O elevador caiu. Os corpos ainda não arrefeceram, mas a família desfaz-se. O luto não é só perda - é também libertação, é fuga, é abandono. E, para uma criança, pode ser o fim decisivo da inocência.
Quinze anos depois, é nos fragmentos difusos de uma infância marcada pelo medo que o narrador, agora adulto, tenta dar forma ao seu trauma e compreender quem se tornou. Nesta dolorosa narração, há lapsos, imagens que se repetem, detalhes que só mais tarde ganham significado. Nenhuma pedra fica por virar: o abuso, tão difícil de nomear; a violência, por vezes física, quase sempre emocional; e o abandono, sempre o maldito abandono, vindo de quem nunca deveria ter ousado pensar em partir.
«Olho essa violência de frente, defino-a em rigor, nomeio-a, dou-lhe a minha voz para que ninguém faça dela a sua fala. Feito em pedaços de pedra, é a mim que a minha dor pertence.»
Uma nova voz na literatura portuguesa - urgente, inconfundível. Álvaro Curia está de regresso com um romance em que a escrita é ferida, denúncia e salvação.
Um romance visceral, escrito com sensibilidade e poesia, em que a infância e o trauma gravitam em torno do silêncio e da negligência familiar, da dissolução do lar e do abandono físico e emocional.
Neste romance não há dramatismos gratuitos, há observações precisas; encontramos uma reflexão sobre quem nos tornamos diante do que nos foi tirado, sobre identidade moldada pelos traumas de infância, e sobre a difícil tarefa de dar voz ao que antes parecia irreversível. De crescermos. É uma literatura de coragem e cura, em simultâneo.
«Depois de um Filhos da Chuva com um pé no realismo mágico, gostei muito, muito, muito de ler o Álvaro neste registo mais humano e cru — acho que a prosa dele brilha especialmente assim, quando fala do mais sombrio que existe dentro do ser humano. Acredito que tenha sido um livro especialmente difícil de escrever, pela imersão nestes temas pesados, e acho que é uma narrativa que exige ser lida assim, com calma, respeito e tempo para deixar tudo assentar.»
Um belíssimo livro que comove pela delicadeza, pela forma bonita como entrega temas tão duros e cruéis. Não há nada postiço, nada gratuito, e a prosa, tão poética e visual, toca-nos profundamente. Uma confirmação, sem dúvida.
(PT) Aos 25 anos, o narrador recua 15 anos no tempo para recordar das memórias dolorosas da infância, como a morte dos seus avós. E esse nem era a memória mais dolorosa: de uma certa forma, esse foi um tempo de dor, sofrimento e morte, com duas excepções: o cão, "Oliver", e a namorada do pai, Capitu, a única que o aceitou como era e o encheu de amor.
"No Brasil não há leões" é um livro bem forte. A principio, achei difícil, não tanto na narrativa, mas mais pensar como uma personagem como estas, que ao saber que era diferente, conseguiria aguentar o assédio de tudo e todos, numa altura em que a família se desfazia, metafórica e fisicamente, em que parentes o queriam abusar, que os colegas não se importariam de ver morto, porque pura e simplesmente não aceitavam a diferença.
Depois de conseguir entrar na narrativa, fiquei com a ideia de que isto tem alguns resquícios de Valter Hugo Mãe, pois recordei, ao percorrer aquelas páginas, de livros como "O Remorso de Baltazar Serapião" e também "O Filho de Mil Homens". De uma certa maneira, consegue ser excelente, mas a paisagem literária é devastadora. Talvez por isso seja genial.
Li este tempo já há algum tempo, praticamente numa sentada só, numa longa viagem. Com a correria do trabalho e outras atividades, a review demorou para vir. Talvez estivesse relacionado a outro desbloqueio que deveria fazer, que era a leitura do livro "O filho de mil homens", do Valter Hugo Mãe. A epígrafe do "No Brasil não há leões" é tirada do livro do Valter.
A história começa com a morte trágica dos avós do Luís, após a queda de um elevador (coincidentemente, o livro foi lançado pouco tempo antes do trágico acidente do elevador da Glória em Lisboa). Com a morte dos avós, algumas relações que eram mantidas por aparência na família do Luís acabam por deixar de fazer sentido. Os pais podem finalmente se divorciar. O Luís não precisa mais conviver com o tio inconveniente. O pai do Luís pode finalmente viver uma nova vida...
Com o aparecimento de Capitu, os dias do Luís são mais felizes. Capitu é a namorada do seu pai e, assim como a personagem de Dom Casmurro de Machado de Assis, é brasileira. Capitu e Luís divertem-se muito sozinhos no apartamento do seu pai, enquanto ele trabalha. A vida de ambos é mais leve quando eles convivem juntos.
"Tenho vinte e cinco anos de memórias desarrumadas ao canto da moldura, do lado de fora, não as encurralei no vidro. Não me familiarizei com a dor, mas percebo onde está, toco-a, contudo exclamo-a. Observa-me a um canto do quarto e respira com inspirações longas, despejadas depois em suspiros expectantes. Acompanha-me, transformando-se por vezes em raiva, noutras em desvario, tantas vezes numa ânsia absoluta que me domina os passos, que não me deixa abrir portas ou arriscar presenças... ...Eu sou a minha mágoa na mesma medida em que sou o meu medo."
Luís, o nosso narrador, tem 25 anos e teve uma infância marcada pela dor. Aos 10 anos entra numa nova escola e é automaticamente o alvo de agressões fisicas por parte dos colegas enquanto os professores e auxiliares fecham os olhos e dizem: "são coisas de crianças ". Em casa os pais estão mais preocupados em manter um casamento de fachada do que prestar atenção ao filho, para a mãe Luís é como se fosse invisível. Para os avós ele é um embaraço, a avó, uma mulher desprezível, detesta o neto porque, segundo ela: "este rapaz não está a crescer normal, tem defeito." Para o execrável do tio é objecto de cobiça. Luís encontra no seu cão, Oliver, o único suporte emocional que tem, uma amizade pura e verdadeira. No Brasil Não há Leões é a narração de todos os abusos físicos e psicológicos que Luís sofreu na sua infância, abusos estes que acabaram no dia em que os avós morreram esmagados na queda do elevador do prédio onde viviam. Através da memória traumatizada e fragmentada de Luís vamos conhecer de forma crua e visceral o horror que muitos "Luises" sofrem em consequência da negligência, falta de empatia ou preconceito de quem os devia proteger. Com a sua escrita cuidada, sensível e arrebatadora, Álvaro Curia traz-nos um livro que nos incomoda, dilacera o coração e nos que mostra que entre os humanos e os animais existe um vínculo curativo que pode levar à salvação.
"Mas não estranho o miúdo que fui, nem o que fiz. Não tenho contas a acertar com ele. Pelo menos, não o estranho mais do que estranho o homem sombra que me tornei."
«eu enquanto medo e ameaça, permanente criança a quem não contam tudo e que vive em pânico numa cratera aberta.»
não interpretem os meses que separam o início da leitura do seu fim como desinteresse ou desgosto. gostei muito deste livro e da sua singular história, mas a vida de jovem adulta não me tem permitido ler tanto quanto gostaria e, para além disso, os tópicos abordados neste livro são pesados e difíceis de digerir, o que explica o tempo que demorei a acabar. um retrato cru e duro de uma infância difícil que acaba por deixar marcas para o resto da vida. um livro extremamente necessário atualmente.
«hoje, sei que a caça se escondeu por trás do arbusto. no amontoado de destroços bordados a linha de prata que era a minha família, o meu tio era o único que me via. só viria a conhecer mais tarde a crueldade com que estrangulava a criança ao seu lado.»
«a superação daquele tempo não acontecerá nunca sem que o disseque. porque me empurravam, os meus colegas, por um túnel de pânico contaste, que me afligiu o tempo todo em que estava acordado? onde estava a justiça das horas quando me humilhavam, com a anuência de adultos encarregados de me proteger? e ele? porque não interpretei como violência, à luz do que vivi, aquilo que o meu tio me fez passar? mas, sobretudo, porque não gritei? foram questões postas à prova anos mais tarde, terra empedernida na frincha, quase impossível de arrancar.»
Admiro o Álvaro como leitor e recentemente como escritor, desde que li Filhos da Chuva. O seu último romance não era uma escolha óbvia para mim porque a sinopse revela de que trata. E basta imaginar que, vou passar por essa revolta e angústia para optar por não o ler. Contudo, li, e passei por tudo isso, na firme escrita de Álvaro profundamente sentida. Um romance que me fez reter o fôlego e tremer para parar amiúde nos capítulos curtos por exacerbar o que conseguia tolerar. O preconceito, o abandono, o trauma, a ignomínia, a crueldade ignorada, por quem devia cuidar e proteger e o amparo e carinho de um cão. A salvação que apenas quem ama animais compreende. Nesta narrativa falta-me sempre justiça. Nesta como noutras a tristeza adensa-se e pesa pela irreversibilidade. Por tudo isto, desejo que este livro seja um sucesso e que a literatura nos salve.
Sabemos que estamos perante um grande escritor quando, à medida que vamos lendo o livro, vamos sentindo o nosso coração a acelerar e a desacelerar num batimento cardíaco, ora contínuo ora descontínuo. Temos medo do que vai acontecer e, quando pensamos que podemos relaxar, "pumba", voltamos a um estado de ansiedade crescente. Nunca precisei de fazer tantas paragens numa leitura para recuperar o fôlego. Sou continuamente lançada para um carrocel de emoções que ameaça transpor uma fronteira segura e cair num poço sem fundo. Só tenho vontade de abraçar o menino, que tão bem ilustrado está na capa pelo Rafael Mesquita.
Leitura obrigatória. O Álvaro escreve uma história muito bonita, rica em eventos que marcam a vida do protagonista, mas sem nunca cair em maniqueísmos ou escapes fáceis.
Um livro com temas tão pesados, como o abuso infantil e a negligência parental, escrito de uma forma tão bonita e sensível.
A história acompanha uma família e, sobretudo, as marcas que ficam quando crescemos rodeados de silêncios, ausências e coisas que nunca deveriam acontecer a uma criança. E é precisamente aí que o livro me tocou: na forma como fala de temas tão dolorosos sem nunca perder a delicadeza.
Não é uma leitura fácil. Há momentos que custam, personagens que nos despertam sentimentos difíceis e situações que nos deixam a pensar no peso que certas experiências podem ter na vida de alguém.
Mas a escrita é tão bonita, tão humana e tão sensível, que mesmo nos momentos mais duros senti vontade de continuar.
É um daqueles livros que não precisam de grandes dramatismos para nos doer. Vão entrando devagarinho e, quando damos por isso, já estamos emocionalmente envolvidos.
E talvez tenha sido isso que mais me ficou: a ideia de que há feridas que começam muito cedo e que nem sempre conseguimos ver por fora.
No Brasil não há leões é um daqueles romances que nos deixa sem fôlego. Escrito com uma sensibilidade rara e num tom quase poético, a narrativa mergulha na infância e adolescência de um protagonista marcado pelo trauma, pelo silêncio e pela negligência familiar. É a história de uma criança diferente, que cresce com a dor do abandono e da discriminação e a carrega consigo até à vida adulta. Não é, de todo, um livro leve, mas é impossível largá-lo.
O final pode ser interpretado de várias formas e apanha-nos desprevenidos, mesmo que, no fundo, já estivesse a ser anunciado. É um desfecho que deixa perguntas e aquela vontade de voltar atrás nas páginas, à procura dos sinais que deixámos passar.
A escrita de Álvaro é firme, sentida e cheia de camadas, conduzindo-nos por uma leitura intensa e profundamente comovente. Numa palavra: inesquecível!
Tão bem escrito, tão bonito, e tão triste. A dor de uma criança diferente, e o que ela sofre por ser diferente. A violência, o abuso, o abandono. O preconceito, a crueldade, a perversão. Há tantas camadas neste livro… camadas e camadas de alguém que cresce como erva daninha. Podem mudar este menino de lugar mil vezes, que ele levará sempre consigo a dor de ser quem é, a dor do desamor de que é composta a sua história. Ele, cujo nome só sabemos quando, pela primeira vez, chega a alguém à sua vida que o vê como ele é, e que o ama como ele é, com o seu “defeito”, torna-se homem a somar perdas. Nem eu podia imaginar que até a sua tábua de salvação era, afinal, mais uma das suas ruínas. Parabéns, @alvarocuria @literacidadesb
É um livro curto, mas intenso. Acompanhar o protagonista que só sabemos o nome já avançado no livro é uma montanha de sentimentos: ora pena, ora culpa pela sociedade, ora alegria e no fim… um sentimento de confusão por essa(S) crianças (S) que um dia secalhar fomos nós. A escrita começa confusa mas depois encarrilha. É um excelente livro, com uma excelente transparência de sentimentos do nosso protagonista. Obrigado
Que belíssima descoberta! Este é um livro muito duro, com uma história pesada mas ao mesmo tempo, cheia de delicadeza e profundidade. Dei por mim, em vários momentos do livro, a querer abraçar o Luis e dizer-lhe: "vai ficar tudo bem". Se a ficção imita a vida, foi com o coração apertado que fui percorrendo as páginas deste livro, tão bem escrito e tão envolvente! Quase impossível não sentir empatia por este menino, pelo seu cão e pelo pai. Todos os outros personagens da família despertam, precisamente o inverso... É sem dúvida, um livro que vale a pena ler.
A confirmação de um autor por quem tenho vindo a ganhar muito carinho, respeito e admiração! Uma história que marca profundamente pela tristeza e gravidade, mas contada de forma tão poética e sensível, que me encantou do início ao fim! ♥️🦁🇧🇷
Acho que nunca me vou cansar do estilo de escrita do Álvaro. Se o livro não fosse da minha irmã e ela não gostasse deles imaculados, teria certamente sublinhado várias frases e, por vezes, parágrafos inteiros. Lindíssimo.
Este livro deu-me um murro no estômago várias vezes, talvez por me fazer lembrar de coisas da minha própria vida, de um tempo que já ficou para trás. Houve momentos em que tive mesmo de pousar o livro e parar para pensar no que estava a ler. Enquanto lia, sentia-me dividido entre querer saber mais e aquela sensação amarga que algumas memórias trazem.
As minhas memórias também não são muito certas e, tal como o narrador, há coisas que não entendo bem… mas que fazem parte de quem eu sou hoje.
No fim, fiquei grato por este livro me ter feito pensar. Senti que fiquei um bocadinho mais perto de domar os leões que assombraram a criança que eu fui.
"No Brasil Não Há Leões", de Álvaro Curia, é uma obra que se entranha profundamente, com uma beleza silenciosa e uma dor que ecoa muito depois da última página.
Este é um romance sobre o trauma, o abandono e o preconceito, mas também sobre a possibilidade de salvação através do amor — e, neste caso, o amor de um cão. Um amor puro, sem julgamentos, que oferece o consolo e o abrigo que muitas vezes faltam entre os humanos.
A história acompanha uma criança “diferente”, vítima de rejeição, que carrega as feridas da infância até à vida adulta. Álvaro Curia conduz-nos por este percurso com uma escrita firme, poética e profundamente sensível, revelando a força de quem escreve a partir da empatia e da verdade emocional.
“O preconceito, o abandono, o trauma e a crueldade ignorada por quem devia cuidar — tudo isto está aqui. Mas também está o carinho, o amparo e a luz que apenas um animal pode oferecer a quem o mundo esqueceu.”
O final é um dos pontos altos da narrativa — ambíguo, inesperado, e aberto a várias interpretações. É daqueles desfechos que nos obrigam a voltar atrás, a reler certos trechos, à procura dos sinais que talvez tenhamos ignorado.
Apesar de abordar temas duros, No Brasil Não Há Leões não se rende ao dramatismo. O autor prefere o silêncio às lágrimas, a sugestão à explicação, e dessa contenção nasce a sua grande força literária.
É uma leitura que fala sobre o crescimento a partir da dor, sobre o poder das memórias e sobre o que acontece quando a vida nos obriga a reinventar o amor e o lar.
Um livro visceral e comovente, que nos faz olhar para dentro e repensar a forma como tratamos o outro — e os que não têm voz. Uma história sobre coragem, cura e humanidade.
Esta foi a minha estreia com a escrita do Álvaro. ‘Não há leões no Brasil’ falou-me mais perto do coração que ‘Filhos da Chuva’, mas agora que lhe reconheço o talento, quero definitivamente ler mais da sua obra.
A historia do Luís emocionou-me muito, levou-me a tempos que também para mim foram difíceis, como para qualquer criança que foi confrontada com a realidade de ser queer.
Fiquei só um pouco desapontado com o desaparecimento precoce da Capitu e com aquele acontecimento no final. Sinto que havia outras formas mais prazerosas, para o ponto de vista do leitor, de transmitir aquela mensagem.