DO AUTOR BEST-SELLER DE CARTAS A UM JOVEM TERAPEUTA E O SENTIDO DA VIDA, VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2024
Em Aproveitar a vida e suas dores, somos lembrados por que o psicanalista e escritor Contardo Calligaris foi um dos grandes cronistas de nosso tempo. Nesta seleção de seus melhores textos, vemos o autor de Cartas a um jovem terapeuta e O sentido da vida – vencedor do Prêmio Jabuti 2024 – exercitar sua arte refinada da escuta do mundo com precisão e estilo, em crônicas para serem lidas sem pressa, na ordem ou ao acaso.
Com olhar atento e a curiosidade de quem nunca deixou de ser estrangeiro, sua escrita parte do cotidiano – das interações da sociedade, da cultura do cinema e da literatura, das buscas pelos sentidos da vida – para construir reflexões instigantes sobre o mundo que habitamos. Em tempos de excesso de opinião e escassez de escuta, as crônicas de Contardo Calligaris nos convidam a olhar ao nosso redor e pensar com liberdade, nos lembrando, com precisão e sutileza, que refletir é também uma forma de resistência.
"Com frequência, em conversas e entrevistas, alguém me pergunta o que penso da felicidade, obviamente na esperança de que eu espinafre esse ideal dominante de nossos tempos. Na verdade, não sei se a felicidade é mesmo um ideal dominante. […] minha aspiração dominante não é a de ser quero viver o que der e vier, comédias, tangos e também tragédias – quanto mais plenamente possível, sem covardia."
Contardo Calligaris é psicanalista e cronista italiano. Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provence, iniciou seus estudos nas áreas das letras e da filosofia. Em 1975, foi aceito como membro da Escola Freudiana de Paris, onde morou até 1989. Lecionou na Universidade Paris 8 e teve aulas com os filósofos franceses Roland Barthes e Michel Foucault, além de acompanhar os seminários ministrados pelo psicanalista francês Jacques Lacan, uma grande influência em sua formação.
Em 1985, veio ao Brasil para o lançamento de seu primeiro livro de psicanálise, Hipótese sobre o fantasma. Posteriormente, acabou fixando residência no País, onde reside até hoje. Suas reflexões se concentram na condição humana da sociedade marcada pela obrigatoriedade da felicidade, do gozo, da beleza e dos excessos. Estudioso das questões da adolescência, considera esta a etapa da vida que possui uma intensa carga cultural e que se caracteriza como uma das mais potentes fontes de energia da atualidade. A adolescência é um dos seus livros mais lidos e estudados.
Além de atender nos seus consultórios em São Paulo e Nova York, é colunista do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, no qual escreve sobre psicanálise e cultura. Publicou mais de dez livros, incluindo dois romances e uma peça teatral. Criou a série de televisão intitulada Psi, exibida no canal a cabo HBO. Foi professor de estudos culturais na New School de Nova York e professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Também faz parte do corpo docente do Institute for the Study of Violence, em Boston.
Contardo Calligaris, em seu trabalho, conduz as pessoas à reflexão sobre a existência humana, contribuindo para amenizar as angústias provocadas pelos desafios contemporâneos e pelo confronto com o outro, que pode limitar os prazeres e contradizer as certezas e seguranças.
Como quase todo livro de coletânea de textos escritos em outros lugares, é irregular na qualidade. Tem textos bem interessantes com sacadas ótimas e outros mais fracos ou datados. O Contardo Calliagris é ótimo e vale a pena pela oportunidade de aproveitá-lo mais um pouquinho.
Um livro com algumas crônicas memoráveis, muitas outras, nem tanto
Nunca fui muito afeito a livros de crônicas. Na verdade, lembro que um dos primeiros que comprei era do próprio Calligaris, chamado "Quinta coluna", pela companhia das letras. Livro que doei ou emprestei sem jamais ter terminado. Mas como o Contardo é um escritor que hoje me dá muito gosto de ler - e especialmente agora depois de ter lido o provocante "O sentido da vida", achei que valeria resgatar suas reflexões e ensinamentos neste breve apanhado de artigos que ele redigiu à Folha de São Paulo.
Bom, posso dizer que as primeiras crônicas são instigantes, muitas delas tomada pelo mesmo furor que senti ao ler o livro supracitado. Com ressalvas. Na crônica que dá nome ao livro "Aproveitar a vida e suas dores", o autor corre no erro crasso de igualar busca do prazer à qualquer custo como felicidade, como ele nos aponta que
"se alguém levasse a busca da felicidade à sério, se drogaria, e não com remédios nem substâncias de efeito incerto e insuficiente: só crack ou heroína - tiros certeiros".
Bom, estou suficientemente informado sobre sua leitura da eudaimonia (felicidade, em grego) que em algum momento do seu penúltimo livro ele equivale ao hedonismo para saber que um anestesiamento à qualquer custo, por mais prazeroso que seja, vai completamente na contramão de seu argumento de que a felicidade no melhor sentido só é possível de ser desfrutada com atenção plena e presença no mundo, não na fuga dele. Agora, se o uso indiscriminado de drogas recreativas é fuga da realidade ou um aprofundamento dela mesma, é uma questão que vale ser examinada em pormenor (como na minha resenha deste ano sobre Drogas para Adultos, de Carl Hart). E aqui levo muito a sério suas palavras, como o mesmo gostaria, para apontar essa contradição fundamental na saída de seu argumento. Fechando esse parêntese, o artigo segue com ótimos insights sobre a perda e o luto, como "por que uma vida não se bastaria, mesmo que não sobre nada e, a médio prazo, ninguém se lembre?"
O segundo momento que Calligaris me faz torcer o nariz é no seu ensaio "Um fim possível do ressentimento", quando versa sobre os anos 60 e o tema da desigualdade. Reproduzo o trecho na íntegra.
"Outro dia, fui convidado a participar da comemoração dos dez anos da Empiricus - Publicações Financeiras. Escolhi tratar um pouco o dilema clássico dos últimos anos: a dificuldade de nossas sociedades é a desigualdade (como parecemos acreditar desde que Piketty publicou O capital no século XXI) ou é a pobreza - seja qual for a desigualdade? Cheguei à conclusão de que a desigualdade só é relevante porque, desde o começo do século 19, grosso modo, Nietzsche se confirma: o sentimento social dominante parece ser o ressentimento. A ponto que toda esperança revolucionária está atrelada à esperança de uma revanche: os de baixo se mudarão para o andar de cima."
Me parece nesse ponto mais claro à qual ideologia o autor se identifica. A despeito de toda inspiração que ele me produz no seu pensamento analítico, ele acusa sem meias palavras seu potencial viés neoliberal (será por que está nesse ponto da vida muito velho e amargurado com o pensamento revolucionário dos anos sessenta, que ele não cansa de colocar num pedestal no escrito?), entendendo a luta pela igualdade financeira como um revanchismo, ao invés de uma utopia potente da igualdade radical entre todos.
"Que tal se a verdadeira revolução pouco tivesse a ver com uma revanche, mas consistisse em cada um descobrir nele mesmo as condições de realizar quem ele é?"
Que tal se cada um ascendesse economicamente a partir de um argumento vago e infundado sobre uma meritocracia injusta e ontológica do ser que é burguesa? Pois é exatamente isso que para mim o artigo suscita.
Finalizando, menções honrosas menores. O seu ensaio sobre o narcisismo, que começa com outro transtorno ("meus pais são bipolares"); "Excesso ou falta de sentido?": todos ensaios que tratam de reflexões filosóficas sobre uma transcendência e ausência de sentido são provocantes e igualmente interessantes. "A favor do tédio", faz uma elegia ao sentimento que hoje quase não nos permitimos sentir, tamanha nossas distrações, resgatando "o pássaro que choca os ovos da experiência", no pensamento benjaminiano. "Riscos de morte e riscos de vida", ensaio que trata da vida de uma psicanalista que escreveu sobre o risco de se estar vivo mas cujo livro que ele cita só existe em francês, por enquanto.
"Conheci" Contardo Calligaris, primeiro, por meio de um curso da Casa do Saber. Depois, li seu livro "O Sentido da Vida".
Acho o autor sensacional! Ele provoca o leitor, e às vezes, também o ironiza, mas sempre entrega profundidade e sentido nos seus textos. Mistura psicologia com filosofia e literatura. Incrível.
Apesar desse meu fascínio pelo autor, o livro "Aproveitar a Vida e suas Dores" não me prendeu muito.
A obra é uma coletânea de crônicas, e elas são muito boas, na verdade. Mas para um autor que sempre tem tanto a ensinar, senti que textos curtos deixam a desejar. Eu terminava cada crônica com uma curiosidade imensa, querendo "ouvir" mais, saber mais.
que privilégio sempre é poder ler calligaris. um dia quero poder ter alguma fração de toda a sabedoria e repertório que ele teve. como a própria ana suy coloca no pósfácio, ler calligaris é se nutrir existencialmente. um livro pra ficar junto, na cabeceira, e ler sempre que se desejar alguma vida a mais. uma escrita que sempre me lembra do risco de viver.