Aqui temos a geometria de uma mulher, exposta pela natureza dos corpos e das coisas, na subtileza de um traço que se exibe na expressão do seu contrário, amando a contradição e o contraste, desejando o circular e o infinito, querendo ser parte e também cumprir-se liberdade e possibilidade de partir. Ela, a mulher-ilha que se olha por fora, em compaixão pela perda de todas as promessas, dos quotidianos perdidos, como se do inverno estimando o verão. É ela a boa menina que rejeita o conforme, a convenção e o cliché. As descrições são sucintas e exatas, na precisa medida da relevância estética, como as de uma tela e da delicadeza do gesto que antecipa a sua força. São textos de exibição, dez telas sequenciadas, como se respiração ou passos.
Helena Amante decompõe as proporções entre vazios, no subliminar que a literatura é e que a autora, com maturidade, executa. E no ímpeto do fôlego último, jorra a urgência que não podia ser contida, ela, a mulher e todas as que ela pode ser.
Uma série de contos com metáforas tão bem pensadas e com temas fraturantes da atualidade. Chorei, ri-me e deu-me tempo para pensar no que li. Simplesmente perfeito 💫
Ela gostava muito de gatos. Gostava de os ver absolutamente felizes ao sol. Fechando os olhos ao sol, bocejando, palatos redondos como o inverso de rebuçados, dentinhos felinos, esticando e empurrando as patas no ar, um corpo de pelo, bom de apertar, o gato e o pelo ao sol.
Ela escolheria nascer livre de inseguranças, nela a diferença de não lhe importar a diferença. Ela escolheria ser mais como os gatos. A nada dar demasiada importância. Ser simplesmente ela, muito dona de si. Absolutamente feliz ao sol.
Como se dizer adeus fosse questão de um gesto. Um mecânico movimento. Levanta a mão, diz adeus, isso mesmo.