Tudo começa com uma viagem: no tempo e no espaço, na imaginação e na memória. Em plena ditadura brasileira, um pai e o seu filho de onze anos sobrevoam, num bimotor, o coração da floresta amazónica. O pai, dado a excessos anímicos, mantém ligações obscuras aos militares que apoiam o governo. O filho, desamparado, embrenha-se obsessivamente na leitura de um romance de ficção científica sobre a demanda por um planeta substituto da Terra. Entre os dois, a comunicação é cada vez mais falha. Até que, à chegada a uma das fazendas que pontuam a Amazónia, um episódio terrivelmente violento vai deixar marcas que ficarão para sempre.
Mergulho na história moderna do Brasil, com uma sucessão de acontecimentos perturbadores e uma galeria de personagens sinistras, Os substitutos é também a demanda feroz e comovente pelo que (des)une dois homens. Bernardo Carvalho alcança aqui o lugar mais íntimo da sua obra, já que é entre pais e filhos que se estabelece a mais complexa das relações humanas.
Bernardo Carvalho (Rio de Janeiro, 1960) é um escritor e jornalista brasileiro.
Foi editor do suplemento de ensaios Folhetim, e correspondente da Folha de São Paulo em Paris e Nova Iorque. Seus dois primeiros livros foram editados na França.
Bernardo Carvalho teve o seu livro Mongólia distinguido com o prêmio APCA da Associação Paulista dos Críticos de Arte, edição 2003, na categoria romance, depois de ter já vencido, a meias com Dalton Trevisan (Pico na Veia) o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, com o romance Nove Noites.
Segui-o durante alguns anos, ainda na Cotovia, num tempo em que repetia muito pouco cada autor, convencido então de que tinha de visitar todas as capelas antes de me decidir por um credo. Mas havia no Bernardo de Carvalho uma certa finta ao que então via como convenção na literatura brasileira, a linguagem exuberante e um à vontade com o sexo e a violência que me deixava com um travo a exibicionismo pouco agradável. Havia pensamento e profundidade nas histórias do autor, e eu apreciava isso na altura: um comedimento incisivo. Estive muito tempo sem lê-lo e agora pergunto-me, como de tantas outras vezes, nestes e noutros assuntos, se fui eu quem mudou, se foi ele. Eu, talvez: porque o que nos outros livros parecia tensão e escolha parece neste pobreza, falta de ligação, língua de relatório, alguns parágrafos parecendo a descrição no que neles se pretendia escrever (como um apontamento) e não o resultado final. Tem muitas ideias, e talvez as tenha em demasia: as várias linhas narrativas precisavam de outro tempo para serem bem contadas e a inteligência do autor um território menos estreito (ou leitores que aturassem estas qualidades, que talvez já nem sejam muitos). Fica assim um livro que não tem nem a complexidade calhamácica (vocês percebem) de um bom romance europeu, nem a fulguração cénica e linguística de um bom romance brasileiro.
“(...) tinha orgulho do filho e ao mesmo tempo que se irritava por ele não corresponder a suas expectativas. Aí começavam as contradições. Alimentava desejos incompatíveis. Por uma estranha inversão, o filho encarnava a lei. Desde que o vira pela primeira vez, recém-nascido na maternidade, projetou no menino a vida que ele mesmo não podia ter, fosse porque já a corrompera, perdera a chance e o momento, fosse porque no seu caso aquela vida estivera sempre indisponível desde sempre. Mais que continuação, extensão ou complemento, esperava do filho um substituto e, inconscientemente, não descartava que essa substituição se desse por desvio e oposição. Bem no fundo, esperava que o filho fosse tudo o que ele não tinha podido ser, como a promessa de qualquer criança mas como contradição, para redimi-lo. Projetava no filho o contrário de si, como redenção. Mais do que estar junto e acompanhá-lo em suas conquistas, desejava realizar no filho o seu oposto. Mas só até a realidade começar a irritá-lo. Como na idealização do amor, quase nunca estavam juntos (só se viam nas férias) e bastava uma semana juntos para já não o suportar já não poder vê-lo pela frente, não querer passar nem mais um segundo ao seu lado. Bastava uma semana para querer despachá-lo de volta para a mãe, para bem longe, para onde já não seria obrigado a se confrontar com a contradição daquele desejo, a realidade daquele ser, carne da sua carne e em tudo seu contrário. Oposição que estranhamente ele seguia desejando. O filho era a decepção que o irritava mas pela qual, na ambivalência do amor, também imaginava poder salvar-se.”
De fato, Bernardo Carvalho consegue ir e voltar do presente com uma maestria que ouso a dizer que só ele tem, mas senti que faltou aprofundar alguns temas. Até o momento Nove Noites continua imbatível dentre os livros dele.