《Uma traça fria e peluda num coração assustado. Essa traça foi minha companheira constante.
Aprendi cedo que o lugar mais seguro pode ser o mais perigoso. E que, mesmo quando não é, sou eu que o torno assim.》
Estranhamente perturbada pela morte de uma mãe que pouco tinha de exemplar ou presente, Arundhati Roy resgata a figura da mulher que conhecia por Mary Roy para procurar explicar não só a resistência dos vínculos maternais e filiais, mas também a sua própria resistência enquanto mulher, escritora, ativista, arquiteta e mãe. Reconhecendo em si facetas hereditárias e culturais herdadas do modelo familiar, Roy procura fazer as pazes com o passado isolando os seus elementos:
《Mrs. Roy não era de todo hostil ao comunismo.(...)No entanto, era eclética. Também me ensinou Shakespeare, Kipling e A. A. Milne. Leu-me partes de Ascensão e Queda do Terceiro Reich. E o início de Lolita.(...)Tinha uma voz grave e forte, sem hesitação ou dúvida. Cantava Ol' Man River», de Paul Robeson, e falou-me da escravatura e dos barcos de escravos que subiam o Mississípi.
[...]
Entre crises de raiva e violência física crescente, Mrs. Roy dizia à filha que, se se dedicasse, poderia ser o que quisesse. Para a filha, essas palavras eram uma boia de salvação que a mantinha à tona em plena escuridão, correntes selvagens e um turbilhão mortal.》
Fazer as pazes não deixa de ser uma expressão curiosa para aplicar à escrita de «Meu abrigo, Minha tempestade», uma vez que estas memórias não dão tréguas à sua autora, fazendo-a reviver os momentos de exclusão, isolamento e humilhação que vieram de mãos dadas com ser filha de uma mulher independente, empreendedora, destemida e audaz. Porque Mary Roy era todas essas coisas. Professora e diretora da escola que ela mesma fundou, proprietária de terras, feminista, defensora das mulheres e senhora de grandes causas que persegue sem descanso, tudo numa Índia patriarcal, fraturada por questões políticas e religiosas, e fundamentalismos que empurram as mulheres para a periferia silenciosa. Mas também mãe ausente, abusiva e emocionalmente distante:
《Para garantir que as outras crianças não sentissem que eu e o meu irmão éramos de alguma forma mais especiais do que elas, tínhamos de tratá-la por Mrs. Roy em público. Como público e privado eram zonas geograficamente fluidas, nem sempre conseguíamos mudar de registo. Para nós, a escola era casa e a casa era escola, por isso nos enganávamos amiúde e, por vezes, também lhe chamávamos Mrs. Roy em privado
- «Desculpe, Mrs. Roy...»
Para mim, continua a ser mais Mrs. Roy do que mãe. Ela achava necessário demonstrar que não tinha favoritos, por isso era especialmente punitiva connosco, os seus próprios filhos. Muitas vezes éramos castigados por coisas que outros haviam feito. 》
Fazer sentido de uma infância marginal, de uma juventude de experimentação e desregramento e, finalmente, de uma consagração profissional à luz da sua história familiar, como o faz Arundhati Roy, é algo que nem todos de nós estão prontos a consentir. Assumir-se produto, positivo e negativo, da sua cultura, da sua educação e afinidades é uma revelação demasiado agridoce:
《Tal como a maioria das pessoas no mundo, então como agora, crescemos entre o grito e o silêncio. Alguns formaram uma opinião própria, outros receberam-na formada por outrem.》
Esse, todavia, é o caminho deste texto. Um caminho cheio de buracos e pedregulhos, um caminho de imensas bifurcações e de altos e baixos. Um caminho que Arundhati faz atravessando continentes, rompendo com os laços familiares e matrimoniais, com o estigma de mulher, filha, esposa e mãe, para regressar ao ponto de partida:
《...enquanto Mrs. Roy estava no caixão com tampa de vidro, eu estava desfeita(...).
Era quase como se, para ela brilhar sobre os seus alunos e lhes dar tudo o que tinha, nós (...) tivéssemos de absorver a escuridão dela.
Hoje, porém, estou grata por essa dádiva de escuridão. Aprendi a mantê-la por perto, a mapeá-la, a examinar-lhe os matizes, a encará-la até que me revelasse os seus segredos. Acabou por ser também um caminho para a liberdade.》
Reconhecendo a escuridão, Roy assume a existência da luz. E sabe que é tanto do que a mãe Mary lhe deu, como do que lhe tirou, que nasceu a mulher em que se tornou - imperfeita como é:
《Não foi nenhuma grande força de carácter ou ambição artística férrea que me salvou da prisão ou de males maiores. Foi apenas o acaso, e uma série de pequenas decisões impulsivas, tomadas no momento.
Acho que tinha um serafim porreiro a zelar por mim. Especialmente, de cada vez que estava numa encruzilhada e tinha de decidir. A minha educação, a classe de onde vinha e, acima de tudo, o facto de falar inglês protegeram-me e deram-me opções que milhões de outros não tinham. Oferendas de Mrs. Roy. Em momento algum, por mais insustentável que fosse a minha situação, me esqueci disso.》
É sobre essa polaridade - mãe/mulher, boa/má - que se sustentam estas memórias. Uma boa mulher faz uma má mãe? E uma boa mãe faz uma má mulher? Como se avaliam as duas facetas de Mary Roy? E o que pesa mais na vida de uma filha?
Arundhati Roy não teve a benesse de ter uma mãe carinhosa, presente e cuidadora, mas foi educada por uma mulher corajosa, trabalhadora e temerária que se gabava de ter «alcançado o purushaprapti - o estatuto de homem», uma mulher que, numa sociedade fortemente limitativa, tudo fez para sair de sob a alçada de pai e marido, que deu aos filhos a educação e as ferramentas que os tornaram independentes e fizeram de Arundhati a mulher empática, a ativista destemida e a escritora excelsa que é.
Para que lado da balança pendem os pratos? Mulher ou mãe?
《Quando ouvia falar de mulheres em apuros ou lia sobre incidentes terríveis nos jornais, ia a hospitais e tribunais e oferecia-lhes proteção. Não se compadecia nem tentava consolar; oferecia uma opção. Se não fossem lestos a reconhecer a opção oferecida, afastava-se. Se a usassem indevidamente, se se queixassem ou procurassem piedade, expulsava-as. Não tinha nada de caridosa ou de assistente social. As suas ações nasciam de uma indignação férrea. Dava bolsas de estudo a órfãos e empregos a mulheres abandonadas ou maltratadas pelos maridos ou outros homens. Tinha uma maneira própria de confortar crianças traumatizadas pela morte de um dos pais ou avós, uma maneira de as isolar da dor antes de o golpe as atingir em cheio. O campus fervilhava de pequenos humanos de olhos brilhantes a viverem os seus dias atarefados. Era um lugar tão feliz. Muitas vezes dava por mim a desejar ser aluna dela, não filha.》
Aceitar que uma mãe possa ser uma influência tão nefasta como benéfica na vida da sua filha não será, certamente, um processo pacífico, mas acordar um dia e não ter essa essa influência por perto será um processo ainda menos pacífico de enfrentar:
《Naquela primeira noite num mundo sem Mrs. Roy, senti-me a girar no espaço, sem âncora, sem coordenadas. Eu tinha-me construído à volta dela. Crescera com a forma peculiar que sou para a acomodar. Nunca quis derrotá-la, nunca lhe quis ganhar. Quis sempre que ela partisse como uma rainha. E agora que partira, eu já não tinha sentido para mim.》
«Meu abrigo, minha tempestade», embora focado, numa primeira leitura, numa relação mãe-filha altamente insidiosa, resulta numa excelente análise daqueles que são os limites e as potencialidades da afinidade e da força matrilinear. Doloroso e pungente em simultâneo revela tanto sobre a sua autora como sobre um cultura radicada na força das tradições familiares e no culto da mãe como figura espiritual e mítica.