Os Guardiões, de Gustavo Campos, inaugura uma série de cinco livros que apresenta ao leitor um universo de super-heróis com identidade genuinamente brasileira. Com um clima que remete aos X-Men, mas firmemente ancorado na realidade social do país, a narrativa acompanha oito amigos que descobrem possuir habilidades especiais e decidem usá-las em benefício da humanidade. O que começa como um ideal nobre rapidamente se revela um caminho complexo. Para atuarem como heróis, o grupo passa a ser financiado por um bilionário cuja ajuda levanta dilemas éticos profundos, colocando à prova os valores e a autonomia dos jovens. Paralelamente, eles se tornam alvos da polícia e de agências internacionais interessadas em estudá-los e reproduzir suas habilidades como tecnologia a serviço de outros países. Em meio a perseguições, segredos e pressões externas, os protagonistas ainda precisam lidar com a vida escolar, as relações pessoais e o peso das próprias escolhas. Gustavo Campos constrói uma trama que vai além da ação e dos poderes extraordinários. O autor aborda temas sensíveis e extremamente presentes na vivência do jovem brasileiro, como desigualdade social, o contraste entre pobre e rico, corrupção, tráfico de drogas, violência, ganância e abusos de poder. Os superpoderes, longe de serem apenas um recurso fantástico, tornam-se metáforas para discutir responsabilidade, amadurecimento e as consequências do uso — ou abuso — do poder. Os Guardiões é uma leitura envolvente, dinâmica e provocadora, que convida o leitor a refletir sobre o que realmente significa ser herói. Afinal, crescer é manter os ideais ou transformá-los para sobreviver? Uma obra que diverte, questiona e abre caminho para uma série promissora dentro da literatura infanto-juvenil nacional. ✨ Indicado para jovens leitores que buscam ação, representatividade e histórias que dialogam com a realidade — e também para adultos que apreciam narrativas de formação com profundidade social.
O livro já começa em um clima de tensão, sem que a gente saiba exatamente até onde aquilo vai chegar. Acompanhamos todo o processo de descoberta dos meninos em relação aos próprios poderes e habilidades. Algumas dessas habilidades são mais sutis do que outras, o que torna a aceitação e a compreensão do que é ser super-humano ainda mais complexa.
Ao longo da história, passamos pelo conflito de eles aceitarem quem são, tentarem entender o próprio lugar no mundo e como esses poderes funcionam. Há muitas cenas de ação, mas também momentos importantes de reflexão, especialmente quando eles começam a lutar por seus ideais e, aos poucos, a perceber que esses ideais vão se tornando mais frágeis. A moral passa a ser cada vez mais maleável, e isso vem diretamente acompanhado do poder. Quanto mais poder eles têm, mais flexível essa moral se torna, e esse é um ponto muito interessante do livro.
A narrativa segue em um ritmo rápido, o que em alguns momentos me fez voltar e reler certos trechos. Além da quantidade de personagens, algumas situações são apresentadas com certa pressa, o que pode atrapalhar um pouco a dinâmica da leitura.
Ainda assim, foi uma leitura agradável. O fechamento do último capítulo e o epílogo se complementam muito bem e deixam aquela sensação clara de “eu preciso ler o segundo livro agora”, porque fica evidente que uma grande revelação está prestes a acontecer e infelizmente ela não vem nesse volume.