E se a mulher que todos julgavam conhecer fosse apenas o contorno de uma vida secreta, irreconhecível, que esconde segredos capazes de mudar tudo?
Depois da morte da mãe, Teresa herda um caixote de cartas antigas, fotografias sem data e pequenos objetos de valor insignificante. Escritas ao longo de décadas por uma mulher que assina com o mesmo nome da mãe, Alice, mas que fala de amores clandestinos, lugares que a filha não reconhece, de despedidas que parecem dirigidas a alguém que não ela.
Nas entrelinhas dessas palavras, começa a desenhar-se uma história paralela à que lhe foi contada, à que viveu, àquela a que tentou a custo sobreviver: feita de omissões, de vidas vividas à margem do possível, uma narrativa subterrânea que emerge em frases soltas, por vezes, desconcertadas, que despem uma desconhecida.
No regresso à casa da infância, Teresa procura reconstituir a figura da mãe: quem foi esta mulher antes de se deixar domesticar, antes de ceder o corpo e a linguagem ao papel de esposa e mãe?
Na ressonância das cartas que percorre, Teresa descobre o que acontece quando o amor não cabe na vida que se escolheu viver.
Susana Amaro Velho é licenciada em Jornalismo e Solicitadoria. A leitura e a escrita são as suas grandes paixões e a sua vida mudou quando decidiu escrever para ser lida e não apenas para si. Afinal, foi John Lennon quem disse: «Um sonho que sonhes sozinho é apenas um sonho. Um sonho que sonhes em conjunto com outros é realidade.»
É viciada em salame de chocolate, não passa sem café e odeia azeitonas. Nunca sai de casa sem um livro na mala e tem um caderno na mesa de cabeceira.
Vive em Mafra com o marido e os três filhos.
Tem quatro livros publicados e um quinto em co-autoria.
As Últimas Linhas Destas Mãos é o primeiro romance de Susana Amaro Velho, e conquistou-me desde as primeiras linhas. Apenas o baixei por causa da oferta da Coolbooks na semana passada, em que poderíamos baixar um e-book de graça. Não sendo fã do formato, ainda assim aproveitei para explorar um pouco do que anda a ser escrito em Portugal, para além das intrigas políticas (e o Vaticano) e dos romances históricos que parecem em ebulição. Não posso negar, também, que o livro me recordou, de modo muito íntimo, o meu próprio O Funeral da Nossa Mãe. A premissa parece-me semelhante, e no entanto a abordagem é diferente. Limpa, clara, plena de vocabulário que enternece e embala. Contudo, a dor está lá: a de uma mulher e a de uma mãe ausente, que sofre, que ama, que segue morta em vida, apesar de constantemente reclamada pela maternidade, que desertou.
Para mim, ler este livro foi regressar às páginas que escrevi há sete, oito anos. Ao sentimento de agonia constante que andava comigo pela rua. À atenta absorção de Big My Secret, da banda sonora de O Piano. Um amor enorme, que mata. E acrescentam-se aqui outros pormenores que me parecem quase íntimos, quase meus. A mãe que se retira do seu papel, e a irmã que o assume com mais ou menos dificuldade, por ex.
”Tentei que a vida seguisse normal sem ti, mas o abismo sugou-me primeiro as pernas, depois os braços, depois as mãos e até os dedos.”
O amor é uma coisa terrível. O amor que corrói porque não é correspondido, ou não floresce, ou não cura, é como um cancro.
Neste romance de estreia, a autora pegou nas perspectivas de várias personagens para elaborar um quadro familiar. Teresa destaca-se um pouco das restantes, porque parece ter sido, de todos os que têm voz, a que se recorda da outra face da mãe. A não-deprimida, a não-morta em vida. E porque a mãe parecia confiar nela, mais do que em qualquer outra pessoa, para confessar os motivos da sua amargura. Além de Teresa há o irmão mais novo, Henrique, o pai Sebastião, a tia Cristina e a solitária Alzira. Cada um com a sua personalidade marcada, o seu grau de conhecimento dos factos, o seu papel na história.
Alice, sempre ausente, excepto pelo seu próprio punho, é um vulto nítido, outrora luz, vivacidade, criatividade. De súbito caída em desgraça. A sua lucidez tem tanto de angustiante quanto de admirável, e a única conclusão possível é, de facto, a de que demasiado amor mata.
A narrativa é poética, multiplicam-se os substantivos; tinha saudades de um livro mais sobre o substantivo do que sobre o adjectivo. Reflectindo sobre isso, há pouquíssimos adjectivos no livro, o que só por si me transporta de quadro em quadro, de imagem em imagem, dando-me a oportunidade de catalogar cada borrão como bem entender.
"Estava sentada no terraço a ler um livro e, de repente, todos os romances eram sobre ti. Todas as músicas do mundo eram sobre ti. Todas as histórias de amor o seriam. (...) Era viva, aí. Sumo de laranja natural. Torrada com mel. Livros. Fotografia. Jornalismo. Casa de campo. Mãe viúva. Guerra. Ultramar. Animais. Música. Pouco tempo. Muita vida (...)"
Um livro multidimensional, onde as personagens são palpáveis, os seus sentimentos extrapolam as páginas, os sentidos são estimulados pela mãe que cheira a arroz doce e a tia que cheira a cigarro, e o grande amor, que tem sinais nas costas, e Alice, que tem sardas no nariz. Magnificamente bem conseguido na simplicidade e coesão com que nos traz esta aflição, e com que retrata os tempos de luz e de esperança. Uma dicotomia cruel. Um retrato de família belo e inquietante, que transborda de emoção e que, sem dificuldades, nos leva à essência de cada personagem e de nós mesmos. Sobre a queda e sobre a superação. Uma escrita poética, que apetece sublinhar, tirar apontamentos. Dei por mim a repetir a mesma frase na cabeça, e a cada vez parecia-me mais bela, mais verdadeira. De uma modéstia desarmante. Isto sim, é a literatura a exacerbar a beleza de uma língua, com uns modos despretensiosos que lhe cai muito bem.
É um amor perpétuo, como a prisão. É como um crime passional, condenada que estou a viver com ele para sempre. Às vezes, o meu amor é hipocondríaco. Age como um doente terminal. Tem neuras, tem birras. Tem dores de barriga, de peito, de coração. É um amor tão grande que vive aqui dentro que, nos dias em que o diagrama me sobe ao pescoço, sinto um pânico de entrar em pânico. Fico na dualidade do que é gerir o amor e este tropel. Quanto mais mergulhamos no caos, mais amamos. Quanto mais intensos são os dias e as emoções, mais corremos o risco de nos estatelarmos de tão bambas que estão as pernas. O meu amor é assim. Confuso e perfeito aos meus olhos. Caminha em bicos de pés, por vezes. Noutras, corta-se em estilhaços de vidro.”
Se procuram uma nova autora portuguesa com um talento ímpar, estejam atentos a esta.
Revisitar este livro, oito anos depois da sua publicação, foi um processo curioso: encontrei-me em tantas linhas, acordou memórias, nem todas felizes. Já não sou quem as escreveu em 2008, quem as releu e trabalhou em 2016, quem as viu editadas e juntou cento e vinte pessoas numa sala — estava grávida, chorei e culpei as hormonas — em 2017, aquando do seu lançamento.
Agradecerei, sempre, a oportunidade que me foi confiada na primeira edição.
Escrevi este livro porque a mãe de uma amiga de infância, de quem era próxima — ensinou-me a fazer piza no micro-ondas, levou-me pela primeira vez à Baixa, e ofereceu-me livros, Sobrei da História dos Meus Pais ainda vive na minha estante — se suicidou em 2008, deixando-me consternada, duas filhas despojadas de colo, um sem número de dúvidas que, aos vinte e dois anos, assumem particular peso já que a vida grita, tudo é intenso e definitivo. Não procurei, com Alice, dar-lhe um motivo, mas sei que na perda do amor, na ausência de respostas e na imensidão que a mágoa pode assumir, incompreendida e por vezes discreta, estas histórias se cruzam.
A todas as Graças, Alices, mulheres e homens que pela vida fora se arrastam escondendo as suas dores, presto assim homenagem.
O primeiro romance da talentosa romancista Susana Amaro Velho, onde a sua voz própria já se destacava, e que está ainda mais presente nos livros publicados entretanto, Inquieta e Bairro das Cruzes, pela Aurora.
Espero que este livro volte a ser publicado, os leitores merecem ler esta história.
«Estive mais focada na escrita belíssima de Susana Amaro Velho e nos pensamentos que foram surgindo ao longo da leitura. Gosto muito de livros que me fazem avaliar a minha própria experiência de vida, e que me fazem vestir a pele das personagens, e esta história teve esse poder.»
"Podes não acreditar mas tive toda uma vida antes de tu existires" Disse-o uma vez ao meu filho, quando questionada sobre namorados. Ele olhou-me como se me tivesse crescido uma segunda cabeça. Sejamos produto de uma família feliz ou infeliz, unida ou separada, temos sempre dificuldade em encaixar que os nossos pais, assim como nós, tiveram aventuras, amores, desamores e um sem número de segredos que são parte integrante da sua vida antes sequer de sermos uma ideia quanto mais uma realidade.
Teresa só conheceu uma sombra pouco delineada do que era realmente a sua mãe Alice. Contudo, por vezes, já tarde demais quando revelamos contornes que mudam para sempre a nossa maneira de ver os que nos rodeiam e que julgávamos conhecer. Mas será alguma vez tarde demais para saber o que se esconde no passado? Para saber a verdade? Para perdoar? Opinião a ser publicada na sua totalidade no Efeito dos Livros
Tendo já lidos todos os outros livros de Susana Amaro Velho, faltava-me o seu primeiro, agora reeditado e publicado em 2025.
Na minha alma, nada é mais importante, mais sagrado, do que os filhos, daí que a premissa foi, para mim, logo à partida, chocante. Mas decidi não julgar Alice, no decorrer da leitura. Aprendi há muito que "nem sempre, nem nunca". Afinal, como diz a autora, talvez não se morra de amor, talvez se vá morrendo nele. Alice é o espelho e a culpa de escolhas infelizes. Não são os julgamentos dos outros que me incomodam, mas sim os meus.
A história vai sendo contada de diferentes pontos de vista, pelas várias personagens, o que funcionou muito bem. O enredo prendeu a leitura durante todo o livro, apesar de ter ressalvas relativamente ao tema central. A escrita de Susana Amaro Velho agarrou-se a mim como uma lapa. A autora utiliza as palavras como um encantamento, escrevendo com uma prosa belíssima, quase um tributo à lingua portuguesa. Um livro que merece ser lido.
As últimas linhas destas mãos de @susanaamarovelho Era para ter sido lido assim que chegou cá a casa (em outubro de 2025), mas acreditava que seria um livro de sofrimento e, nem sempre estou preparada para uma leitura destas 🥹 A autora já faz parte daquele “montinho” de autores que compro sem saber do que fala o livro e, são sempre apostas ganhas. Li os 4 livros já editados, todos completamente diferentes. Histórias passadas em tempos mais ou menos próximas do “nosso” tempo, mas com uma coisa em comum, em todas as histórias há mulheres fortes, resilientes, que ultrapassam as suas dificuldades… nem sempre da forma mais usual, mas da forma que a personagem “escolhe”, e fazem sempre tanto sentido. No fim das histórias da Susana fico sempre com a sensação que conheço aquelas pessoas, que vou deixar amigos dentro do livro, é uma sensação triste e libertadora ao mesmo tempo (desculpem a divagação, deve ser das férias estarem a terminar 😁). “Eu, colecionadora de abandonos, tive vários numa só vida - o real, o faz de conta, o que se aceita, o que nunca nos liberta, o dos filhos, o do marido. E o que resta? Menos asas.” Aqui vamos conhecendo a história de Alice através de pequenas notas e cartas que deixou à sua filha. Cartas sem data e que descrevem situações que ninguém conhece! Serão delírios de uma mulher presa na sua própria cabeça ou acontecimentos vividos e escondidos de todos? Não vou entrar em pormenores, é um livro contado a várias vozes, com várias interpretações da mesma realidade. Uma história de amor e de muito sofrimento. Será uma história de loucura ou de incapacidade de viver com as escolhas feitas? Alice e Teresa, mãe e filha, ou terá sido (quase) sempre ao contrário?
4.5🌟 A Susana já é uma das minhas escritoras favoritas!! Se não tivesse lido o "Descansos" seriam 5 🌟. Este livro é cheio de sentimentos e emoções...dei por mim mais do que uma vez a fazer uma pausa para pensar... Até que ponto alguém faz parte da nossa vida, mas já "não está connosco"? E se essa pessoa toma uma decisão mais "radical", perdoamos, revoltamo-nos?? Este livro veio lembrar-me que na origem de tudo está o amor, não só o romântico mas todo o tipo de amor, que dedicamos aos outros...é que vai afectar a nossa vida e as nossas "escolhas" para sempre... Recomendo muito!!! (Qualquer livro da Susana!!!🤗)
Queria ler o primeiro romance de Susana Amaro Velho desde que li o seu “Inquieta”. E, apesar de ser o primeiro livro, reconheci nele a impressão da escrita da autora e conquistou-me desde as primeiras linhas, ainda que a Susana diga que “ Já não sou quem as escreveu em 2008.” É um livro diferente dos que escreveu depois, mas a narrativa sensível e com uma grande dose de realidade a que nos habituou está lá. É um livro que retrata de forma muito inteligente como o amor pode matar. Pegando na perspetiva das várias personagens, a autora vai compondo os retalhos como se estivesse a tecer uma manta, o que nos dá a perspetiva completa de quem foi esta mulher que desiste de viver nas primeiras páginas e a forma como um amor tão intenso e as escolhas que fez ao longo da vida tiveram implicações na vida de todos os que viveram com ela. Percebo agora que a capacidade para construir personagens e escrever de forma envolvente sobre temas fortes está lá desde o primeiro livro, e que a Susana só tem aprimorado essa construção. São personagens cheias de realidade, numa narrativa onde as relações familiares complexas são o fio condutor. Neste livro, confirmo que a Susana escreve sobre realidades que podiam ser a nossa ou a do vizinho do lado, sempre com uma abordagem muito perspicaz e sensível às questões de saúde mental, e esta identificação com as situações e as personagens prende-nos à narrativa. Agora que já li todos os livros da autora, fico à espera do próximo! 😉
Esta autora tornou-se uma pessoa debaixo de olho, depois de ter lido o seu livro mais conhecido e ter simplesmente adorado… este livro também achei bastante curioso e com uma premissa inspiradora, mas não gostei tanto como o bairro das cruzes… achei a história mais lenta e um pouco repetitivo.. contudo, venham mais livros da autora :)
A leitura prende-nos desde a primeira página. Intenso e inesperado. Com um excelente enredo, a escritora consegue-nos transmitir os locais, personagens e emoções de uma forma extraordinária. Recomendo.
A mãe de Teresa, Alice, suicida-se e deixa à filha uma carta onde lhe dá a conhecer cartas antigas, de um amor, e lhe pede para contactar o seu pai,para que este saiba que ela sempre o amou. A narrativa vai intercalando entre capítulos narrados por diversas personagens que se relacionaram com Alice, e com as cartas de amor escritas por esta. Uma história dura e crua, de uma mulher que tem uma depressão profunda, causada pelo fim do seu grande amor, que a levou a uma apatia extrema, completamente desligada da vida, não só da sua filha Teresa, mas também dos dois filhos mais novos. E sentimos as duas dores. A dor da mãe, a sofrer de amor, mas também a dor de Teresa e dos irmãos, que sofrem com esta falta de amor, de carinho, da mãe. E com as várias perspectativas das personagens, conseguimos conhecer e compreender melhor Alice. Uma escrita simples mas poética, que nos transporta para dentro da história, história essa, que tal como já referi, é dura e muito sofrida. Um livro que mexeu tanto comigo!
E se já tinha curiosidade em ler o seu livro mais recente, o Bairro das Cruzes, depois desta excelente experiência, ainda mais vontade tenho!
Adorei. Intenso, bem escrito e verdadeiro... Uma surpresa muito agradável. Li este livro por indicação e ainda bem que o li. "Tudo tem um fim. Tudo na vida, um dia, terá um fim. A infância. A juventude. A idade adulta e a velhice. O amor." • "Podemos, sim, morrer de amor."
Se há livros que nos conquistam pela força das palavras, que nos emocionam e que desejamos muito que não terminem, este é claramente um desses livros . A autora escreve com uma sensibilidade rara, as suas palavras têm peso e leveza ao mesmo tempo, conduzem-nos a uma narrativa que queremos saborear e ler devagar.
Aqui são abordados temas universais e intensos, tratados com uma contenção elegante, onde cada frase soa quase como uma melodia. Há equilíbrio entre emoção e poesia que transforma a leitura numa experiência íntima e profundamente humana.
O jogo de vozes narrativas é um dos pontos que mais me fascinou: a perspectiva de cada personagem, revelando verdades escondidas, o que acrescenta profundidade e empatia, fazendo-nos compreender melhor as motivações e as feridas de cada um.
Este livro é uma reflexão sobre a forma como o amor pode deixar marcas, uma narrativa sensível e poética sobre identidade e o poder das palavras que ficam nas entrelinhas. A autora realça a ideia com que fiquei depois de ler “Descansos”, uma escrita única e que se destaca entre as vozes mais delicadas e intensas da literatura portuguesa contemporânea. Um livro simplesmente maravilhoso!
Teresa tinha dois irmãos, mas dos três, a única que ainda conheceu a sua mãe Alice foi ela, a sua mãe que cheirava a arroz doce, mas que quando se chateava com ela passava a leite-creme queimado. Mãe essa que desistiu de viver, que deixou que a tristeza lhe fechasse o coração e lhe matasse a Alma, vivia numa depressão há muitos anos. Alice já estava morta, ainda entes de morrer.
A última carta que Alice escreve antes de morrer é para Teresa, mas todas as que deixou escritas foram para o seu grande amor. Mas há outra carta que Alice deixa enviada e que vai virar toda a família do avesso. 🤫
Alice, de dia vivia a cantar, fazia biscoitos de canela e apanhava flores, mas de noite, de noite Alice só chorava madrugada dentro. Foi assim que Sebastião conheceu Alice, nos seus altos e baixos, nem quando ficou grávida de Teresa melhorou, porque o problema já vivia na sua Alma. Mas este amor não aguentou a histeria e a apatia em que Alice se transformou.
“… como é que alguém, de uma graça e frescura que fascinam, consegue ir desenterrando de dentro de si, do mais profundo de si, as piores sombras.”
Tal como me disse a Susana, este “é mesmo uma história de amor à Cláudia. Controla as lágrimas quando leres as cartas da Alice”, e ela tinha TODA a razão! 🤭
Não vos posso contar muito mais, mas para quem conhece a incrível escrita da Susana, já sabe que nem tudo o que parece é, e que vamos à espera de uma coisa e encontramos outra, que nervos até terminar de o ler!
Conseguiremos enterrar de verdade uma pessoa enquanto não a perdoarmos?! É isto que a Teresa nos vai mostrar. Porque podemos viver ao lado de uma pessoa a vida inteira e efectivamente nunca a conhecermos.
O “velhinho” foi escrito em 2010 e editado em 2017, infelizmente já não está à venda. Mas procurem em 2.a mão, peçam emprestado, qualquer coisa, mas leiam-no!!! O meu, descobri-o nas estantes da minha irmã e roubei-lho!
Que história de Amor maravilhosa! Quando percebes que a tua vida poderia ter tido um final feliz mas já é tarde de mais para fazer alguma coisa! Que linhas estas… 📝 Adorei. Clau ♥️
A Susana tem o dom raro de escrever tragédias com uma beleza desarmante. Em ''As últimas linhas destas mãos'', ela expia as dores de uma mulher aprisionada numa vida que nunca escolheu, uma existência moldada pelo medo de desiludir, pela opressão de uma sociedade patriarcal e fechada, ainda antes do 25 de Abril.
Mais uma vez, a autora explora com mestria os meandros das relações familiares, os segredos que escondemos e a vida que os pais têm para além dos filhos. A depressão e as suas origens conduzem-nos numa viagem pela vida desta mulher e pelas consequências das suas escolhas, tanto na sua própria vida como na das pessoas que a rodeiam. Escolhas essas que nascem da forma como a sociedade vive e daquilo que é moralmente aceite.
São sonhos reprimidos, um amor intenso mas impossível aos olhos dela. Uma dor permanente, constante e quase palpável em cada palavra das cartas e dos diários que vamos lendo ao longo do livro.
A escrita da Susana neste seu primeiro romance lembra o que nos deixou em Descansos: uma prosa embelezada pela poesia e pelos textos, por vezes quase oníricos, de Alice, que me fizeram ler devagar, saboreando cada página. Uma nota especial para a belíssima referência ao poema “Contigo”, de Eugénio de Andrade.
O mistério demora a infiltrar-se no leitor, mas quando acontece, ficamos irremediavelmente presos à narrativa até ao fim. A forma como a trama nos é apresentada, através da narração na primeira pessoa de várias personagens, enriquece o texto e permite-nos ver a mesma mulher sob diferentes prismas, revelando os valores, os princípios e as feridas de cada uma das vozes que a contam.
Mais uma vez, a história do país e os costumes da época entrelaçam-se com a vida das personagens, tornando a narrativa ainda mais profunda e humana.
Gosto de ler a Susana porque sei que, em algum momento, ela me vai quebrar, e porque me obriga a um exercício imenso de empatia com as suas personagens. Este livro não foi diferente, conquistou-me devagarinho, mas terminei em lágrimas, com uma vontade imensa de abraçar a Alice.
“Eu, colecionadora de abandonos, tive vários numa só vida - o real, o faz de conta, o que se aceita, o que nunca nos liberta, o dos filhos, o do marido. E o que resta? Menos asas. Aspirações nulas. A perda da jovialidade. Mais dependência num falso revés de maturidade: quem é a criança? Quem é a mãe? Onde se invertem os papéis, o laço da sobrevivência se solta, a rutura é alívio ou delírio?” - Alice Monforte
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“… pesa mais a ausência viva de alguém do que a sua morte definitiva.” - Teresa Monforte
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“Quis guardar-te, quis guardar-te como quem guarda uma fotografia dentro de um livro, mas rasguei-a não sei porquê, rasguei-a, e voltei a colá-la com fita-cola, cheia de vincos, cheia de falhas como nós, entre páginas que não se abrem, não por esquecimento, mas por medo, medo de desfazer o que ficou intacto, medo de tocar na ferida e ela sangrar. Saíste sem pressa, trancaste a porta, deixaste-me no alpendre, o cão ao meu lado, e não voltaste, e eu não te segui, não por orgulho, não, não, não, mas porque aprendi - ou finjo que aprendi - que amar é aceitar que já não sou o lugar em que queres estar, queremos?, mas ainda sou, ainda sou esse lugar, e tu já não existes nele.” - Alice Monforte
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“… também te escrevo, para que saibas ler os outros, sentir os outros, tocar os outros, e perdoá-los, especialmente perdoar. Para que expliques aos que se cruzam contigo com que linhas se costuram as dores herdadas. Sinestesias, meu amor, sinestesias.” - Teresa Monforte
As Últimas Linhas Destas Mãos é o romance de estreia da @susanaamarovelho publicado pela primeira vez em 2017 e recentemente reeditado pela editora @casadasletraslivros com nova capa.
Comprei o livro assim que saiu, sem ler a sinopse, apenas por ser da Susana. A escrita desta autora conquistou o meu coração tornando-se uma das minhas vozes femininas favoritas da actualidade portuguesa. E este seu livro, que ainda não tinha lido, não desiludiu.
A premissa parte da dor de uma perda, a morte da mãe, e a narrativa convida o leitor a vivenciar o luto, a ambivalência entre amor, culpa, silêncio e coisas que ficaram por dizer e outras tantas por viver. O livro não descreve apenas um fim. Revela-se como uma forma de resgate, uma tentativa de reconstrução de passado e, de alguma forma, da compreensão do mesmo.
A construção da história é feita através de diferentes perspetivas e da leitura de cartas deixadas pela mãe, o que dá profundidade às personagens e cria um efeito de espelho, entre passado e presente, entre a mãe e a filha, entre o que se sabe e o que se imagina. Isso torna a leitura íntima, sensível - muitas vezes dolorosa - mas também intensa.
As Últimas Linhas Destas Mãos é mais do que um romance. É uma viagem à descoberta de segredos, silêncios e vidas que se escondem atrás do quotidiano, e neste caso, atrás de uma depressão profunda.
A escrita da Susana é poética, sensível e permite-me, enquanto leitora, sentir a dor, a culpa, o amor... de forma crua, mas delicada. Este livro desafia-nos a questionar a ideia de família, identidade e passado deixando no as perguntas: quantas vidas se perdem por nunca terem sido contadas? Quantas histórias ficam por dizer?
Já li praticamente todo o corpo de trabalho da Susana Amaro Velho , e As Últimas Linhas Destas Mãos era o único livro que me faltava. Agora que o terminei, só posso reforçar aquilo que já acreditava: a escrita dela continua extraordinária.
A Susana tem um talento muito raro com as palavras. Consegue ser delicada e devastadora ao mesmo tempo, e cada livro deixa-me completamente de rastos. Este não foi diferente. Tudo está no ponto, tudo é inconfundivelmente dela.
Embora tenha um carinho especial por Bairro das Cruzes e Descansos, As Últimas Linhas Destas Mãos é igualmente bom. Poderoso, sensível, marcante. Mais uma confirmação de que a Susana Amaro Velho é, sem dúvida, uma das minhas escritoras favoritas.
Um livro sobre uma mulher que todos pensavam conhecer até descobrirem que afinal ela escondia uma vida secreta capaz de mudar tudo.
Talvez por ser o primeiro romance da autora (recentemente reeditado), não se tornou um favorito. A história tem um ritmo mais lento, talvez por causa da escrita poética que, neste caso, me soou um bocadinho forçada.
Não lhe tiro o mérito, mas acho que entrei com expectativas altas (depois de tudo o que já li da Susana — e amei!) e este acabou por ficar um pouco aquém.