Em agosto de 1883, duas semanas antes de falecer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstó "Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte para a literatura!". O pedido de Turguêniev alude ao fato de que Tolstói havia então abandonado a arte e renegado toda sua obra pregressa para se dedicar à vida espiritual. Embora não se possa dizer com certeza em que medida as palavras de Turguêniev repercutiram em Tolstói, é certo que A morte de Ivan Ilitch, publicada em 1886, foi a primeira obra literária que ele escreveu após seu retorno às letras — e que se trata de um dos textos mais impressionantes de todos os tempos. Considerada por Nabokov uma das obras máximas da literatura russa — e por muitos uma das mais perfeitas novelas já escritas —, A morte de Ivan Ilitch ganha agora nova edição em língua portuguesa, com tradução e posfácio de Boris Schnaiderman, e, em apêndice, texto de Paulo Rónai sobre o autor e sua obra.
Lev Nikolayevich Tolstoy (Russian: Лев Николаевич Толстой; most appropriately used Liev Tolstoy; commonly Leo Tolstoy in Anglophone countries) was a Russian writer who primarily wrote novels and short stories. Later in life, he also wrote plays and essays. His two most famous works, the novels War and Peace and Anna Karenina, are acknowledged as two of the greatest novels of all time and a pinnacle of realist fiction. Many consider Tolstoy to have been one of the world's greatest novelists. Tolstoy is equally known for his complicated and paradoxical persona and for his extreme moralistic and ascetic views, which he adopted after a moral crisis and spiritual awakening in the 1870s, after which he also became noted as a moral thinker and social reformer.
His literal interpretation of the ethical teachings of Jesus, centering on the Sermon on the Mount, caused him in later life to become a fervent Christian anarchist and anarcho-pacifist. His ideas on nonviolent resistance, expressed in such works as The Kingdom of God Is Within You, were to have a profound impact on such pivotal twentieth-century figures as Mohandas Gandhi and Martin Luther King, Jr.
Tolstói nos apresenta em seu livro uma escrita detalhada dos sentimentos e estados de espírito, não sendo complexo e prolixo, mas sim assertivo, tanto que as falhas e características de seus personagens os fazem parecer repugnantemente reais.
Ele retrata, primorosamente, temas centrais da existência humana, e de temores comuns a todo ser humano, como: morte, solidão e a busca por identidade. No início, achei que não seria um livro tão marcante e apenas continuei a leitura por curiosidade, mas a reflexão dos capítulos finais deixaram uma forte impressão em mim.
Ao iniciar a história de Ivan Ilich, Tolstói nos apresenta a imagem de um garoto que se saía muito bem em tudo que era solicitado, sempre cumprindo as regras e aquilo que era esperado dele. Esse garoto veio a se tornar homem bem sucedido, com uma carreira sólida, uma família construída, alcançando um local que poucos conseguem. Porém, tudo vaidade.
"Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes – que ele não teria vivido como deveria. (...). E suas obrigações profissionais e a retidão de sua vida e sua família e sua vida social tudo falso e sem sentido. Tentou defender essas coisas a seus próprios olhos e subitamente deu-se conta da fragilidade do que estava defendendo. Não havia o que defender."
Percebemos na verdade um homem vazio, que viveu a vida de outrem, e nunca se questionou sobre quem era e sobre o caminho que havia escolhido, até seus últimos momentos. Que assustador deve ter sido perceber que desperdiçou toda sua vida buscando algo que nem sabia o que era. Estava tão preocupado em viver a vida ideal que se esqueceu de viver...
A parte mais legal de ler clássicos, na minha opinião, é como muitas vezes você acaba refletindo sobre coisas numa profundidade que nunca havia refletido antes. Já pensei muito sobre a morte, obviamente, mas pensar no sofrimento que vem antes, na mistura de sentimentos antes de partir, no rancor, na vontade de ter feito algo diferente… e até mesmo na “mal educação” que vem com esse mix de sensações é algo que realmente tinha passado batido. Muito bom!
Muito bom. Me vi, como vi várias pessoas em Ivan Ilitch. Triste, mais pela vida mal vivida do que pela morte precoce. Temo que poucas pessoas tenham o privilégio de terem vivido bem.
A morte de Ivan Ilitch não fala propriamente da morte. Fala do incómodo que ela causa quando aparece sem pedir licença, sobretudo num mundo onde todos preferem fingir que são eternos — desde que bem vestidos e socialmente aceitáveis.
Ivan Ilitch fez tudo certo. Demasiado certo. Viveu como mandava o manual invisível da boa sociedade: carreira respeitável, ambição controlada, emoções bem arrumadas e uma vida inteira dedicada a parecer adequado. O problema é que, quando a morte entra em cena, não aceita justificações nem currículos. E Ivan Ilitch descobre, com algum espanto, que viver “como deve ser” não é garantia de ter vivido bem.
A doença surge quase como uma falta de educação. Não pela dor — isso ainda se tolera — mas porque o impede de continuar a encaixar. O verdadeiro drama não é morrer, é deixar de ser normal. Deixar de trabalhar, de jogar, de cumprir o papel. A morte não o revolta tanto quanto o facto de já não corresponder à imagem que construiu de si próprio.
À sua volta, instala-se o teatro habitual: médicos que falam muito e dizem pouco, familiares que mentem por cansaço e uma compaixão cuidadosamente ensaiada. Todos fazem o possível para afastar a morte — não dele, mas deles próprios. Só Guerrásim, o criado, demonstra aquilo que mais falta no livro: honestidade. Talvez porque nunca precisou de fingir que a vida fazia sentido.
No fim, Ivan Ilitch percebe o que ninguém lhe tinha avisado: viveu exatamente como esperavam dele — e foi esse o erro. A aceitação da morte traz-lhe uma lucidez tardia, quase cruel. Não há redenção, apenas consciência.
Tolstói escreve um aviso simples e desconfortável: a morte não é o maior problema. O verdadeiro perigo é chegar até ela e perceber que passámos a vida inteira a cumprir regras que nunca escolhemos.
A Morte de Ivan Ilitch é um livro para quem gosta de ficar pensando além do literal. É uma leitura que agrada muito quem gosta de refletir e de “brisar”, de tentar enxergar as coisas por outros ângulos.
Eu pessoalmente gostei bastante do livro justamente por ter essa característica de provocar esse tipo de pensamento.
A história mostra um personagem que tenta levar a vida com o mínimo de problemas e preocupações possível. Ele busca viver de forma confortável, dentro do que é esperado socialmente, sem grandes conflitos.
Só que, no fim, ele acaba vivendo uma vida triste. Uma vida que talvez seja muito parecida com a que muitas pessoas tentam viver, uma vida sem problemas aparentes, mas que acaba sendo vazia.
Isso levanta uma reflexão muito forte. Será que a vida dele realmente valeu a pena?
É um livro que faz você pensar o tempo todo se a sua própria vida está valendo a pena ou não.
É uma leitura para quem gosta de refletir. Um livro que faz você questionar se as decisões que está tomando hoje são apenas para evitar problemas no futuro ou se são decisões que realmente vão construir uma vida que vale a pena viver.
Afinal, no caso do personagem, ele não gostava do trabalho e também não gostava da esposa. Ele estava ali muito mais por comodidade do que por escolha.
um livro curto, fácil e rápido de ler, mas que traz tanta reflexão, aborda tantas coisas. Mas em evidência claro, o sofrimento humano na eminência da morte. Ivan parece ser o único a perceber que esta morrendo e sente que ninguém escuta ele verdadeiramente, ou, ate conseguem entender um pouco do sofrimento físico mas não o psíquico, chegando por fim a questionar se viveu a vida corretamente. O autor trata e relata as mulheres do livro de maneira extremamente patriarcal, isso incomoda mas é aquele exercício de "é um livro daqueles sua época ", triste de uma maneira geral.
Um livro curto mas espetacular, daqueles livros que fica com você um longo tempo. Como está escrito no título, o livro fala da morte do personagem, mas também narra a vida dele. Aqui Tolstoi narra a vida de maneira direta e quase burocrática, refletindo a própria vida do personagem. O tom fica mais reflexivo, quando a morte se aproxima e faz o personagem (e o leitor) refletir sobre a própria vida.
Meu primeiro livro do Tolstói e posso dizer que gostei muito, a leitura me prendeu do início ao fim. O livro nos faz refletir sobre a vida e a morte e se estamos vivendo para os outros ou por nós mesmo.
É uma leitura pesada e desconfortável. Quando terminei, fiquei muito tempo pensando sobre, mas confesso que eu gosto desse tipo de livro.
meio que o Tolstoy inventou o "e morreu". bacana mas não sei se entendi completamente oq o queria passar pq é meu primeiro contato com literatura russa
Esse é um considerado um dos livros melhores escritos de todo tempo. Pudera. Livro curto, linguagem direta e ao mesmo tempo extremamente denso. Faz mais de 1 mês que li e ainda reverbera em mim a superficialidade da vida do Ivan Ilitch. Ainda mais pq sou advogada e estou comprando um apto agora. Pensando em móveis, nas cores, em toda a sorte de superficialidade e aparência. Por outro lado, chegando a meia idade fico feliz que definitivamente não levei até aqui uma vida baseada em aparência ou querer agradar o outro. Me casei por amor. As duas vezes. Escolhi não ter filhos. Me apaixonei. E ainda tenho a imagem de não me encaixar totalmente. Talvez eu nunca atinja ao máximo do sucesso na minha carreira. Mas com a certeza de que tive uma vida mais plena que a de Ivan. Somente isso já vale a pena. Uma leitura universal e para a vida.
A pergunta que muitas vezes passa pela nossa cabeça é respondida por Tóstoi de uma forma contrária: o que *não é* uma vida bem vivida. O livro conta a história de Ivan Ilitch, um funcionário público que, desde a juventude, viveu de acordo com as expectativas do que é ser “bem sucedido” socialmente: teve um emprego de destaque, casou-se com uma mulher bonita e inteligente e possuiu uma casa bem decorada e admirável.
Mas o quanto disso ele realmente desejava? Esse questionamento só foi esclarecido em seu leito de morte, de forma bastante conturbada e dolorosa física e moralmente. No início de sua doença, ocorreu a Ivan Ilitch, pela primeira vez, que talvez ele não tivesse vivido de forma plena. E isso o amedrontou, porque, afinal, ele tinha feito tudo que “deveria” ser feito. *“Talvez eu não tenha vivido como é preciso - vinha-lhe de súbito à mente - Mas como não, se eu fiz tudo como se deve?*”. Assim, essa resposta foi sendo encontrada através do pouco caso que seus familiares, amigos e médicos tinham com seu estado miserável. A partir daí, Ivan Ilitch começa a refletir sobre o quanto de seu trabalho duro para construir uma vida majoritariamente aprazível o levou a viver de forma autêntica. *“Neles (seus familiares) via a si mesmo, tudo por que ele vivera, e via claramente que tudo aquilo estava errado, tudo aquilo era uma imensa e horrível ilusão, que encobria a vida e a morte. Essa consciência aumentou, tornou seu sofrimento físico dez vezes maior.”*
Dessa forma, “*A morte de Ivan Ilitch*” nos faz pensar sobre como a falta de reflexão ao longo da vida sobre as próprias escolhas pode nos levar a encarar a morte de forma mais angustiante e, possivelmente, com maiores arrependimentos. A busca incessante pelos prazeres e fuga absoluta das dores têm como consequência a falta de laços afetivos genuínos que são, afinal, construídos e reconstruídos em meio ao emaranhado de sentimentos, bons e ruins, mas próprios do ser humano. Por fim, Tóstoi nos deixa uma mensagem bonita e sensível: a aceitação da realidade, a busca pelo perdão e a coragem para fazer diferente, mesmo que de maneira mínima, são capazes de nos fazer viver (e morrer) melhor.
*“Onde está a dor? Sim, aqui está ela. Pois vem, deixe que venha a dor. E a morte? Onde ela está? Ele procurou seu antigo e costumeiro medo da morte e não o encontrou. Onde ela estava? Que morte? Não havia medo de nada, porque tampouco havia a morte. Em vez da morte, havia a luz.”*
A Morte de Ivan Ilitch é a desmontagem brutal de uma vida construída sob a lógica da normalidade social. Não é sobre morrer, exatamente. É sobre perceber, tarde demais, que viver “como se deve” pode ser a forma mais eficiente de não viver de verdade. O livro funciona quase como uma autópsia moral: disseca uma existência que parecia correta por fora, mas que por dentro era vazia, automática e, no fim, insuportável.
Ivan Ilitch não é interessante por ser único, e sim pelo contrário. Ele é o modelo médio: busca ascensão, conforto, reconhecimento social, uma vida “decente”. O problema é que tudo nele é mediado pelo olhar dos outros. Suas escolhas não nascem de convicção, mas de adequação. E aí está o ponto que você provavelmente ignoraria se fosse superficial: o sofrimento dele não começa com a doença, começa com a lucidez. A dor física só escancara algo que já estava ali, enterrado sob anos de convenções.
A relação dele com a própria morte é o eixo mais incômodo. No início, a morte é algo abstrato, sempre distante, quase um erro de cálculo quando acontece com os outros. Quando ela se torna pessoal, o mundo inteiro entra em colapso, porque a lógica que sustentava sua vida não dá conta disso. E o mais cruel: as pessoas ao redor continuam jogando o mesmo jogo social, tratando sua morte como inconveniente, protocolo, até irritação. Tolstói não tá criticando só Ivan, tá expondo uma estrutura inteira de hipocrisia cotidiana.
O livro vai além de uma crítica social simples. Ele encosta numa pergunta que você provavelmente evita porque dá trabalho responder: o que valida uma vida? Ivan percebe que seguiu todas as regras e ainda assim falhou no essencial. Essa percepção é o verdadeiro terror da obra. Não é a morte em si, mas a possibilidade de ter vivido errado sem saber.
E aí vem a virada final, que não é redenção fácil, mas uma espécie de ruptura. Quando ele abandona a resistência e encara a própria condição com sinceridade, surge uma forma de sentido que não existia antes. Não é bonito no sentido tradicional, é quase violento. Como se só no limite absoluto fosse possível arrancar alguma verdade.
Se você quiser levar isso a sério, o custo é óbvio: parar de tratar sua própria vida como uma checklist social. Porque o livro não é só uma história, é um espelho meio cruel. E espelho só serve pra duas coisas, se enganar ou ajustar o que tá errado.
• morte física no limiar da vida e morte, a personagem ivan ilitch adquiri consciência do vazio que esteve presente em toda sua existência. a compreensão da futilidade que viveu torna o processo ainda mais difícil e doloroso para ele. "o doutor dizia que os sofrimentos físicos dele eram terríveis, e dizia a verdade; mas os seus sofrimentos morais eram mais terríveis que os físicos, e nisso consistia a sua tortura maior." na superfície, temos um livro sobre a descoberta e a convivência de um homem com a morte, mas, durante a leitura de suas páginas, encontramos uma reflexão sobre a vida, a ambição, o egoísmo e uma representação panorâmica das relações hierárquicas e burocráticas da rússia czarista do século XIX. tais relações compõem um quadro de angústia, hipocrisia e fingimento cuja fidelidade à realidade é impressionante. ivan Ilitch era um ambicioso funcionário público que, desde muito novo e sem se quer notar, conviveu com o espectro de uma vida fútil e movida por aparências. seus feitos nos são apresentados por meio de um narrador onisciente. "não podia mentir a si mesmo: acontecia nele algo terrível, novo e muito significativo, o mais significativo que lhe acontecera na vida. e quanto mais longe da infância, quanto mais parte do presente, tanto mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias."
É difícil dizer em que medida o testemunho do precoce falecimento de seu irmão em 1856 inspirou León Tolstói a publicar, três décadas depois, A morte de Ivan Ilitch. Com Guerra e paz e Anna Karenina, o romancista russo já havia enriquecido e se tornado internacionalmente notório. Saindo de sua zona de conforto, rompeu com o mundo aristocrático das novelas que o consagraram e, num ato de grande ousadia, criou Ivan, um protagonista simples e comum cujos hábitos, ambições e mazelas garantiam a identificação imediata do leitor. Para converter a história do homem comum em joia literária perene, Tolstói arriscou táticas magistrais: adotou linguagem clara, simples, curta, seca e direta. Ao mesmo tempo, inverteu a cronologia linear apresentando um Ilitch morto e só depois trazendo-o à vida, com suas virtudes e pecadilhos. Acertou, ao expor os comportamentos sociais impecáveis dos amigos e familiares, num contraste gritante com seus pensamentos mesquinhos em relação ao falecido. Era a aparência em detrimento da essência. Na fase agônica, surge o inevitável questionamento: “E se toda sua vida, a vida consciente, tivesse sido errada?” Talvez esteja aí a força dessa obra-prima, pois a pergunta funciona como dedo acusatório que perseguirá o leitor por muito tempo, fazendo-o refletir sobre o sentido da própria vida.
Esse livro é uma das obras mais brutais que já conheci, em qualquer tipo de arte. Tolstói é pancada mesmo, ele desmonta a ilusão da vida confortável e expõe o vazio que a gente insiste em fingir que não vê. Só que preciso ser honesto, minhas expectativas estava tão alta e absurda para esse livro que acabei esperando mais do que devia. Não me entendam mal, a obra tem um mérito imenso e entrega exatamente o que pretende, mas essa expectativa acabou comprometendo quando terminei o livro e percebi que eu tinha criado um monstro na cabeça.
Ainda assim, é impossível negar o peso dessa novela. Por mais que a minha leitura tenha sido atravessada por essa expectativa exagerada, o livro continua sendo daqueles que você precisa enfrentar em algum momento.
O jeito que Tolstói descreve a dor de Ivan Ilitch pô, parece que fura a quarta parede. Qualquer pessoa bitolada como eu sente a dor física e os questionamentos mentais dele como se fossem seus. Apesar de que, no meu caso, os abalos mentais pode ser realmente meus kkk.
E, dito isso, não tem como alguém se dizer amante de literatura ou praticante desse hobby e não ler Ivan Ilitch. É bem curtin e direto. E deixa uma marca que continua ali, mesmo quando você acha que já virou a página.
Lev Nikoláievitch Tolstói é inegavelmente um dos autores russos mais aclamados de todos os tempos com obras traduzidas e continuamente relançadas em todos os continentes há mais de um século. Famoso especialmente por Guerra e Paz (1867) e Anna Karenina (1878), o autor formou-se em direito, foi juiz de paz, participou da Guerra do Cáucaso (1817-1864), e com intuito de contribuir para o desenvolvimento social de seu povo, ainda fundou em casa uma escola para alfabetização de crianças e adultos.
Dono de uma narrativa que reportava criticamente a sociedade russa em que a pobreza e a servidão da monarquia absolutista czarista imperavam, Tolstói foi mordaz com a estrutura oligárquica conservadora e seus costumes. Com um texto escrito em vocábulos de simples acesso, a excelência, muito além do enredo realista, deve-se à inventividade ao retratar conflitos psicológicos extremamente densos, ainda em um período em que essa perspectiva literária e os fluxos de pensamento não eram habituais.
A Morte de Ivan Ilitch é uma obra curta cuja trama já é evidenciada a partir do título escolhido. Não há a intenção (ou necessidade) de reviravoltas mirabolantes ou surpresas. Ivan Ilitch percebe em um momento determinado de sua vida que irá morrer em breve. Diante da verdade que atinge a todos nós e que (in)conscientemente tentamos esquecer, a mortalidade apresenta-se ao protagonista gradativamente, tomando posse primeiro de seus pensamentos; compreender a proximidade do fim é o fio que nos conduz agoniados e atentos ao longo do texto.
“E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. “É como se eu estivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isso. Perante a opinião pública, eu subia, mas, na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera.”
Um livro profundo, inquietante e de grande introspecção. Pedrada!
Há algo de quase mágico na morte. Às vezes, ela vem sorrateira e subitamente consome a vida. Neste romance de Liev Tolstói, acompanhamos a vida (e morte) de Ivan Ilitch, um juiz de 45 anos que, pelo olhar de muitos invejosos, tem tudo o que se possa desejar. Com um bom cargo, uma boa casa e uma família bem estruturada, tudo parece ser perfeito. Mas Tolstói questiona exatamente as aparências. Um dia, Ivan acorda sentindo uma dor que o acompanha até os seus últimos momentos. Ele poderia aproveitar seus últimos meses de vida para viver ao máximo ou mesmo pensar no legado que deixaria aos seus filhos, mas, na realidade, ele passa esse tempo questionando todas as suas decisões e como tudo para ele estava “errado”. Diante da morte, ele vê a verdade nua e crua: tudo o que ele tem, tudo o que ele consquistou, tudo não passa de uma mentira, uma ilusão. Então ele se apercebe do triste fato, nem se ele tivesse todo tempo do mundo ele poderia viver, porque em 45 anos de vida ele nunca o fez. Simplesmente um livro incrível, fácil e rápido de ser lido, mas que deixa uma marca em todos os seus leitores.
É impressionante como Ivan Illitch é um cara chato. O livro é basicamente sobre isso, como é chato viver de acordo com o que é decente, como é chato seguir o que é esperado, como é chato o ser que se propõe a isso. Ivan chegou a ser tão chato que discuti com minha namorada Rafaela porque segundo ela a Fiodórovna era igualmente chata (talvez ela estivesse até certa, mas ai como Ivan é cansativo). Apesar disso tudo, é interessante e muito tocante como ele deseja viver. Até ele entender que o que ele quer não é aquela vida sem sal que ele decidiu seguir e sim a doçura da infância. A cada escolha, Ivan amarga mais a sua vida e, consequentemente, a de todos à sua volta. Ver ele entendendo isso em seus últimos momentos me fez deixar de lado toda a minha insatisfação com ele e suas tolices. Cheguei até a me identificar um pouco com suas questões: até que ponto estou vivendo conforme meus desejos, meu corpo forte e saudável? Até que ponto estou vivendo desse modo porque o acho correto? Como dói ver que o correto não compensa como achávamos. Como ele não nos traz um troféu e uma multidão em fervoroso aplauso. Sendo assim, o bom da vida é, de fato, viver (o resto é invenção).
É um livro curto, acessível que descreve de maneira simples mas frontal, crua uma vida de alguém que viveu as expectativas de uma sociedade hierárquica, que procura o decente e o agradável. No trabalho, no amor, até na doença. E quando esta chega, quando a possibilidade da palavra doença, morte se encontra no horizonte é pela primeira vez que Ivan Illitch questiona a sua existência, como viveu e porque viveu assim. E como é que ele, que viveu mediante as normas sociais do decente, consegue ser atingido por algo tão distante como a morte. Como é que ele será um mero mortal quando viveu seguindo tudo o que era o certo. Mas agora certou ou errado, já não importa. A prespectiva e a certeza de que a morte o atinge como a todos no seu simples fim mostra-lhe que não pode controlar tudo, que há algo que o controla: a possibilidade de estar vivo, e a possibilidade de não o estar. Um livro curto que nos leva a questionar o propósito da nossa vida e a necessidade desesperada de entendermos esse fenómeno tão estranho e natural que é a morte.
Que tristeza me ver tanto em Ivan Ilitch, que tristeza me ver concordando com ele enquanto ele morre, que tristeza pensar na solidão nos momentos finais de vida, que tristeza, esse livro me toca muito, leitura rápida pra se pensar por dias.
Eu sempre achei a afirmativa “Será que estou vivendo a minha vida ou a vida que os outros prepararam pra mim” clichê, mas depois desse livro é de se repensar.
Eu acho que esse livro escreve uma “redenção” melhor pro Ivan que Dostoiévski escreve para Raskol. Aliás, crime e castigo é uma excelente preparação para esse livro, visto que conhecemos em parte a sociedade russa, para o que importa, entendemos o que são as “exéquias” quanto dinheiro em Rublos são 5000 anuais.
Eu também acho que esse livro poderia usar mais o evangelho, mas ele é curto e não conheço o autor suficientemente pra dizer se funcionaria bem. Com Dostoiévski funcionou, escrevendo isso, penso que estou lendo a morte de Ivan com as lentes de Dostoiévski pois são autores russos. Talvez a minha leitura fosse diferente caso tivesse começado pelo menor.
eu não sou tão fã da reflexão dele durante os últimos dias que indicam que a vida é uma decrescente constante da felicidade e alegria, que tem o seu pináculo na infância / juventude e dali em diante só se há cada vez mais desgraça e menos alegria
Acho meio deprimente
E por mais que tenha seu fundo de verdade, eu realmente fui mais feliz no passado do que eu sou hoje, mas acho que isso é mais uma benesse da infância, do que um male da vida adulta
Ainda quero esmilçar melhor sobre a mulher, mas realmente, é lamentável como ele construiu a idealização social da vida perfeita, com bom trabalho, boa casa, bonita mulher e educados filhos, e mesmo assim ele não encontrou alegria nenhuma em tudo isso, por que ele só fez o que se achava que ele devia fazer, e não o que ele de fato queria fazer. Mas eu me peguei pensando nisso, ele nem sabe o que ele queria fazer. Ele era contente e conformado em simplesmente ser o que lhe foi provido, viver no comodismo do usual. A verdade é que ele era um cara medíocre, que queria se sentir acima
Livro absolutamente fenomenal que leva o leitor a refletir junto ao doente sobre a significância da vida - ou ausência dela a depender da vida que se levou, e, especialmente para mim, sobre a culpabilidade que colocamos nos outros por nossa própria desgraça até entendermos que sofremos todos e sem exceção e, algumas vezes, somos nós mesmos a causa do sofrimento dos demais.
Ivan Ilitch levou a vida que a sociedade tratava como ideal e esperada, mas somente quando faceia a morte entende que essa não era sua vida. Não era a vida que ele esperava para si mesmo e, na realidade, ele nem sabia que vida esperava para si - sabia, então, que não era aquela que refletia sobre em seu leito de morte.
O livro é curtíssimo, fluído e muito reflexivo. Um dos melhores que já li dentre as obras russas. Indico também que se leia o “O Deserto Dos Tártaros” caso gostem da temática de Ivan Ilitch.