Jota do Lixo é uma lenda. Não só por ter sido um dos precursores do punk cearense, mas porque sua morte, envolta em circunstâncias suspeitas, ainda hoje atiça a curiosidade dos moradores de Fortaleza. Movido pelos ecos desta história, um podcast investigativo sai em busca de respostas e encontra uma intrincada e contraditória teia de personagens, imersa em subcultura e fantasmas, e, no meio disso, o vilarejo de Cococi, um local abandonado que esconde horrores de um passado colonial e fantástico.
Em Aranha Movediça, Moacir Fio cria um romance vertiginoso que se desdobra, se sobrepõe e se entrelaça, submergindo o leitor em uma narrativa febril e arqueológica, de fremente escuridão e beleza. Com uma habilidade magistral, transitando ora pela oralidade, ora por uma rebuscada prosa poética com inclinação para o gótico e o grotesco, Moacir se consolida como um dos mais inventivos e promissores autores desta nova leva de horror latino-americano, mas com um romance verdadeiramente brasileiro, que mergulha na lama da nossa origem e nos aprisiona em um torvelinho de violência, desejo, transgressão e magia.
"Ao final, ainda que não chegasse a nenhuma conclusão, Alessandra entregava perguntas muito pertinentes. No mínimo, desestabilizava preconceitos e versões oficiais. Sua especialidade não era a elucidação do mistério, mas encontrar pontas soltas que tivessem passado despercebidas. E, na história de Jota do Lixo, não faltavam pontas soltas esperando para serem desenroladas, caminhos inexplorados, erros grosseiros, enganos e simplificações. Consequências do meu esforço, mas também da natureza de Fortaleza, uma cidade afeiçoada ao esquecimento."
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— Eu sou acontecência — disse Moça. — Tudo o que vive acontece. Não se mede por contorno nem por nome. Não precisa de carne para durar, nem de lembrança para existir. E se estende para muito além das coisas. Acontecência é o que fica depois que o tempo se cansa. — Tudo o que vive… — Tudo. O erro é esquecer que se é acontecência. Acreditar na casca e se apegar ao nome e às histórias que inventam. Quando se aceita tudo isso, aceita-se a morte. Porque toda casca apodrece. E quem se agarra à casca, apodrece junto. Eu aprendi a não me deixar ficar presa. Já fui muitas, minha querida, mas o que eu sou é acontecência. Josefa apertou as mãos contra o próprio peito. Sentia o coração, mas em outro lugar, vibrando em outro corpo que não o seu. Quis se livrar imediatamente daquela aflição. — Eu vou morrer? — Te assusta?
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"O mapa de um deserto precisa ser remendado a todo o momento, porque a areia se move rápido sem vigia, e mesmo quando se encontra um crânio cujas órbitas ainda mapeiam o movimento dos grãos e a beleza do tempo estranho, é preciso aguardar a noite de lua certa, pois, no chão, o silêncio é fronteira e, no céu, a luz escreve por finas teias de aranha. Nisso consiste o mapa, e ela entende que, depois de tudo o que viu, não lhe bastam os estreitos horizontes da cidade, do mundo, da pele."
História muito bem contada, que vai nos emaranhando. Algumas esquicitices do livro parecem realmente teias, embolam, emboloram e combinam, em estranheza boa com o teor do título do livro. Após a leitura, Aranha Movediça parece mesmo o melhor título possível. Ainda tem personagens bem vivos que deixam saudades!
Feliz demais em ver a ascensão da cena literária do Ceará. O livro entrega muito entretenimento, história muito envolvente com misto de mistério e fantástico. Para os amantes de podcast true crime, o deleite é ainda maior.