Conheci o Vinicius Fernandes pelo livro Caminho Longo, que só existia em formato ebook pela Amazon e estava disponível pelo Kindle Unlimited, e me apaixonei pela forma como ele constrói histórias com protagonistas LGBTQIAP+ com tanto cuidado e verdade. Depois veio Não Quero Ser Como Você, seu primeiro lançamento físico, que também me encantou demais — tem um plot twist muito bom, inclusive. Mas então veio O Garoto no Alto da Torre, que mesmo me fazendo chorar, me decepcionou com uma história que apelou pra caminhos que não me agradaram. Fui pra esse livro com o coração na mão, torcendo pra recuperar aquela sensação dos primeiros livros. E foi exatamente o que aconteceu.
Todas as Pequenas Coisas é uma história de amor entre Lorenzo Mendes, estudante de desenvolvimento de jogos, e Conrado Dias, cantor que Lorenzo encontrou — ou melhor, ouviu— pela primeira vez dentro de um vagão de metrô de São Paulo, onde Conrado fazia uma apresentação e passava com o chapéu coletando gorjetas. Lorenzo se apaixonou pela voz antes de ver o rosto, e quando os dois se reencontram no elevador da faculdade que dividem sem saber — cursos diferentes, mas o mesmo prédio — o universo deixa claro que aquilo não era coincidência.
Mas a história não começa nesse momento bonito. Começa no Ano Novo, dois anos depois, com Conrado terminando o namoro no exato momento em que os fogos iluminam a praia. A partir daí, acompanhamos Lorenzo tentando reconstruir os pedaços — com a ajuda da sua melhor amiga Michele (uma ajuda essencial nesse momento caótico que Lorenzo enfrenta emocionalmente) — enquanto o livro oscila entre o presente e o passado, nos mostrando como esse relacionamento foi construído, memória por memória.
E que memórias. A viagem de avião pra cidade natal de Conrado, onde Lorenzo segurou a mão do cantor — que nunca havia voado e estava apavorado — durante todo o voo. O lançamento do primeiro single em rede nacional — uma música chamada "Existe Amor no Metrô de SP", inspirada exatamente em como os dois se conheceram, que Lorenzo ouviu junto com o resto do mundo sem imaginar o que aquela música significava e nem que seria sobre eles. A carreira meteórica de Conrado e Lorenzo sempre no camarote, sendo o fã número um. O luto pela perda do pai de Conrado, e Lorenzo sendo seu suporte em cada segundo. O autor constrói esse relacionamento de uma forma tão gostosa e tão real que quando a dor do presente aparece, ela dói de verdade.
O que eleva tudo isso a outro nível é o cenário que o autor escolheu como pano de fundo: o mundo está a caminho de um fim iminente e anunciado. Com o apocalipse se aproximando e o tempo literalmente diminuindo a cada capítulo — nove meses viram seis, seis viram dois, dois viram uma semana — Lorenzo e Conrado precisam decidir o que fazer com o tempo que lhes resta. E é nessa urgência que a história encontra sua alma. Cada escolha passa a ter um peso diferente. Cada momento ganha uma intensidade que aperta o coração.
O que mais me impressionou foi a consistência absoluta da narrativa. Nada surge do nada, nada é esquecido, nada deixa de fazer sentido. Cada personagem tem seu propósito, cada detalhe plantado lá atrás aparece de novo no momento certo. A Michele, melhor amiga de Lorenzo, e a Samantha, empresária que descobriu Conrado num barzinho e impulsionou sua carreira — ambas têm suas próprias jornadas que se entrelaçam com a história principal de forma natural e significativa.
Lorenzo é um personagem que carrega muito além do término do namoro. Ele foi rejeitado pelos pais religiosos depois de se assumir gay, e essa ferida aberta aparece ao longo de toda a história de uma forma muito honesta e dolorosa. Ao mesmo tempo, é um personagem que aprende — a se colocar em primeiro lugar, a gritar, a sentir, a viver de verdade ao invés de apenas existir.
E Conrado. Carismático, romântico, apaixonado por música de verdade, mas também frágil, confuso, e capaz de tomar decisões erradas por razões que a gente entende mesmo sem perdoar de imediato. A forma como o autor o reconstrói ao longo da narrativa é um dos pontos mais bonitos do livro.
O que funcionou perfeitamente:
- A construção do relacionamento entre Lorenzo e Conrado, antes e depois do término
- O cenário apocalíptico como catalisador emocional — o fim do mundo encurtando o tempo deles é devastador
- A consistência da narrativa: tudo faz sentido, tudo tem propósito
- Os personagens secundários, especialmente Michele e Samantha, que têm sua própria história linda
- O protagonismo LGBTQIAP+ tratado com cuidado e naturalidade
- Um final que equilibra tristeza e esperança de uma forma que poucos livros conseguem
Pontos de atenção:
- Tem cenas emocionalmente pesadas, especialmente envolvendo rejeição familiar
- Se você não curte finais em aberto ou ambíguos, esse pode te incomodar
- Prepare os lenços. Sério.
Vinicius Fernandes me reconquistou completamente com esse livro. É o tipo de história que te lembra por que você lê — pra sentir, pra se ver nos personagens, pra sair diferente do que entrou. Lorenzo e Conrado me ensinaram que não é sobre ter tempo suficiente. É sobre o que você faz com o tempo que tem, e com quem você escolhe estar.
Recomendo para: quem curte romances LGBTQIAP+ com profundidade, histórias que mesclam amor e fim do mundo, leitores que não têm medo de chegar no final com o coração partido e cheio ao mesmo tempo, e qualquer pessoa que precise lembrar de viver enquanto ainda dá tempo.