Já conheceu uma Estela?
Estela sem Deus conta a história da Estela, uma jovem negra que sonha em ser filósofa. A narrativa poderia ser sobre os desafios comuns de uma estudante … mas a vida dela não é tão simples assim. Filha de uma empregada doméstica, Estela cresce ajudando a mãe nas faxinas dos casarões, convivendo de perto com desigualdades e traumas irreversíveis.
Com medo do futuro – que temia já estar escrito (drogas, gravidez precoce, prostituição) – a mãe decide mandar Estela e o irmão para o Rio de Janeiro. Porém a cidade nem tão maravilhosa tenta sufocar a sua espiritualidade, impondo outra fé a filha de Oxum.
O livro tenta abordar muita coisa ao mesmo tempo: racismo religioso, violência, machismo, pobreza, religiosidade, saúde da mulher, solidão … É tanta coisa que, para mim, ficou difícil me conectar com Estela. Talvez essa confusão tenha sido intencional, para mostrar como é a vida de quem carrega tanto nas costas. E, se foi, bom, funcionou – porque é cansativo.
Uma coisa que me incomodou foram as repetições de algumas expressões, como a “administração da tristeza”, que aparece várias vezes e acabou perdendo o impacto. Fora isso, acho que tiveram personagens em excesso, quase aleatórios, o que acabou me deixando confusa com a cronologia da história.
Agora, sobre a narrativa: dá para perceber o esforço do autor em escrever do ponto de vista de uma mulher, e eu admiro isso. Ele tem muita sensibilidade para tratar desses temas, mas não tem jeito, o olhar de um homem nunca vai ser exatamente o mesmo de uma mulher. Isso não desmerece o trabalho, mas, para mim, ficou essa sensação de que faltava alguma coisa.
No geral, Estela sem Deus é um livro muito triste, cheio de reflexões, marquei diversas passagens. Mesmo não sendo uma leitura que me pegou completamente, acho que é uma obra que vale a pena por tudo que traz à tona. Acho que o Avesso da Pele é uma leitura mais recomendada para quem quiser ter um primeiro contato com o autor!
@leiturasdagabrielle