Mostra lugares onde os mortos e os vivos se encontram; é uma viagem por cemitérios e igrejas, santuários e museus, locais públicos e semipúblicos que, no tempo do turismo insólito, nos permitem aproximar dos que partem e do seu cerimonial.
Algures entre o guia de viagens e o ensaio sobre a mortalidade, Portugal de Morte a Sul aborda a temática da morte de uma perspetiva ainda pouco explorada em Portugal. Procurando um diálogo com a morte nos espaços que ela domina - do cemitério ao museu de anatomia -, a obra oferece a oportunidade de explorarmos lugares associados à morte em Portugal, refletindo sobre a ideia de que, um dia, nós próprios passaremos para o lado de lá.
O roteiro inicia-se nos cemitérios e progride até aos museus: os espaços em que a morte está presente tanto simbolicamente, através de metáforas visuais e artísticas, como fisicamente, através da presença física do corpo sem vida, acomodado em caixões ou exposto em vitrinas. Cada espaço inspira uma reflexão e cada corpo protagoniza uma narrativa, convidando à contemplação da nossa própria mortalidade.
Os temas abordados no projeto têm sido alvo de estudo por parte de académicos portugueses, o que permite que o livro assente sobre uma base de conhecimento robusta. Apesar disso, é direcionado ao público em geral, inserindo-se numa tradição emergente de obras que abordam a morte de forma descomplicada e sem rodeios.
Tive de ir à Bertrand devolver um livro e, apesar de por estes dias andar sem vontade nenhuma de ler, fui folheando alguns livros enquanto a livreira tratava do meu assunto. Peguei neste Portugal de morte a sul , li um bocadinho de um capítulo e resolvi que o ia trazer comigo. Afinal, nada como um livro sobre a morte para nos fazer viver na vida.
Haverá, para nós, benefícios em olhar para corpos humanos? Acredito que sim. Talvez olhar nos ajude a aceitar a nossa mortalidade, a antecipar o futuro inevitável dos nossos corpos, ou simplesmente a saciar uma certa curiosidade mórbida que me parece, e sempre me pareceu, absolutamente natural.
Este livro fala-nos da morte através das formas que os humanos escolheram de mostrar/guardar os corpos dos mortos, em Portugal. No início, nos adros das igrejas, com a proibição deste tipo de sepultamento, em cemitérios. Em capelas com caixões à mostra ou em sepulturas na terra. Para muitos, o corpo acaba aqui. Mas há outros que têm destino diferente, como os ossos da célebre Capela dos Ossos, em Évora, que lembram que nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.
Há também os corpos incorruptos, que não tiveram direito à decomposição normal, e alguns acabaram "santificados", como o de Maria Adelaide, e que só foram descobertos porque o terreno que ocupavam nos cemitérios era necessário para os mortos seguintes.
Por fim, há os corpos da ciência, os que foram doados, em vida, para as faculdades de medicina estudarem, e os que, por serem conhecidos, como o Diogo Alves, o assassino do aqueduto, permanecem em museus de anatomia.
Foi uma viagem bastante interessante, pelos corpos sepultados, pelo corpo santo e pelo corpo classificado.
"O que resta de um cemitério do século XIX é o que foi construído com a intenção de perdurar. Não é a campa rasa nem a vala comum - essas têm prazo de validade -, mas sim a sepultura e o jazigo perpétuo, pensados para durar, erguidos por quem teve meios para comprar permanência no espaço e no tempo."
Um livro e uma escrita fabulosos. E um passeio por tantas memórias nostálgicas esquecidas. Este livro fez-me repensar o destino do nosso corpo e dos nossos ossos após a morte. Foi uma viagem magnífica!
Um livro absolutamente inéditoe importante no panorama português, que nos convida a pensar sobre a nossa interação com a Morte palpável - com os cadáveres expostos. Rafaela Ferraz divide a obra em diferentes capítulos: o teatro anatómico, o cemitério, a múmia preservada de um santo num altar - e, com grande sensibilidade, convida-nos a refletir sobre o impacto de cada uma destas pequenas proximidades a um tema tão tabu.
Tive a sorte de a internet me fazer cruzar com a Rafaela Ferraz e fiquei logo interessada em acompanhá-la e ao seu trabalho: a investigação e o estudo sobre práticas fúnebres e "coisas de cemitérios" em geral. Graças a ela, descobri a semana cultural dos cemitérios, já fui a visitas nocturnas e este ano fui vê-la em tertúlia com a Gisela Monteiro, outra "nerd" dos cemitérios que faz visitas guiadas INCRÍVEIS aos cemitérios de Lisboa. Ora, assim que a Rafaela anunciou que ia lançar um livro, era claro que o iria comprar. Este Portugal de Morte a Sul é uma viagem sobre as diferentes formas de conservação de cadáveres, que vão dos cemitérios aos museus, palmilhado por uma data de histórias e factos curiosos. Para mim, este tema é fascinante por misturar, ao mesmo tempo, cultura, arte, sociologia, antropologia e até mesmo o "inconsciente colectivo" de um povo, para os Jungianos de bancada. Sem querer fazer spoiler, achei particularmente interessante o capítulo sobre os corpos "incorruptos" e a construção do que é uma santidade, bem como as questões éticas inerentes à exibição de restos mortais em museus, tema abordado no último capítulo. A Rafaela tem uma escrita fluída, leve face ao tema, e igualmente humorística. Tem imensas passagens escritas com genuína graça, ou não fosse o humor a ferramenta humana de excelência para aliviar o peso da noção da mortalidade. Ao longo das páginas, sentimo-nos como se a estivéssemos a ouvir contar esta história, com todas as suas interligações e apartes, sem nunca perdermos o fio à meada. Um livro curioso, muito interessante, e fantástico como primeira abordagem a este tema tão fascinante.
Neste livro, a Morte é o tema central. Não a Morte no sentido "o que vem a seguir à Morte", mas sim a Morte e o que fica - o corpo, esvaziado de vida, mas que foi uma pessoa. A autora acompanha o leitor numa viagem pelos vários sítios em que os mortos perduram, não se esquecendo de referir as várias mãos invisíveis que tratam da curadoria dos mortos. Assim, aventuramo-nos por alguns dos cemitérios mais emblemáticos do país, com inúmeras curiosidades singulares sobre as campas, os jazigos, aqueles que os ergueram e aqueles que os habitam, referindo os ossários e visitando ainda as capelas dos ossos. Apesar desta ser a norma do percurso de um corpo morto, a verdade é que há desvios a esta norma. Assim, a nossa viagem continua. Passamos, então, por capelas e igrejas, em visita aos santos incorruptos e santos catacumbais, para, por fim, visitarmos os museus anatómicos e de história natural. Ao longo de toda esta viagem, a autora presenteia-nos narrativa é imersiva e a autora descreve os locais com tanta precisão que facilmente nos sentimos lá. os factos, as curiosidades e a minúcia desta obra são simplesmente deliciosos de absorver, mas a autora não se limita a expor e debitar informação. Faz-nos questionar. Sobre a nossa mortalidade. Sobre a forma como os corpos dos outros foram (e são) tratados. Sobre ética, moral, os nossos valores. Este livro é uma viagem e uma introspeção que todos devíamos fazer pelo menos uma vez em vida. Porque, em morte, a viagem será uma certeza mas a introspeção já não será nossa.
"Haverá, para nós, benefícios em olhar para corpos humanos? Acredito que sim. Talvez olhar nos ajude a aceitar a nossa mortalidade, a antecipar o futuro inevitável dos nossos corpos, ou simplesmente a saciar uma certa curiosidade mórbida que me parece, e sempre me pareceu, absolutamente natural."
Este livro desperta a curiosidade do que fica, do que somos e de como fugimos da morte que é algo tão natural como real. Mostra que um cemitério é muito mais do que apenas isso, é historia, é lugar, é museu, faz parte do nosso património. Aguça a curiosidade de conhecer o cemitério de Agramonte, ou as catacumbas da igreja de São Francisco, ou a Capela dos ossos em Évora. Fica a ideia também que o turismo sobre a morte, ou neste caso a visita a cemitérios é algo que está a crescer de forma natural pelo conteúdo cultural que jaz nestes lugares. Exumação, santos, corpos incorruptos são exemplos de conceitos que aprendi ao longo deste livro, que são temas algo mórbidos mas que são igualmente reais e uteis para o conhecimento da nossa origem e da nossa anatomia e fisiologia. A diferença que existia entre cirurgia e medicina também é de todo curioso, coisa que atualmente é apenas "medicina". Além de que a Imagiologia veio transformar a forma como examinamos o nosso corpo sem necessariamente ter de "ir à faca". O conceito de museu por si só é um lugar que as pessoas visitam mas este livro consegue analisar o porquê das exposições, o porquê dos museus, que conteúdo têm?, porque certos artigos são escolhidos. A ética da escolha das exposições entre tantos outros temas que nos fazem pensar a importância de um museu e as dificuldades que um diretor de um museu tem até apresentar aquilo que o publico vislumbra e muitas vezes não se questiona no porquê do que está a ver ou a assistir. E porquê de praticamente todos os museus terem uma múmia?.
Este livro é uma excelente reflexão sobre a história da exposição da morte, seja em cemitérios, capelas dos ossos, igrejas, museus de história natural ou laboratórios de anatomia. Conta a história de vários mortos, alguns com nome e apelido, contextualiza a época em que ali chegaram e o porquê, e fá-lo de uma forma muito bem escrita. Enquanto estamos encantados com todo o saber mórbido que vamos acumulando ao longo do livro, sem nos darmos conta das páginas a passar, a autora vai nos guiando na sua reflexão: a decisão de aqueles mortos estarem ali expostos foi tomada por vivos, assim como a decisão de estarem outros ali visitá-los. Até que pontos uns e outros refletiram sobre esta objetificação? “Quem tem o direito de falar pela pessoa na vitrine?”
É uma viagem guiada pelo território português e ao longo dos séculos, sobre a "vida" dos cadáveres. Interessaram-me muito os capítulos sobre cemitérios, corpos preservados, corpos incorruptos e relíquias. Os capítulos finais, onde se desenvolve a reflexão sobre se é ou não é ético expor vestígios de corpos humanos em museus, interessaram-me menos.
Este é seguramente um dos melhores livros que li este ano. Incorpora o macabro, a ética do corpo, a história da nossa relação com a morte visível, tudo melodiosamente orquestrado numa linguagem direta e evocativa. Há aqui muita informação para dissecar e fica apenas a inexistência de mais volumes da autora (que aguardarei pacientemente) como lamento de quem não se importaria se este livro tivesse o triplo da sua extensão. Recomendo vivamente, não somente a quem se interessa pela Morte: é leitura avisada para quem quer conhecer um Portugal à margem dos vivos.
Um livro de não ficção que, numa viagem de questionamento por esse país fora, nos conta as histórias de quem cá ficou, pelo menos de corpo, com uma fluidez e simplicidade que nos prende desde a primeira frase. De leitura incontornável (para além de rápida e acessível) para quem aprecia o tema da morte, mas sobretudo para quem lhe vira a cara.
Apesar do excesso de wokismo — como em todo movimento marcado por dogmatismo e falta de pensamento crítico — ainda é possível encontrar algumas curiosidades interessantes.
O que acontece ao corpo que fica? «Portugal de Morte a Sul» explora – e questiona – o tratamento que tem sido dado ao corpo após a morte, desde a organização e história dos cemitérios (incluindo carneiros, capelas dos ossos, santos de carne…), ao seu uso no estudo científico e na museologia, passando pelo contexto colonial. Trata-se de uma leitura fluida, muito bem estruturada, e que mantém o interesse do leitor – a autora como que nos guia numa viagem –, com uma narrativa que consegue dosear o académico com o «comum» e o humor com a reflexão. No fim, é com isso que ficamos: questionamentos. Um novo olhar sobre os corpos que nos rodeiam e o seu tratamento, atual e/ou histórico, e um questionamento que não se encontrava lá porque, simplesmente, nunca o tínhamos pensado. Respostas? Ficam a cargo de cada leitor. De bónus, ainda adquirimos um punhado de factos interessantes para partilhar.