A criação artística como vegetação.
O explorador das íngremes selvas da alma fatigará os seus braços se decidir explorar à catanada, à bruta. Porque o núcleo da selva - as ruínas deslumbrantes onde mora a beleza intemporal - está rodeado de espécies venenosas e pântanos peçonhentos.
Eu prefiro beber da experiência e explorar com cuidado, poupando em tempo e passos. O trilho mais percorrido, invariavelmente, está cheio de lixo, vegetação pálida e enferma, e volumosas fezes.
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Noventa e nove por cento das vezes qualquer obra criativa aclamada pela maioria dos Homo Sapiens Sapiens é bosta. O que passa nas rádios, os fenómenos virais, as prateleiras fluorescentes dos best-sellers - tudo bosta. Esta opinião não nasce de uma vontade de ser diferente, de ser do contra, ou de qualquer outro capricho do ego. Trata-se, sim, de uma constação objectiva validada pelos anos. E não podemos esquecer que existe uma máquina perversa sedenta de dinheiro que aprimorou a capacidade de gerar bosta apelativa - revestindo-a com chantilly e frutos silvestres.
Almas menos atentas poderão ler isto e gritar: Shakespeare, Tolkien, Tolstoi; Bach, Mozart, Beethoven; Leonardo, Rembrandt, Picasso. Mas as almas menos atentas não deveriam esquecer a volumosa quantidade de obras absolutamente medíocres que o tempo engoliu; nem deveriam esquecer que antes da democratização da possibilidade de criar - esse titânico punhal de dois gumes do capitalismo - havia alguma triagem aplicada aos criadores portanto a proporção de bosta era menor.
Tampouco devemos esquecer que o ser humano tem uma necessidade cega de pertencer a um grupo social e cultural. Quantas pessoas não constroem gigantescos muros de cimentos em seu redor? Há muitas criaturas que só ouvem metal, ou hip hop, ou rock. Há muitos olhos que só vêem os radioactivos produtos de Hollywood porque perderam a capacidade de gramarem com planos mais longos que três segundos, ou de decifrarem diálogos mais complexos que uma lista de compras. Há ainda pessoas que por algum motivo insondável vão ler o último romance de 2000 páginas de José Rodrigues dos Santos!
Normalmente, alguém que gosta de um músico/realizador/autor tem tendência a gostar de toda a sua obra - mesmo quando a fama, a sede de dinheiro e o apego a fórmulas diminuem, frequentemente, a qualidade das obras derradeiras (no caso dos fenómenos pop, o apelo pela novidade esconde a absoluta ausência de qualidade).
O Cavaleiro da Dinamarca segue o axioma da bosta popular. Há anos que não lia isto e o meu grau de estupefacção é doloroso. Que coisa tão pobre, estéril e triste. Como é que isto era leitura obrigatória? Não haveria nada mais interessante e estimulante para dar a putos com doze anos?
Quase chorei, no fim, esmagado pela vulgaridade e pela peçonha cristã.