Sair da favela e ingressar na vida de classe média era o grande sonho de Aurora e Ernesto. Esse propósito era alimentado pelo amor e pelo desejo de criar filhos "prósperos, exemplares e respeitados pela melhor sociedade". Deu certo.
Com sua prosa leve e, ao mesmo tempo, precisa, Eliana Alves Cruz constrói uma narrativa engenhosa sobre o processo de ascensão social de uma família negra. Cada personagem — a mãe, o pai, os filhos e a filha — conta a própria história em primeira pessoa. São testemunhos de uma travessia que nunca é igual para ninguém. Ao explorar a pluralidade de vozes, a autora alcança a complexidade que dá ao processo sua fisionomia particular.
Em tempos de desigualdades agudas e divisões de toda sorte, é fundamental olhar a realidade sob diferentes ângulos, explorar nuances e identificar caminhos que nos permitam criar um terreno comum de diálogo. Meridiana faz jus ao nome, conecta polos no espaço e no tempo e nos ensina como passar adiante as conquistas que acumulamos, garantindo que as gerações futuras não se percam e sigam ancoradas no chão da vida.
Três gerações de um Brasil negro e desigual que, apesar da dor e do trauma, mostra que tem, sim, caminho. Um baita romance, escrito em seis vozes. Um caleidoscópio imperdível! — Bianca Santana
Identificação e compreensão imediata. Foi assim que Meridiana me chegou. Os dilemas da ascensão social são retratados em detalhes tão particulares e íntimos que pareceram uma memória viva de minha casa. Questões comumente enfrentadas por uma pessoa preta ao adentrar novos círculos sociais surgem de um modo tão fiel que até arrepia. É o tipo de livro que dá vontade de economizar páginas, pra ficar lendo mais tempo. — Lázaro Ramos
Jornalista por formação, Eliana Alves S. Cruz nasceu no Rio de Janeiro, onde atua como chefe do Departamento de Imprensa da Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos, sendo também vice-presidente do Comitê de Mídia da Federação Internacional de Natação – FINA. Nesse campo de trabalho, visitou dezenas de países e participou de três Olimpíadas, vinte Campeonatos Mundiais e inúmeros eventos nacionais ligados ao esporte aquático, sendo também responsável pelo site www.blacksportclub.com.br, voltado para o resgate da presença negra no esporte.
Como escritora, vem se destacando na ficção, inicialmente com o romance Água de barrela, fruto de cinco anos de pesquisa sobre a história de sua família desde os tempos da escravidão. Em 2015, o livro foi contemplado em primeiro lugar no Prêmio Oliveira Silveira, concurso promovido pela Fundação Cultural Palmares, que o publicou no ano seguinte. E uma nova edição já se encontra disponível pela Malê Editora. Para a antropóloga Ana Maria da Costa Souza,
A profundidade dos personagens e a verossimilhança das situações por eles vividas são os pontos chave deste romance baseado em 3 séculos de história real de uma família negra no Brasil. Não há como não ser tocado por emoções intensas diante de muitos momentos do texto. A força da narrativa reside, precisamente, na riqueza de detalhes que conferem densidade e vigor à história.
Em 2016, integrou a edição 39 da série Cadernos Negros, com poemas de sua autoria. E, no ano seguinte, contribuiu com dois contos para a 40ª edição dos Cadernos, entre eles a narrativa de ficção científica intitulada “Oitenta e oito”. Neste mesmo ano, participou também da premiada antologia Novos poetas.
Empenhada no resgate da memória social e cultural afro-brasileira, seu mais novo romance – O crime do cais do Valongo – figura como romance histórico e policial, com uma instigante narrativa que se inicia em Moçambique e chega até o Rio de Janeiro.
A influência que a autora teve para escrever sobre o Valongo, foi a descoberta dos objetos encontrados em escavações recentes. Entre o período de 1811 a 1831 muitos escravos chegaram ao Brasil por esse cais, todos os artefatos despertaram a criatividade da autora, possibilitando assim o começo da escrita do seu livro, que é feito de inúmeras memorias dos ancestrais que foram escravizados e mortos no cais, - diz autora em entrevista a Médium Books(https://medium.com/blooks/entrevista-...-).
A mensagem que a autora deixa para os seus leitores em entrevista a Médium Books é “Brasil, se olhe no espelho, enxergue quem você realmente é se ame. A história e o conhecimento do povo negro são tesouros riquíssimos que precisam ser descobertos e aproveitados por toda a nação”. Assim é possível observar o resgate da memória e a preservação da identidade cultural negra almejado pela escritora.
Eliana Alves Cruz é também autora do blog www.flordacor.blogspot.com com textos voltados para a apreciação do trabalho de mulheres negras brasileiras em diversos campos de atuação.
Eliana, que escritora você é!!! As mudanças de vozes narrativas são perfeitas. A narrativa, tão bem escrita, carrega tanto. O racismo, a solidão dentro do próprio seio familiar, as batalhas que cada personagem carrega, os temas abordados, as nuances das situações apresentadas. Nossa! Genial. Forte. Impactante.
“Era só o que faltava, a gente brigando entre a gente. Um país todinho fodido desses, e a gente nessa! Eu hein… E lá do outro lado, no lado dos bacanas, geral tá tranquilaça, só curtindo a vida”, disse Tonho. “Mas e quem tá no meio do caminho entre aqui e lá? Como é que fica?” Tonho me olhou com um ar divertido. “Quem tá no meio é fodidaço igual a nós, mas finge que não sabe disso.”
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Eu tinha me condicionado para a decepção, estava me preparando mentalmente para ela desde o momento em que terminei a última questão daquela prova. A mãe, inclusive, já havia começado a me consolar, me aconselhou a ir na dona Juca Benzedeira, disse que agora eu podia tentar conciliar um ano de cursinho com algum trabalho. Até ali, dona Feliciana fez tudo o que pode para me dar condições mínimas para que eu não precisasse deixar a escola. O que ela não conseguiu foi me oferecer ferramentas para eu lidar emocional e psicologicamente com a realidade de ser bem-sucedido. Ela não sabia o que era ter êxito, essa sensação fazia sua estreia tanto em mim quanto nela.
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E eu estava cansando daquela vida em que uma conta puxava outra: o terno que sugeria a gravata; a comida que harmonizava com um vinho específico; a visita que pedia a mobília da moda; o cargo que pedia um carro… que eu não podia pagar. Eu havia escolhido trabalhar no banco de maneira muito consciente, para ter segurança financeira, estabilidade, para construir um patrimônio. Portanto, não foi o banco que me escolheu, não recebi dele nenhum chamado em meus sonhos, a decisão de estar lá foi fruto da necessidade. E se eu tivesse dinheiro suficiente para me manter? No que eu trabalharia com prazer o resto da minha vida? Descobri que eu nunca tinha pensado sobre qual seria o meu real talento, e pensar nisso foi como voltar à juventude, para aquela fase da vida em que vamos definir nossos rumos.
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Pode parecer incrível, mas de certa maneira era mais fácil quando morávamos na Matadouro. Nossos filhos eram menores, estudavam aqui, nós também trabalhávamos no centro, mas eu tinha perto de mim Zuleica, minha mãe, dona Feliciana, dona Juca Benzedeira e vizinhas que, quando era preciso, uma ficava com o filho da outra. Todo mundo era mãe e tia de todo mundo. Quando nos mudamos para o centro, passamos a ter muito mais recursos materiais do que naquela época, mas muito menos recursos afetivos e de suporte. Não há dinheiro que compre um “Tua mãe não tá aqui, então eu sou a lei”; “Não apronta, porque quando ela chegar vou contar tudo”; “Arrume as coisas com calma, filha, deixa os garotos brincando no meu quintal”.
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A minha implicância com o retorno do Ernesto à Matadouro é porque eu também quero voltar, mas não para um lugar concreto. Tenho uma saudade profunda do que nos levou a unir nossa vida, do que sonhávamos juntos para nós não apenas materialmente. Ele acha que precisa pisar ali para conseguir se lembrar de quem ele era, mas eu não.
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Quando contei para Zuleica, ela disse: “Ah, é um nome diferente, bem coisa do Ernesto mesmo. Pelo menos vai tirar a menina da mesmice de Lucianas, Marias, Cláudias, Márcias…” “O que vocês dois têm contra o que é comum?! Esses nomes que você falou são lindos. Também é bonito ser igual a todo mundo. Que mal tem ser apenas mais um no meio da multidão?
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Ter me tornado imigrante me fez olhar para a minha casa de maneira diferente e me fez menos duro, menos dono da verdade, menos julgador. À medida que eu ia criando novas relações, via que esse negócio de construir outras referências não é tão fácil. No fim, eu estava sempre tentando atender a alguma expectativa que não era minha, e me perdia de mim.
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Voltei à carga mais tarde, mas não tomaram nenhuma providência prática e ainda tive que ouvir um “coisa de criança, não se preocupe”. “Coisa de criança ensinada a ser racista!”’ Quando são menores é coisa de criança. Quando são jovens, estão repetindo o que aprendem em casa. Quando são adultos, ou estão reproduzindo a estrutura, ou têm questões psiquiátricas. E quando são velhos estão senis. É esse o ciclo das desculpas irresponsáveis pelo crime.
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Priscila estava tendo com Nandi uma atitude parecida com a que minha mãe teve comigo, ou seja, achava que protegia a filha modificando-a. A diferença brutal entre elas eram os egos: um inflado e o outro quebrado. Minha cunhada, diferentemente da minha mãe, queria fazer da filha a sua imagem e semelhança. Já minha mãe queria fazer de mim a imagem e semelhança de mulheres iguais à minha cunhada.
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Força, Nandi, eu te pedi, quando você tinha oito anos! Te pedi porque também fui muito exigida nessa mesma idade. Força, autocontrole para não reagir com raiva, polidez nos gestos e na voz, aceitar, sorrir, gostar e me moldar a uma imagem que não era a minha. Alguns fatos vão me ocorrendo apenas agora, enquanto escrevo. O Augusto e eu brigávamos demais porque ele adorava dizer que eu tinha inveja da sua mãe, e não é que ele estava certo? Ele só errava na causa desse meu sentimento, que não tinha nada a ver com a aparência da Priscila, mas com a liberdade que ela desfrutava de ser o que bem quisesse, do jeito que achasse melhor, de falar o que bem entendesse. Ela não precisava dessa tal “força” que viviam querendo que eu tivesse.
Não entendi como uma autora que escreveu Solitária, anos depois publica um romance tão superficial, quase infantil, cheio de vícios de linguagem. Esse fui até o fim por esperar que, em algum momento, eu fosse ser surpreendida. Mas não.
criamos espaços que não são nem lá e nem cá. estranho ser imigrante sem sair de casa, mas, por incrível que pareça, a gente se acostuma com o desencaixe. e, pior, transmite a mesma ideia para quem vem depois.
Uma das escritas mais fluidas que já tive o prazer de ler. A mesma história é contada por várias personagens e isso torna tudo mais interessante, inclusive lembrei do This is Us, com as idas e vindas no tempo. Ninguém é perfeito, todos os com os seus problemas e motivos explicados ao longo da história.
A dor do racismo é dilacerante e o livro mostra claramente as dificuldades monumentais existem para pertencer, trabalhar e se relacionar.
Fico imaginando quando eu tiver 50 ou 60 anos e rever minha trajetória e da minha família, como será: as escolhas, os acertos, erros, teimosias e
Alguns destaques: "Mas, sim, minha mãe tinha razão. Competência, carisma, qualquer virtude era insuficiente se não jogassemos para baixo o que em nós teve a audácia de nascer e crescer para cima. 'E um dia canso resolver esse nariz, ajeitar essa boca, fechar o espaço entre esses dentes...' ".
"A minha implicância com o retorno do Ernesto à Matadouro é porque eu também quero voltar, mas não para um lugar concreto. tenho uma saudade profunda do que nos levou a unir nossa vida, do que sonha anos juntos para nós não apenas materialmente. Ele acha que precisa pisar ali para conseguir se lembrar de quem era, mas eu não."
"Não é bom precisar abrir os olhos antes da hora, estar à frente do relógio. Até hoje não suporto crianças prodígio, tenho muita pena desses gênios à frente do seu tempo. acho que a precocidade adoece, não há ninguém que se adiante ao tempo e não sofra com isso."
"Para nós naquela época, Hyldon, Tim Maia e Cassiano eram a santíssima trindade."
"Qualquer treinamento para a violência começa na violência que nos foi inflingida."
“seu ernesto dizia para a minha irmã que quem volta nunca mais será a mesma pessoa que foi. eu acho que, além disso, essa pessoa também vai encontrar, na volta, um lugar e pessoas que não são mais aquelas de quando ele partiu.”
são histórias contadas a partir de fragmentos, que tem suas camadas desvendadas ao longo do livro, na visão de cada personagem envolvido. gostei muito da construção do livro e a escrita é fluída; importantíssimo para entender tantos aspectos que não são tão aparentes quando se fala nas possibilidades de ascensão social ou discutidos quando se fala de racismo. esse desencaixe, esse não pertencimento a lugar nenhum. poderia ter aprofundado um pouco mais cada personagem e suas conexões, para que o texto abraçasse melhor quando havia alguma explicação mais elaborada de algo; como os capítulos eram curtos, esses pedaços ficavam um pouco deslocados. mas entendo a escolha da autora, que procurou o meio, o meridiano.
“e não é que a gente tenha que ficar preso nesse passado de onde viemos, mas é importante que não nos esqueçamos dele, exatamente para que tenhamos a liberdade de caminhar e encontrar outras casas”
- e de bônus uma citação que como imigrante eu mesma, me tocou diretamente, “ter me tornado imigrante me fez olhar para a minha casa de maneira diferente e me fez menos duro, menos dono da verdade, menos julgador. à medida que eu ia criando novas relações, via que esse negócio de construir outras referências não é tão fácil. no fim, eu estava tentando atender a alguma expectativa que não era minha, e me perdia de mim.”
li em uma sentada tanto pelo tema quanto pela escrita que é extremamente fluida. confesso que me tocou muito mais do que esperava e me fez pensar muito em assuntos (e pessoas rs) que as vezes eu tento evitar pensar, mas é isso aí. talvez um dos meus favoritos do ano logo de cara.
Gostei muito desse livro. Acho que é uma leitura importante para quem é branco compreender um pouco do que significa ser negro no Brasil. Mesmo tendo ascendido financeiramente, a família Pena continuou sendo rejeitada em cada um dos novos espaços a que tinham acesso. Foi interessante também observar como os personagens lidavam com o racismo de forma diferente conforme as gerações. Apesar das variações, o problema essencial que é o racismo, porém, continuou presente da mesma forma. Por fim, gostei de como a história é contada a partir do ponto de vista de cada um dos personagens. O Augusto é um personagem que eu detestava e jamais leria um livro escrito por um dos muitos Augustos que temos por aí, mas valeu a pena conhecer o ponto de vista dele. Infelizmente ele começa a entender o lugar dele no mundo muito depois que os irmãos e de uma forma muito cruel. Enfim, uma leitura muito fluida e importante!
Eliana Alves Cruz tem um dom raro: o de fazer o leitor sentir dores que não lhe pertencem. Foi exatamente essa sensação que me acompanhou durante a leitura de Meridiana.
Trata-se de uma narrativa breve, concisa, sem qualquer excesso, que demonstra como um universo inteiro pode ser construído com poucas palavras. A história nos apresenta à família Pena, que busca uma forma de ascensão social em um mundo onde a cor da pele ainda funciona como um marcador silencioso, mas determinante, de posição hierárquica.
Um dos grandes acertos da autora está na escolha de narrar a história a partir da perspectiva dos cinco membros da família. Cada voz revela sonhos, frustrações e desafios próprios, enquanto acompanham a tentativa de deixar a favela para viver em um condomínio no centro da cidade. Nesse percurso surgem não apenas as tensões da desigualdade racial, mas também, para alguns personagens, conflitos ligados à orientação sexual e ao sentimento de deslocamento.
A leitura foi poderosa justamente porque me provocou desconforto em diversos momentos, e também um certo sentimento de culpa. Sendo branco, sei que jamais experimentarei na pele as dores cotidianas impostas pelo racismo. Ainda assim, Eliana consegue traduzir, mesmo que de forma apenas aproximada, essas experiências em palavras que tocam e inquietam. Há na obra um tom quase de conscientização, mas que também exige do leitor uma disposição sensível para que seja plenamente apreciada.
Meridiana e César foram, para mim, os eixos emocionais da narrativa. Talvez porque ambos lidem de forma mais evidente com a solidão, com as questões da sexualidade e com a sensação persistente de não pertencer completamente ao lugar onde estão.
É um livro belo e breve, mas com uma intensidade que faz parecer que convivemos com aquela família por muito mais tempo do que as páginas sugerem. Quando a história termina, fica uma espécie de silêncio, como se aquelas vidas continuassem existindo em algum lugar fora do livro, ainda tentando encontrar seu espaço, ainda carregando suas ausências.
Terminei a leitura com a sensação de que algumas histórias não acabam de verdade. Elas apenas se afastam de nós devagar, deixando para trás um rastro de inquietação e uma pergunta que permanece. Talvez seja exatamente aí que reside a força de Eliana Alves Cruz.
"engraçado que fui morar no estrangeiro, me casei com um estrangeiro, falava com fluência um idioma estrangeiro, me formei, fiz laços profissionais e de amizade em ambientes e instituições distantes, para voltar e ser confundido com meu próprio pai na antiga Favela do Matadouro. a gente não consegue mesmo fugir do que é."
dar 2,5/5 me corta o coração, pq amo a escrita da eliana e gosto muito de como ela aborda certas questões em seus livros, mas sei lá, algo nesse livro me incomodou. percebi os pensamentos diferentes dos personagens, mas a voz que guiava a narração de cada um deles nos capítulos me soava muito parecido; tbm acho que o capítulo da meridiana deveria ser o mais potente, e estava gostando do paralelo entre ela e a nandi, pelo fato de que mais de quarenta anos separam elas e nada mudou, a nandi ainda sofre as mesmas coisas que a meri sofreu, mas aquela carta que tomou o final inteiro, só repetindo tudo o que já lemos nas mais de cem páginas anteriores, me irritou; e tbm o epílogo, trazendo uma personagem nova com quem a meri brincava... tipo, ela poderia ter sido introduzida antes, talvez teria tido um impacto maior esse reencontro. entendo que a autora, provavelmente, quis trazer uma visão daqueles que ficam e daqueles que vão, mas não senti isso, foi bem jogado, além de que ela poderia ter colocado essa perspectiva dentro da história da aurora e da zuleica. mas enfim, de qualquer forma sempre vou recomendar eliana alves cruz!
meridiana variante de JESUS CRISTO sofreu mais que ele. sei que todo o ponto do livro é começar logo no primeiro apagamento da meridiana e seguir com tudo girando ao redor dela mas sem ela ser o centro (meridiana dã) porque ela é sustentação de tudo MAS não consigo não sentir falta de conhecer mais minha diva gente 💔💔 ela entrega a vida inteira cuidando e cuidando enquanto o Augusto, por exemplo, é o classico Reconhece as violências que ele sofre enquanto homem negro... mas as mulheres negras?? safoda elas™ many such cases. a ambição, a possibilidade de viver desde cedo a sexualidades, ser cuidada, ser egoísta, nada disso permitido aos outros personagens é pemitido a ela. tudo que sabemos da meridiana é que ela muito se dói por tudo e muito cuida, e todo mundo se apoia nela. mas não porque ela não tem personalidade, é porque ela não pode se dar lugar. quando lemos na perspectiva dela, a gente vê que ela tem tanta raiva quanto tem cuidado. isso é lindo, é uma brecha pra dentro dela. tenho muito carinho por histórias de amor que não são românticas e isso da meridiana se reconhecer na sobrinha é tão bonito. se ela fosse mãe (tadinha, hadn't meridiana suffered enough) talvez fosse menos, seria outra vez a projeção dos desejos de alguém que alcançasse pra você a humanidade e boa vida que não teve (projeção de seu ernesto e dona aurora e o apagamento total de augusto e priscila....), mas elas se reconhecem na solidão. a escrita como saída dessa solidão... lindo.
A última página me quebrou de vez. "Eu tinha ido atrás de uma interrupção da minha infância, achei um futuro muito adiante de mim". É fácil voltar quando você precisa do que ficou pra trás pra prosseguir, então vamos lá saber quais as novas o futuro tem para me contar!!!
Terminei de ler Meridiana e, sério, o livro me pegou. Denso, bonito e cheio de reflexões. Algumas partes até puxaram memória da infância: aquelas “brincadeirinhas” na escola que todo mundo fingia que eram só zoeira, mas carregavam um racismo pesado. E a escola? Silenciava. Fingiam que nada estava acontecendo.
A história da sobrinha da Meridiana então… dolorosa. O que ela passou, o que a própria Meridiana viveu, e todo o peso que a família carregava tentando “proteger” — mas, no fim, só ensinando a se encolher. A se esconder pra caber no que esperavam delas.
É um livro que deixa marcas. Daqueles que cutucam pontos que a gente achou que tinha esquecido.
Meridiana é um romance de identidade, pertencimento e sobre o que se perde no caminho quando se atravessam fronteiras sociais. A ascensão de uma família negra à classe média traz o peso das expectativas, os silêncios familiares e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Um livro sensível, necessário e cheio de nuances muito bem escrito e construído a partir das vozes dos vários personagens.
A travessia no chão da vida é cheia de atravessamentos e haverá um tempo, um lugar e pessoa para os quais precisamos retornar para seguir adiante. Os Porto Pena são tantos de nós e são nós mesmos em cada família brasileira que avança impulsionadas pelos estudos, pelo concurso, pelo trabalho. Em Meridiana, Eliana Alves Cruz não só descreve que nossos passos vem de longe, e que mesmo realizando os sonhos não vividos de nossos antepassados, as alegrias e as dores de cada pisada na mesma travessia pode ser diversa para cada geração.
gostei bastante, principalmente pela mudança rapida das vozes que narram e deixam a história ainda mais interessante. amei muito Solitária e esse não seria diferente - a leitura é muito fluida e a autora aborda temas tão importantes de uma maneira extremamente crua; é um retrato fiel da realidade de muitos brasileiros, além de um convite a desafiar a branquitude
Cada parte da história é contata por um personagem diferente, como a história se entrelaça e as cenas vão se complementando é lindo. Uma leitura deliciosa.
Primeiro livro que li da Eliana e já vou buscar outros. Livro maravilhoso, ótima cadência e com passagens emblemáticas sobre mobilidade social, racismo e envelhecimento. Recomendo muito.
Narrativa envolvente e tocante, com o ponto de vista de diversos personagens, sobre como família negra e periférica chega a classe média e quebra barreiras de uma sociedade preconceituosa e elitista. E as marcas que a vida deixa nessas pessoas, que sao muitas.
acho que a história é muito importante e aborda muitos tópicos relevantes e críticos, mas achei a escrita um pouco maçante, senti que todos os personagens poderiam ter sido mais aprofundados, no final terminei achando que a história poderia ter sido muito mais aproveitada.
★★★★½ Meridiana, da Eliane Alves Cruz, abriu meu ano literário com uma força silenciosa, dessas que vão se entranhando na pele sem pressa, mas com absoluta precisão. É um romance que pulsa memória, afeto e pertencimento — e que me envolveu desde as primeiras páginas com uma escrita que parece respirar junto da gente. Eliane tem um talento raro para transformar lembranças em matéria viva. Logo no início, quando a narradora diz que “nunca conheci a miséria no estômago, mas ela sempre me foi íntima”, eu já sabia que estava diante de uma autora que entende profundamente o peso das heranças emocionais. Essa presença fantasmática da pobreza, convocada pelo pai como uma forma de manter os pés da família no chão, é uma das imagens mais bonitas e dolorosas do livro. A narrativa é atravessada por silêncios — silêncios que ferem, que protegem, que dizem mais do que qualquer diálogo. “Desde uma discussão que tivemos na casa antiga, nos comunicávamos por silêncios” é uma frase que me acompanhou por toda a leitura, porque sintetiza perfeitamente a delicadeza com que Eliane retrata as fissuras familiares. E há também a Matadouro, esse lugar que funciona como raiz, porto e fantasma. Nos momentos de inquietação, a narradora se volta para lá, como quem busca no passado uma bússola para o presente. Essa relação com o território é construída com uma sensibilidade que me tocou profundamente. Mas talvez o trecho que mais me emocionou tenha sido aquele em que ela diz que gostava de posar com um livro no colo só para sentir o olhar carinhoso da mãe. A leitura como gesto de amor, como forma de ser visto, como afeto. É impossível não se reconhecer ali. Meridiana é um romance afetivo, luminoso, escrito com uma elegância que nunca se impõe — ela apenas acontece. Eliane Alves Cruz entrega uma história que honra memórias, corpos e trajetórias, sem nunca perder a ternura. Começar o ano com esse livro foi um presente. Quatro estrelas e meia, com o coração cheio.
“Pai, é mais fácil ir ou voltar?” “Depende. É fácil voltar quando você precisa muito do que ficou para trás.”
♥️
Uma saga familiar intensa e profundamente humana, que fala sobre a ascensão social negra no Brasil, não se detendo na ideia de conquista, mas no preço invisível que essa ascensão cobra a quem a vive.
É uma história sobre o que se deixa para trás para ser aceite.
Sobre as concessões silenciosas, as adaptações constantes e a forma como essa perda se infiltra no corpo, na família e na maneira como cada um aprende a olhar para si próprio.
Meridiana escreve sobre o que se ganha, sim, mas sobretudo sobre o que se perde pelo caminho, mostrando como o passado e a raça moldam a arquitectura íntima das nossas vidas, mesmo quando acreditamos estar a avançar.
“O lugar em que moramos a vida inteira, aquele onde nossos pés cumprem os roteiros sem pensar, é estranho quando está vazio.”
“Nunca conheci a miséria no estômago, mas ela sempre me foi íntima.”
“Mamãe trazia cicatrizes de uma guerra travada desde muito cedo para conseguir ser alguém diferente do que ela era, e não porque o modelo perseguido fosse superior, mas por ser diverso da imagem que a repelia: a de si própria.”
“Se tem uma residência da qual a gente conhece cada cômodo, é essa chamada solidão.”
“Um meridiano que liga os polos, mas que não liga para si.”
“Daí que o problema não é ter as coisas. É as coisas terem a gente, sacou?”
“Então, comecei a pensar que eu precisava ir para onde as coisas nasciam e não ficar onde tudo morria.”
“Competência, inteligência, carisma, qualquer virtude era insuficiente se não jogássemos para baixo o que em nós teve a audácia de nascer e crescer para cima.”
“O que mais machucava era ver também em minha mãe as marcas fundas do ódio por si mesma.”
“O cabelo é a moldura da mulher. Tudo em você muda se o cabelo está arrumado.”
“A gente não precisava ser melhor do que ela; a gente precisava ser três vezes melhor do que ela!”
“Quando são menores [racismo] é coisa de criança. Quando são jovens, estão repetindo o que aprendem em casa. Quando são adultos, ou estão reproduzindo a estrutura, ou têm questões psiquiátricas. E quando são velhos estão senis. É esse o ciclo das desculpas irresponsáveis pelo crime.”
A ascensão de uma família negra que sai da favela para um bairro chique após o pai passar no concurso do Banco do Brasil é o cenário de Meridiana, novo livro da autora brasileira Eliana Alves Cruz, lançado recentemente pela Companhia das Letras. No livro, cada personagem narra no seu ponto de vista como foi cruzar essa fronteira social, começando lá nos anos 80 até os dias atuais, pois é uma fronteira que parece se esticar infinitamente, e a travessia nunca consegue ser 100% feita, sempre tem algo que puxa pra trás, ou mais ainda, algo que impede o avanço.
O livro mostra os racismos no Brasil, desde o racismo estrutural, as micro agressões diárias, os olhares de não-pertencimento, a luta constante pela aceitação num ambiente predominantemente branco, os rótulos, a autoconsciência e a auto aceitação até o mais escancarado: os xingamentos, o bullying, a depreciação, a violência, o linchamento. Cada pessoa da família passa por uma Odisseia própria, mas todos sem exceção precisam lutar muito para permanecer num lugar que os quer longe, sempre longe.
É uma leitura bonita, que prende a gente e obviamente faz refletir sobre a nossa sociedade. Gosto muito do paralelo entre Meridiana e a sobrinha Nandi, ambas foram garotas negras num colégio predominantemente branco, mas com Nandi a luta seria feita de outra forma e traria outras respostas: “Eu tinha uma infinidade de lacunas na minha trajetória que fui largando pelo percurso porque, afinal, era preciso avançar. Os fatos podem até se repetir, mas não precisam gerar as mesmas consequências.”
Meridiana foi um livro que me pegou muito de surpresa, ainda que eu esperasse muito dele pelos comentários. Li o livro pelo Clube Impressões de Maria, e as discussões definitivamente aumentaram muito meu interesse da leitura. A narrativa em si é muito interessante e é centrada em todo um núcleo familiar, o que nos dá acesso a diversos pontos de vistas diferentes e com personalidades muito diversas, que enxergam um mesmo contexto social de várias formas e se aproxima muito da complexidade da realidade. E a narrativa centrada na ascenção social de uma família periférica é muito bem feita e me causou uma enorme identificação por ver elementos trazidos nessa história em minha própria família e na minha criação. A autora conseguiu trazer discussões sobre gênero, raça, classe e sexualidade de um modo muito bem feito, expondo diversos problemas e conflitos em poucas páginas, o que é um trabalho e tanto, e para mim foi muito surpreendente. A própria Meridiana para mim foi uma grande surpresa, uma vez que a escolha de narração da história subverte um pouco o título, mas é possível ver a sua importância central e o seu papel de fundamentação de toda essa família, ainda que ela narre apenas um capítulo, já muito a frente do momento histórico que o livro começa. É uma excelente história para se pensar o Brasil e as suas contradições de classe, gênero e raça, além de nos fazer lembrar da complexidade social que nos forma em poucas páginas com uma escrita muito fluida e de um modo que vai ser incômodo, mesmo que não seja explícito nos motivos.