja como for consigo reconhecer no texto o empenho e o cuidado de Adélia, é inegável que não são versos quaisquer, inclusive exigem do leitor algum conhecimento bíblico e da mística católica, principalmente do meio para o fim. O Jardim das Oliveiras de Adélia Prado, portanto não é um livro ruim, de forma alguma, mas acredito que não seja a melhor porta de entrada para a obra da autora ou para um leitor não afeito a poesia.
não há adjetivos que eu possa colocar nessa resenha para enfim descrever a sensação que é ler os poemas de Adélia Prado, eu sou apaixonada pelo trabalho e escrita dessa grande poeta brasileira e acredito religiosamente que ela é uma das melhores vozes feminina quando o assunto é poesia. E agora, no auge dos seus 90 anos Adélia nos presenteia com O jardim das oliveiras, lançamento inédito da autora com uma reunião de 105 poemas após doze anos de seu último lançamento que foi a coletânea Miserere, é mais que especial não é mesmo? E nossa, esse livro está tão lindo, eu senti uma Adélia/eu-lírico tão emotivo e ao mesmo tempo realista. Muito, porque a saudade ao lembrar de seus pais, de reviver memórias da sua infância, os amores e falar abertamente sobre fé e também Deus são temas que estamos familiarizados em ver nos versos dela, mas esses trazem um tom mais saudosos, também melancólicos, falam sobre a morte, o peso de se existir, o cansaço mental, uns questionamentos e até conselhos sobre a vida e a relação humana com a nossa própria existência. Eu amei poder ler mais uma obra dela, de todas que já li, essa e Bagagem são as minhas favoritas, são divinas e valem toda a sua leitura.
Divino, creio que era esse o adjetivo que eu estava tentando encontrar no início dessa resenha.
Essa é uma obra que marca o retorno da poeta após uma longa pausa de 12 anos na publicação de livros. Com um total de 105 poemas, a coletânea revela uma poesia que entrelaça temas de fé, sofrimento, cotidiano, amor e espiritualidade de maneira sincera e acessível. A autora reflete sobre a condição humana, reconhecendo fragilidades, dúvidas e desejos, ao mesmo tempo em que busca uma conexão profunda com o divino presente nas pequenas coisas do dia a dia. Sua linguagem coloquial e a abordagem honesta criam uma relação íntima com o leitor, convidando à reflexão sobre temas universais, como a busca por significado, a complexidade do amor e as dificuldades emocionais. A obra também destaca a importância da misericórdia, da empatia e da beleza encontrada na simplicidade da vida, reforçando uma visão de espiritualidade que valoriza a humanidade e as imperfeições.
Adélia Prado tem o dom de ver a pedra além da pedra. De aguardar a poesia que surge na véspera. No silêncio e na porosidade das palavras. Na fé, no indizível e muitas vezes no deserto. Aqui, nO Jardim das Oliveiras não é diferente. Na leitura do livro tive a sensação de ler um clamor erguido ao tempo, ao efeito que o tempo tem na vida, que segue deixando marcas, trazendo lutos, mas que inaugura um espaço de memória e de imaginação que é lindo de se ver. Para mim, ler Adélia é sempre encontrar com o radical da vida, mas com uma fé que parece trazer mais cores e mais beleza para esse encontro. Adélia é uma pedra preciosa. Uma montanha que só poderia ser de Minas Gerais.
LABORES O torturador e sua vítima terão igual misericórdia. Isso nos repugna, não a Deus, que é imóvel em seu superabundante amor. Nem nossos crimes são obras perfeitas. O mapa-múndi, o espremedor de limão, a escova do engraxate e a pá do coveiro agradam a Deus porque são obras de paz e em nosso favor certamente advogarão. Invisíveis, coisas humildes constroem o Reino.
Este foi a primeira leitura da vencedora do Prêmio Camões de 2024 Adélia Prado. É o livro mais recente da autora, e gostei bastante das poesias, muito leves e cotidianas. Em sua obra, ela fala bastante sobre temas cristãos. Com certeza vou ler outros livros dela.
Ela me perde quando acredita demais em suas orações cristãs. Ingênuas às vezes e pueris em outras. Gosto mesmo quando aceita sua condição de humana pecadora. De quem vai ter sua carne conspurcada comida por vermes até que tudo volte ao pó. Aí sua voz ganha espessura de um ritual. Profana?