Muito antes de o Brasil declarar guerra ao Eixo em 1942, a Segunda Guerra já estava entre nós. Em Trincheira tropical, Ruy Castro reconstitui os dez anos que vão de 1935 a 1945 e descreve como o cotidiano da população foi afetado pelo que acontecia na Europa. Aqui estão o racionamento de produtos essenciais, os blecautes, os abrigos antiaéreos obrigatórios nos novos edifícios, os exercícios simulados de contra-ataques dos submarinos e a infiltração de ideias nazistas e fascistas talvez no prédio vizinho. É quase uma história da vida privada, com a mudança de hábitos provocada pela guerra e a modernização forçada do Brasil, do hábito de tomar Coca-Cola pelo gargalo aos aviões que escreviam no céu ― impactos que também foram sentidos na literatura, no jornalismo, na música, no teatro e no cinema. O livro descreve a disputa entre o integralismo, o comunismo e a democracia sob a ditadura de Getulio Vargas e relata como a campanha pela entrada do Brasil na guerra levou o povo para as ruas. Com seu estilo inconfundível, Ruy encerra o livro nos transportando para o front italiano na companhia dos 25 mil rapazes que foram com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) para a batalha no além-mar, muitos dos quais nunca tinham sequer visto o mar.
Rui Castro, na ortografia oficial. Nasceu em 1948. Começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, do Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana. A partir de 1990, concentrou-se nos livros. Publicou, entre muitos outros, as biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, e obras de reconstituição histórica, sobre a Bossa Nova, Ipanema e o Flamengo. É cidadão benemérito do Rio de Janeiro.
É um livro escrito como se fosse um conversa com o leitor. O Ruy Castro tem um estilo bem leve, como se estivesse sentado com a gente em uma mesa de bar à beira da praia. Ele parece aquele amigo que sabe tudo sobre um determinado assunto, que no caso dele é o Rio de Janeiro do século 20. Ele sabe tudo o Rio. Essa é a parte legal do livro. Ele é uma enciclopédia do Rio. Sabe tudo sobre a cidade. Mas significa dizer que o seu mundo é o Rio. Quase nada de Brasil existe além da divisa da cidade. Isso, aliás, está explícito na capa. Vejam bem, isso não é uma reclamação; é uma constatação. Dito isso, é um livro muito divertido de se ler. Parece que em um certo momento, sei lá, até o final dos anos 1960, o Rio foi realmente a cidade maravilhosa; além disso, parece não houve época melhor do que as décadas de 1930 ou 1940. A cidade era o centro cultural do país e de lá se irradiava aquele espírito que talvez tenha sido o espírito do brasileiro em um certo momento. Isso (se é que realmente existiu um dia) acabou, é claro, como a gente bem sabe. Aquele Brasil não existe mais. Sumiu do mapa faz tempo. Dito isso, o livro é ótimo e o recomendo. Muita informação, muita mesmo. O leitor vai se deliciar com certeza.
Nota final: Como em toda conversa de bar, existe algumas derrapadas. Não muitas, mas há. Algumas coisas que mereciam revisão para uma nova edição: 1. Na página 106, ele afirma que “...em Santa Catarina, cuja Oktoberfest, a Festa da Cerveja, era a maior do mundo alemão depois da de Munique”. Ele não informa de onde retirou essa informação, mas consultando a página da Oktoberfest de Blumenau, se lê que a primeira festa na cidade foi em 1984, depois da monstruosa inundação de 1983. Além disso, parece que a primeira Oktoberfest aconteceu em Santa Catarina só em 1978, na cidade de Itapiranga. 2. Ele afirma na página 107 que “E a seção brasileira do Partido Nazista, fundada em 1928, era a maior de suas 83 congêneres”. Também não diz de onde tirou essa informação, mas acho que isso precisa ser lido com um grão de sal. Há uma tese da USP que confirma isso, mas também afirma que eram apenas 2.903 membros. Um número pequeno até para aquela década. Dei uma olhada na tese, mas não encontrei de onde a autora tirou essa informação, mas tenho minhas dúvidas da sua veracidade. Nos Estados Unidos houve manifestações, como aquela que reuniu 20 mil pessoas no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Também lembrei do caso chileno, em que houve um partido nazista organizado (Movimiento Nacional Socialista de Chile) que chegou a eleger 3 deputados nas eleições de 1937 e que, segundo a wikipedia (em inglês) teria tido 20 mil adeptos. Enfim, acho que essa informação precisa ser compreendida em um contexto mais amplo. 3. Na página 161, existe a informação que “o COI foi obrigado a mudar o sistema de contagem [de medalhas nas Olimpíadas de 1936 para agradar à Alemanha]. Em vez da soma dos ouros, contava-se agora o total de medalhas — talvez porque os americanos tivessem conquistado 38 ouros contra 24 dos alemães”. Essa informação está completamente errada. A Alemanha conquistou 38 medalhas de ouro, enquanto os Estados Unidos conseguiram 24 de ouro. E no total, a Alemanha também teve mais medalhas, 101 contra 57 dos americanos. Só consultar o próprio COI. 4. Na página 166, ele afirma que “[Albert Einstein] ao se sentir cercado por gente tão raivosa [os nazistas] se mudou para a Bélgica. A Alemanha pressionou o governo belga a lhe negar proteção, e ele teve de se mudar de novo, agora para a Inglaterra”. A história que o Walter Isaacson conta em sua biografia do cientista alemão é diferente. Ele conta que Einstein estava voltando de navio para Europa quando ficou sabendo se sua casa havia sido vandalizada pelos nazista. Assim, não voltou para a Alemanha, mas resolveu ficar na Bélgica, “Parados (Einstein e a esposa), mais pelas circunstâncias das rotas transatlânticas do que por escolha consciente, Einstein e sua comitiva fixaram residência ali provisoriamente” (p. 589). Além disso, segundo o Isaacson, o Einstein vai para a Inglaterra não porque o governo belga se sentiu pressionado, mas porque Oxford lhe havia feito uma excelente oferta de emprego. Depois, ele iria para os Estados Unidos também em razão de uma oferta de emprego ainda melhor. 5. Na página 519, afirma que “os Lancaster britânicos durante o dia, e os B-17 americanos, durante a noite, bombardearam Berlim sem cessar”. Era justamente o contrário. Ingleses bombardeavam durante a noite, e os americanos atacavam durante o dia.
Ruy Castro é genial. O livro é a biografia Duma época, com um imenso detalhamento de datas, nomes, fatos, mas tudo isso posto numa narrativa que não se torna cansativa. Pelo contrário, engaja e cativa. Não queria que terminasse. Recomendo a todos que se interessam pela história da cidade do Rio e da Era Vargas. Não é exatamente um livro sobre a Guerra, mas sobre o país no período em que a guerra se deu.
Ruy Castro, nascido em 1948, começou no mundo das letras como jornalista. Atuou com destaque, competência e talento em vários jornais e revistas. A partir de 1990 dedicou-se à escrita e seu talento como escritor, já reconhecido através dos artigos e matérias que publicava, tornou-se notório e internacionalmente reconhecido. Autor de vasta obra com destaques para os best-sellers “não ficção”, “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa-nova” (1990 e reedição em 2016), “O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues” (1992), “Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha” (1996), “Carmen – uma biografia” (2005) e para os ótimos romances “Bilac vê estrelas” (2000), “Era no tempo do rei: Um romance da chegada da corte” (2007) e “Os perigos do imperador: Um romance do segundo reinado” (2022), o mineiro, natural de Caratinga (MG) mas carioca por opção e cidadão benemérito do Rio de Janeiro, já recebeu o prêmio Nestlé de literatura, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nada mais, nada menos, do que quatro prêmios Jabuti. Desde 2022 o autor faz parte da ABL, reconhecimento mais do que justo à sua obra. Seu livro de 2024, a coletânea de crônicas “O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim” foi considerado o melhor livro do ano de 2025 no “Prêmio Jabuti”. “Trincheira Tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio”, livro publicado em 2025 é, desde já, considerado um clássico que procura preencher uma importante lacuna na historiografia brasileira envolvendo a Segunda Guerra Mundial (1939/1945). Afinal de contas como o próprio autor escreveu no início das referências bibliográficas incluídas no final da obra:
“Já se escreveu muito sobre o Brasil na Segunda Guerra. Nem tanto sobre a Segunda Guerra no Brasil”.
Para cumprir com a galhardia de sempre as tarefas que o autor chama para si ao elaborar seus livros ele mergulhou de cabeça em centenas de obras e registros que trouxessem qualquer menção ao impacto da maior guerra de todos os tempos no Brasil com especial destaque para a cidade do Rio de Janeiro então capital federal. É muito interessante como o Brasil antes da eclosão da guerra em 1939 já passava por uma polarização parecida com a que vivemos nos dias de hoje entre esquerda e direita. No caso entre a AIB (ação Integralista Brasileira) de inspiração fascista e a ANL (Aliança Nacional Libertadora) que se posicionava à esquerda e diante dessa polarização o governo de Getúlio Vargas (1882/1954) que durou de 1930 a 1945 tinha posições muito mais próximas dos fascistas. O que não impediu Vargas de colocar a popular e influente AIB na ilegalidade quando lhe conveio e isso logo depois de fazer o mesmo com a ANL. O autor, claramente um crítico do “Pai dos pobres”, mostra de forma brilhante que o poder para Vargas era mais importante do que a ideologia e que o apoio da ditadura brasileira à luta pela liberdade na Europa contra o nazi-fascismo só ocorreu em função das pressões estadunidenses e de uma série de barganhas que resultaram em fornecimento de armamento para as forças armadas brasileiras e recursos que possibilitaram a construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional|). Chamam a atenção em “Trincheira Tropical” as análises e descrições do autor acerca do impacto cultural da guerra no Brasil que sofreu uma verdadeira invasão de artistas, escritores, pintores, atores, atrizes, dramaturgos, diretores, fotógrafos e músicos que, fugindo da guerra e de seus desdobramentos, se estabeleceram no Brasil (muitos de forma definitiva) e levaram o universo cultural brasileiro a passar por uma transformação que provavelmente foi muito maior do que a provocada pela “invasão francesa” do início do século XIX e fruto de uma outra grande conflagração europeia: as guerras napoleônicas. Outro destaque a meu ver é a inclusão no livro de uma história da FEB, a “Força Expedicionária Brasileira” que, a despeito de todas as dificuldades, lutou com bravura na Europa onde ela era ovacionada nas cidades que libertava na Itália com seus feitos reconhecidos pelos próprios militares estadunidenses que a comandavam. Mas tais reconhecimentos e esforços não teriam ecos no Brasil pois a FEB, mal colocou seus pés de volta na “pátria amada Brasil” foi dissolvida com seus “pracinhas” sendo descomissionados com pouco ou nenhum reconhecimento e as famílias daqueles que perderam a vida mergulhadas num mar de burocracia e muitas vezes entregues à indigência. E tudo isso pelo temor do governo Vargas em perder protagonismo e visibilidade para a FEB. Página vergonhosa de nossa história que precisa de mais destaque. Ruy Castro em 13 de junho de 2025 deu uma ótima entrevista à jornalista Júlia Dias Carneiro correspondente da BBC News Brasil. Vale a pena reproduzir parte dessa entrevista:
BBC News Brasil - Trincheira Tropical fala sobre como a Segunda Guerra Mundial impactou a vida no Rio de Janeiro. O que te levou a escolher esse tema? Castro - O livro é quase uma história da vida privada no Rio durante o conflito, falando sobre tudo que aconteceu na cidade por causa da guerra, que foi muito importante na vida do brasileiro. Atingiu todo mundo, principalmente no Rio, que era não só capital federal, como também a única metrópole do Brasil. Era o centro do corpo diplomático, o centro militar, o principal porto do país. O Rio recebeu não só espiões e contra-espiões, como também refugiados da guerra. Mas isso nunca tinha sido contado. Foi isso que me empolgou a buscar informações durante seis anos. Os livros que existem a respeito tratam basicamente da luta dos pracinhas na Itália. Mas são chatos de ler e difíceis para o leitor entender. A maioria foi escrita por generais e coronéis que nunca estiveram a menos de 5 km do front da batalha. Como, aliás, os correspondentes de guerra. A ignorância e o desconhecimento sobre a guerra dentro do Brasil é muito grande. A primeira coisa que fiz foi ler toda a imprensa da época, que era completamente censurada. Depois, comecei a buscar todos os livros publicados a partir de 1940 que faziam referência ao Rio naquele período. Livros de memórias de generais, políticos, jornalistas, escritores, empresários, diplomatas, uma quantidade enorme de pessoas publicaram suas memórias nesses últimos 80 anos. Foram seis anos lendo mais de mil livros para coletar informações.
BBC News Brasil - Como o conflito era acompanhado do Brasil? Havia um clamor pela entrada do Brasil na guerra? Castro - Apesar de a guerra ter sido declarada em 1939, os mundos fascista, comunista e democrático já estavam em guerra no Brasil desde 1935, com a Intentona Comunista, o Estado Novo de 1937, que era fascista, e o Putsch Integralista de 1938. Durante a guerra, como o Brasil exportava alimentos e matéria-prima para países inimigos da Alemanha, submarinos alemães começaram a botar abaixo esses navios para impedir que chegassem à Europa e aos Estados Unidos. No Rio, havia talvez dois mil espiões alemães dedicados a informar a Alemanha sobre as características e trajetos desses navios. Muitas casas tinham rádios clandestinos com antenas no telhado. Os espiões mandavam essa informação via rádio para Hamburgo, bombardeavam o navio e, pronto, morriam 200 pessoas. Mais de mil brasileiros morreram nesses bombardeios em 1942. E por causa dessas agressões, o Brasil declarou guerra ao Eixo Nazista — Alemanha, Itália e Japão. Mas essa declaração de guerra só aconteceu porque houve uma pressão monumental dentro do Brasil. Havia uma ditadura aqui, tudo era proibido, mas de repente não houve como conter as manifestações de rua, lideradas pelos estudantes pela União Nacional dos Estudantes. A UNE botou milhares de pessoas na rua todos os dias exigindo a entrada do Brasil na guerra e a luta pela liberdade. Ironicamente, o Brasil não tinha um regime de liberdade, tinha uma ditadura terrível, comandada pelo Getúlio Vargas. Mas ele não teve mais como segurar aquela onda, e foi obrigado, por pressão interna, a nos mandar para lutar na guerra.
BBC: O livro conta que o conflito também impôs dificuldades econômicas e racionamento aos brasileiros. Como foi? Castro: Não há como ficar alheio a uma guerra mundial. Qualquer máquina que havia no Brasil, automóvel, geladeira, liquidificador, peça de reposição de ônibus, bonde, tudo vinha de fora. Mas, lá fora, estavam convertendo essas indústrias para a guerra, para fabricar canhão, tanque. Não entrava nada novo aqui. A carne que o Brasil produzia passou a ser exportada para os Estados Unidos, então não havia carne para comprar. E o bombardeio de navios interrompeu o transporte de mercadorias entre o Sul/Sudeste e o Norte do Brasil. O Norte fabricava açúcar até dizer chega, mas não podia transportar para o Rio ou São Paulo. Lá havia excesso, aqui, escassez. Começou a haver racionamento de laticínios, ovos, trigo, com cotas semanais. A economia brasileira foi sendo desmantelada.
Excelente pedida para todos aqueles que apreciam uma boa e informativa leitura.
O Livro trás o contexto histórico do Brasil e conta com detalhes o passo a passo desdr o início da guerra e detalha um RJ como capital do Brasil que poucas as vezes foi possível mergulhar no dia a dia e mostrando o impacto da segunda guerra em nossos portos e a formação da Feb em muitas vezes esquecida ou pouco valorizada pela nossa história.
Destaque para todos o rastreamento de escritores e personalidades que acharam o Brasil como refúgio durante esse período.