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294 pages, Paperback
First published January 1, 2007
Em duas páginas de entrevista, César das Neves usa cinco vezes a palavra deboche e condena o aborto, o preservativo, a homossexualidade, a masturbação e tudo que, de um modo geral, ele calcula que possa dar prazer a alguém.
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Conhecem aquela espécie de intelectual que trata temas complexos numa linguagem acessível a todos? Não aprecio. Mas o meu coração bate mais forte quando se fala em Luís Freitas Lobo, colunista do Público, que faz o contrário: fala de um tema acessível a todos numa linguagem que ninguém entende. Isso é que é verdadeiramente prodigioso.
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Nada tenho contra os autodidactas – antes pelo contrário. Um autodidacta é, como todos sabemos, um indivíduo que se instrui a si mesmo. O problema é que Rosa Casaco, como é óbvio, teve um péssimo professor. Foi azar. Isto da autodidáctica é como a escola: é preciso ter a sorte de apanhar um bom mestre.
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Vasco Pulido Valente inventou uma extraordinária técnica para escrever crónicas. Primeiro, põe-se a imaginar: “O que é que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso pensaria sobre este assunto?” Depois, senta-se e escreve exactamente o contrário. Como escreve sem erros e sabe coisas sobre o século XIX, as pessoas vão fingindo que não percebem que o truque é banal e antigo.
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Há toda uma superioridade linguística que também achincalha. Na maior parte dos casos, os empregados de café corrigem subtilmente o fraseado dos nossos pedidos. Quem me dera ter um euro por cada vez que mantive este diálogo com um empregado:
Eu: Queria um café.
Ele: Deseja uma bica?
Repare-se que, na minha frase, nem uma palavra se aproveita. É impossível não sentir embaraço por termos dito que queríamos um café quando, na verdade, o que se passa é que desejamos uma bica.
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Quando este repórter entrou em Amarante, encontrou uma cidade envergonhada. Os amarantinos sabiam que tinham procedido mal. Com alguma relutância, alguns cidadãos acederam a falar à minha reportagem. “Você não parece jornalista”, disse o primeiro. Fiz-lhe saber que não me compraria com elogios.
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Nunca fui a um congresso partidário, mas tenho pena: nutro grande interesse por manifestações religiosas em geral.
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Pus a mão na consciência – o que além de ser pouco higiénico costuma ser, ainda por cima, doloroso – e constatei que não tenho dado ao leitor aquilo que, ao que suponho, ele esperaria. É que a Visão é uma revista e, em revistas e jornais, normalmente faz-se jornalismo. Pelo menos, lá fora. Cá em Portugal, não é obrigatório. Mas, seja como for, parece-me prudente que os meus textos passem a ser mais jornalísticos. Hoje, optei por fazer uma entrevista, por ser um género em que o jornalista, fingindo ter interesse nas opiniões do entrevistado, se entretém a explanar as suas. Queria um entrevistado que conhecesse a fundo a realidade portuguesa e fosse mais informado que o Nuno Rogeiro, mais perspicaz que o Pacheco Pereira e mais eloquente que o professor Marcelo. Mas onde é que eu ia encontrar um taxista?
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Segundo uma interessante reportagem do Diário de Notícias, há muitas mulheres que recorrem à cirurgia plástica genital, com o objectivo de “recuperar a virgindade”. Confesso que não percebo esta obsessão com a virgindade. Eu lembro-me bem do que é ser virgem. Não apreciei. E, para mim, o significado da virgindade era muito claro. A minha virgindade não queria dizer honra, pureza, inocência. A minha virgindade queria dizer: “Cá estamos, não é? Ninguém me pega, pá”. Felizmente, um dia este calvário terminou. Já lá vão mais de duas semanas.