O teórico de física Marcelo Gleiser, o astrofísico Adam Frank e o filósofo Evan Thompson questionam a concepção da ciência como estudo desvinculado da experiência pessoal, apontando o erro corriqueiro de esquecer que ela é uma atividade humana, embasada na percepção, na cultura e na linguagem. É nisso que consiste o chamado “Ponto Cego”.
Desde o Iluminismo, a ciência tem sido usada para tentar responder às questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Hoje, a ciência moderna é entendida por muitos como a detentora de todas as explicações sobre a realidade, e acredita-se que ela pode elucidar tudo sobre o universo, ainda que as respostas estejam cada vez mais próximas do abstrato. Seguir essa visão e desprezar o valor subjetivo da experiência humana, que atravessa qualquer pesquisa, pode ser um caminho perigoso, capaz de cegar os estudiosos para a importância e inevitabilidade da vivência para a Ciência.
Com capítulos instigantes sobre as origens filosóficas e científicas, o cosmo, vida, mente e planeta Terra, O Ponto Cego nos apresenta uma análise que articula diversas áreas do conhecimento — como química, física, matemática, biologia e filosofia — e realiza um panorama histórico da Ciência para propor uma abordagem inovadora e mais abrangente, na qual a experiência humana seja entendida não como um obstáculo ao conhecimento, mas como parte essencial formadora do processo científico.
A leitura de O Ponto Cego é fundamental para enxergar as rachaduras escondidas sob as lentes daquilo que tomamos como verdade e que está na raiz dos dilemas científicos relacionados ao tempo, à origem do universo, à física quântica, à vida, à mudança climática, à inteligência artificial, à matéria, à cognição, à mente e à consciência.
“Uma reflexão intrigante e importante sobre a complexidade do papel que nós mesmos exercemos no cenário científico mundial” — Carlo Rovelli
Adam Frank is a professor of astrophysics at the University of Rochester. He is a co-founder of NPR’s 13.7: Cosmos and Culture blog and an on-air commentator for All Things Considered. He also served as the science consultant for Marvel Studio’s Dr. Strange. He lives in Rochester, New York.
Um livro bastante ambicioso. Advoga a necessidade de uma nova visão de mundo científica, sem que desperdice o fato de que a ciência nos deu até agora. Defendem isso porque, para eles, a ciência está em crise, haja vista que se mostra incapaz de explicar coisas como a mente ou a consciência, que são, no final das contas, a própria fonte da ciência em si. A crise leva a respostas que para eles são insatisfatórias. A primeira resposta é o triunfalismo científico, que se apoia na supremacia absoluta da ciência, mas que para eles resulta em uma visão estreita da ciência. A segunda resposta é a negação da ciência pela direita e o pós-modernismo relativista à esquerda. Ambos significam no final das contas a rejeição da ciência. Por fim, há o movimento da nova era que se funda em uma ciência periférica ou pseudocientífica. O diagnóstico deles é que a crise (e as soluções equivocadas) nascem do erro da ciência moderna de tentar explicar o universo ignorando a experiência humana. Talvez a incompreensão de que a crise seja parte estrutural da atividade científica e seja o motivo de tanta frustração com a ciência hoje. Mesmo que não avance muito além do diagnóstico e um tanto longo, já que o filé do livro está na primeira parte, é um livro interessante, com bons insights.