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Rendição ou a Ascensão dos Idiotas
Rendição, A Ascensão dos Idiotas, de Pedro Gomes Sanches, em cinco capítulos, «o fim do homem livre», «a nova religião e seus cordeiros», «identidade como tirania», «a morte da cultura» e «o conflito final», explora, com ironia e erudição, temas como os excessos do Estado paternalista, os limites da liberdade de expressão e a imposição das políticas identitárias.
Como uma tragédia clássica em cinco actos, o autor traça o retrato de uma sociedade que, em nome da segurança, do bem-estar e da correcção política, se entrega voluntariamente ao controle estatal, à vigilância social e ao puritanismo ideológico.
Abordando temas como o apagamento cultural e a polarização extrema entre esquerdas e direitas reconfiguradas, este livro denuncia, com humor ácido, crítica implacável e referências filosóficas e políticas, a rendição entusiástica da liberdade perante a tirania dos «bons sentimentos» e da hipocrisia woke.
Como uma tragédia clássica em cinco actos, o autor traça o retrato de uma sociedade que, em nome da segurança, do bem-estar e da correcção política, se entrega voluntariamente ao controle estatal, à vigilância social e ao puritanismo ideológico.
Abordando temas como o apagamento cultural e a polarização extrema entre esquerdas e direitas reconfiguradas, este livro denuncia, com humor ácido, crítica implacável e referências filosóficas e políticas, a rendição entusiástica da liberdade perante a tirania dos «bons sentimentos» e da hipocrisia woke.
144 pages, Paperback
Published September 23, 2025
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June 14, 2026
Há livros que se apresentam como defesa da liberdade, mas que acabam por revelar sobretudo uma irritação permanente com o mundo contemporâneo. Este é um deles. O autor escreve como se estivesse cercado por idiotas, censores, ofendidos profissionais, burocratas e inimigos da liberdade. O problema é que quase nunca há pensamento suficiente para sustentar essa pose de lucidez.
Há passagens que me pareceram completamente alheadas da realidade material das pessoas. Quando se escreve que “A Propriedade erode-se, pela mão da poderosa autoridade fiscal, nos montantes que cobra, na omnipresença que impõe e na coerção que usa”, fica a sensação de que, perante a crise da habitação em Portugal, o grande drama identificado pelo autor é a autoridade fiscal. Num país onde tanta gente vive esmagada por rendas impossíveis, baixos salários, especulação imobiliária e dificuldade real em aceder a casa, esta obsessão soa quase obscena. A propriedade aparece como entidade martirizada, enquanto a vida concreta de quem não consegue sequer chegar a ela desaparece do enquadramento.
A mesma desproporção atravessa outros temas. A insistência na questão do tabaco durante a pandemia, com comparações absurdas entre comprar tabaco e tentar ouvir uma rádio moscovita em 1961, é um bom exemplo do tom geral do livro. Aquilo que poderia ser uma ironia passageira torna-se sintoma de uma visão do mundo em permanente estado de queixa. Tudo parece perseguição, tudo parece tirania, tudo parece decadência civilizacional.
A parte sobre o aborto segue a mesma lógica alucinada. O autor critica o facto de a mulher ter todo o poder de escolha, como se a autonomia sobre o próprio corpo fosse uma espécie de desequilíbrio jurídico insuportável. A questão é tratada com uma frieza abstrata, quase desligada da experiência concreta da gravidez, do risco, do medo, da vulnerabilidade e da desigualdade que recaem sobre as mulheres. Mais uma vez, a liberdade invocada pelo livro parece servir melhor quando protege uma ideia genérica de ordem do que quando se aproxima da vida real de quem decide.
No tema da eutanásia, a confusão torna-se ainda mais grave. Eu próprio tenho reservas quanto à sua legalização, por isso esperava algum rigor. O livro prefere o alarme. Ao tratar a relação entre eutanásia e suicídio assistido de forma simplista, e ao sugerir que daí resulta uma espécie de eugenia nas mãos do Estado, o argumento entra num território de exagero conceptual e político. Pode discordar-se da lei sem transformar a discussão numa fantasia de colapso moral absoluto.
Enquanto lia este livro, lembrei-me muitas vezes de Ofendidinhos, de Lucía Lijtmaer. Na minha crítica a esse livro, destaquei a figura do Feroz Analista: aquele comentador que se imagina corajoso, perseguido e politicamente incorreto, mas que, na verdade, tem palco, megafone e uma enorme disponibilidade mediática para repetir a sua indignação contra a indignação dos outros. Este livro parece escrito a partir desse lugar. Pedro Gomes Sanches critica os ofendidos, mas passa demasiadas páginas ofendido com tudo o que não corresponde à sua visão do mundo.
O resultado é pobre. Há frases com ritmo, há momentos de ironia, há uma vontade evidente de provocar. Mas a provocação, sozinha, não chega. As crónicas funcionam demasiadas vezes como rage bait em formato ensaístico: frases feitas para gerar reação, indignação contra a indignação, pose de coragem, muito barulho e pouca substância.
No fim, sobra um livro convencido da sua própria ousadia, mas vazio de conteúdo. Uma estrela.
Há passagens que me pareceram completamente alheadas da realidade material das pessoas. Quando se escreve que “A Propriedade erode-se, pela mão da poderosa autoridade fiscal, nos montantes que cobra, na omnipresença que impõe e na coerção que usa”, fica a sensação de que, perante a crise da habitação em Portugal, o grande drama identificado pelo autor é a autoridade fiscal. Num país onde tanta gente vive esmagada por rendas impossíveis, baixos salários, especulação imobiliária e dificuldade real em aceder a casa, esta obsessão soa quase obscena. A propriedade aparece como entidade martirizada, enquanto a vida concreta de quem não consegue sequer chegar a ela desaparece do enquadramento.
A mesma desproporção atravessa outros temas. A insistência na questão do tabaco durante a pandemia, com comparações absurdas entre comprar tabaco e tentar ouvir uma rádio moscovita em 1961, é um bom exemplo do tom geral do livro. Aquilo que poderia ser uma ironia passageira torna-se sintoma de uma visão do mundo em permanente estado de queixa. Tudo parece perseguição, tudo parece tirania, tudo parece decadência civilizacional.
A parte sobre o aborto segue a mesma lógica alucinada. O autor critica o facto de a mulher ter todo o poder de escolha, como se a autonomia sobre o próprio corpo fosse uma espécie de desequilíbrio jurídico insuportável. A questão é tratada com uma frieza abstrata, quase desligada da experiência concreta da gravidez, do risco, do medo, da vulnerabilidade e da desigualdade que recaem sobre as mulheres. Mais uma vez, a liberdade invocada pelo livro parece servir melhor quando protege uma ideia genérica de ordem do que quando se aproxima da vida real de quem decide.
No tema da eutanásia, a confusão torna-se ainda mais grave. Eu próprio tenho reservas quanto à sua legalização, por isso esperava algum rigor. O livro prefere o alarme. Ao tratar a relação entre eutanásia e suicídio assistido de forma simplista, e ao sugerir que daí resulta uma espécie de eugenia nas mãos do Estado, o argumento entra num território de exagero conceptual e político. Pode discordar-se da lei sem transformar a discussão numa fantasia de colapso moral absoluto.
Enquanto lia este livro, lembrei-me muitas vezes de Ofendidinhos, de Lucía Lijtmaer. Na minha crítica a esse livro, destaquei a figura do Feroz Analista: aquele comentador que se imagina corajoso, perseguido e politicamente incorreto, mas que, na verdade, tem palco, megafone e uma enorme disponibilidade mediática para repetir a sua indignação contra a indignação dos outros. Este livro parece escrito a partir desse lugar. Pedro Gomes Sanches critica os ofendidos, mas passa demasiadas páginas ofendido com tudo o que não corresponde à sua visão do mundo.
O resultado é pobre. Há frases com ritmo, há momentos de ironia, há uma vontade evidente de provocar. Mas a provocação, sozinha, não chega. As crónicas funcionam demasiadas vezes como rage bait em formato ensaístico: frases feitas para gerar reação, indignação contra a indignação, pose de coragem, muito barulho e pouca substância.
No fim, sobra um livro convencido da sua própria ousadia, mas vazio de conteúdo. Uma estrela.
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