Em Uma Casa na Areia, Pablo Neruda transforma a própria casa de Isla Negra em uma espécie de organismo vivo, respirando com o vento do Pacífico e pulsando ao ritmo das marés. Nos textos reunidos nesta coletânea, a casa não é mero cenário, mas personagem central, carregada de memórias e de um imaginário que funde a realidade com a poesia. Neruda a descreve como um barco ancorado na terra, repleto de bandeiras, âncoras, mascarones de proa e pequenos tesouros coletados ao longo da vida, cada um carregando uma história silenciosa. O mar, vizinho fiel, não é só paisagem, mas presença constante, alterando o humor do poeta e moldando suas palavras. A edição da Tag que traz este livro, enriquecida com as fotografias de Luis Poirot, consegue prolongar essa atmosfera: as imagens revelam a textura das pedras, a luz filtrada pela maresia, o mobiliário que parece prestes a contar segredos, como se cada objeto fosse testemunha de uma conversa íntima entre o homem e o mundo. O resultado é uma obra que convida o leitor a entrar não apenas na casa de Neruda, mas no seu modo de habitar o espaço e de dar sentido às coisas.
Essa edição é, de fato, um objeto precioso. Não apenas pelo cuidado gráfico, mas pela forma como as fotos de Poirot dialogam com a prosa lírica do poeta. Amigo de Neruda e profundo conhecedor de seu universo, Poirot registra com delicadeza aquele ambiente, capturando o silêncio das salas, a curva dos objetos, a quietude que, mesmo imóvel, parece conter o som distante das ondas. Há uma cumplicidade entre texto e imagem: enquanto Neruda descreve com palavras o sal grudado na madeira, Poirot o mostra com a luz que atravessa a janela. É um trabalho de duas linguagens que se encontram para evocar não apenas o que se vê, mas o que se sente, aquilo que fica impregnado no ar e na memória. Essas fotografias têm ainda um valor histórico e afetivo especial, foram guardadas por anos para escapar da repressão da ditadura chilena, e só agora retornam à luz, como se carregassem nelas a resistência silenciosa contra o esquecimento.
Nos textos, Neruda não fala de coisas de modo utilitário; ele lhes concede alma. Cada objeto é tratado como se tivesse espírito próprio, como se as pedras que cercam a casa guardassem um saber antigo, como se a mesa de jantar tivesse memórias inscritas em suas marcas. A casa se torna extensão do corpo e da mente do poeta, mas também um relicário de histórias, algumas vividas, outras sonhadas.
O mar é talvez o personagem mais fascinante desta narrativa. Não aparece como um elemento distante, mas como companheiro, confidente e, às vezes, força que impõe respeito. Neruda escreve o Pacífico como algo indomável e vasto, que “saía do mapa” e não cabia em lugar nenhum. Ele é o sopro que atravessa a casa, a música de fundo de cada momento, o horizonte que muda de cor conforme o humor das águas. Entre a casa e o mar há uma troca incessante: a casa oferece abrigo e silêncio; o mar oferece infinitude e movimento. Essa relação é quase filosófica, pois nos lembra que o lar, por mais protegido que seja, sempre está aberto ao mundo, e o mundo, por sua vez, sempre nos invade com sua presença.
O tom que atravessa Uma Casa na Areia é de contemplação. Neruda nos leva a perceber que a vida pode ser contada através das coisas que escolhemos guardar, das paredes que erguemos, das janelas que abrimos para o horizonte. Não se trata de um inventário frio, mas de uma espécie de autobiografia em objetos. Essa escolha tem um peso reflexivo: falar do mundo através do concreto, do palpável, é também recusar a abstração excessiva e lembrar que a existência é feita de matéria, de tempo sedimentado nas formas. Talvez por isso o livro seja tão físico r é nesse contato com a materialidade que ele nos oferece um pensamento sobre o pertencimento e a memória.
As fotografias de Poirot reforçam essa experiência sensorial. Não são simples registros documentais, mas imagens que parecem impregnadas de poesia. Cada sombra e cada feixe de luz se torna uma espécie de verso visual, e o preto e branco intensifica a sensação de que estamos diante de uma memória, não de uma cena presente. A casa que vemos nas fotos é a mesma que Neruda descreve, mas também é outra: ela é filtrada pelo olhar de quem conheceu o poeta e soube captar a essência daquele espaço. O livro, assim, é também um encontro entre dois amigos que se entendem sem precisar falar.
Ler Uma Casa na Areia é atravessar um território que mistura realidade e sonho. É caminhar pelos corredores de uma casa que respira, ouvir o som das ondas batendo nas pedras, sentir o cheiro da maresia e tocar objetos que carregam histórias. Mas é também entrar na mente de um homem que soube transformar a própria vida em matéria poética, que entendeu que as paredes que nos cercam não são apenas abrigo, mas extensão de quem somos. Ao fechar o livro, fica a sensação de que visitamos não apenas a casa de Neruda, mas um pedaço de sua alma, e que, ao fazê-lo, levamos conosco um pouco daquela luz filtrada pelo mar.
Uma Casa na Areia de Pablo Neruda; tradução de Josely Vianna Baptista. Rio de Janeiro: José Olympio; Porto Alegre: Tag, 2025. 112p.