Em vez da cruz, deixam inscrito um espaço em «Prefiro não votar.» Grosso modo, mais de metade dos portugueses são abstencionistas. O que os caracteriza? Que motivos os levam a abster-se? Desinteresse ou protesto? A abstenção, enquanto expressão negativa, é um sinal de democracia saudável? Ou o voto, enquanto responsabilidade cívica, deveria ser obrigatório? Este retrato procura suprir uma lacuna no debate na esfera pú dá voz aos reais protagonistas do abstencionismo em Portugal. Conhecer as argumentações da maioria silenciosa que não vota revela uma dimensão mais ou menos opaca da insatisfação com o sistema político. Complementados por análises de especialistas, estes testemunhos permitem perceber melhor o fenómeno da abstenção e pensar sobre como (e se) o devemos minimizar.
Nelson Nunes é escritor. Enquanto jornalista, fez parte da redacção da revista Focus e foi produtor de programas da Rádio Renascença. Além disso, foi chefe de redacção da revista Forum Estudante e assessor do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Actualmente, é criativo na agência de storytelling True Stories. É o autor das obras Preciosa, Quem Vamos Queimar Hoje?, Isto Não é Um Livro de Receitas, Com o Humor Não se Brinca e Quando a Bola Não Entra.
Belo livro este. Um tema que só é tema na noite eleitoral e depois é colocado na gaveta 4 anos. Uma ideia que foi muito bem concretizada, falar com aqueles que "não querem ter voto na matéria."
Com a eleição presidencial a aproximar-se, eu achei que isto poderia ser uma leitura interessante... mas não é para mim, o texto é demasiado apologético da abstenção, e eu sou alguém que julga quem não vota (quando o pode fazer).
O livro começa com uma introdução interessante, que fala das dificuldades físicas em ir votar, especialmente em meios mais rurais, de não haver uma ajuda ao acesso às urnas, especialmente quando se fala de uma população mais idosa e/ou com dificuldades motoras, mas depois nenhum dos vários relatos nesta obra retratam estas realidades.
Em vez disso, grande parte dos relatos parecem vir de pessoas mergulhadas em privilégio, que se dão ao luxo de não votar ou ignorar a política, como não fosse algo que afeta tudo neste país e neste mundo. Por outro lado, gostei bastante de um dos relatos finais, do ponto de vista de alguém que se costumava abster constantemente nas eleições, que retrata as sua razões e a atual crença em votar e na importância da política.
Este livro também coloca em destaque o debate da abstenção vs voto branco/nulo como um ato de protesto, e o livro não consegue convencer-me nem 2% da validação da abstenção... O grande ponto contra o voto branco/nulo é que o voto protesto fica confundido com alguém que desenhou algo obsceno no boletim ou com falta de atenção marcou dois quadrados, no entanto na abstenção o voto de protesto fica confundido com quem só teve preguiça de ir votar!!! E o grande ponto a favor é que a abstenção é tópico de conversa na noite de eleições, mas eu prometo que se quem se abstém decidir votar em branco - fazer alguma coisa que mostra interesse - esse valor aumenta, e nas legislativas e autárquicas, as percentagens dos vencedores também diminuem - assim sendo os votos nulos tornar-se-iam tema de conversa, eu garanto!!!
Voltando aos pontos positivos, a conclusão também está bem conseguida, traz mais dados e informação real, também uma visão mais abrangente do processo eleitoral em Portugal - apresentando mais problemas do que soluções - falando de problemas estruturais e acessibilidade, algo que eu estava mais à procura.
Para além do conteúdo não ser para mim, também tenho de dizer que a estrutura deste livro não é tão bem organizada como outros que já li da Fundação Francisco Manuel dos Santos, pelo menos no formato ebook (disponível na BiblioLED), o foco do livro aparece todo como texto corrido, em vez de estar mais seccionado que me parece mais ideal para este tipo de ensaios.
Tendo em conta tudo isto, continuo a considerar o livro 3 estrelas, consegui aprender com estas diferentes experiências, só não concordo com as mesmas, e não achei que o livro transmitiu-me o sentimento de empatia que queria que eu tivesse com a abstenção.
Li este livro de rajada, coisa que não estava mesmo nos meus planos muito menos para hoje à tarde. E talvez isso diga já alguma coisa.
Tal como o Nelson, durante muito tempo, recordo a ideia de ser necessário ter participado em todos os atos eleitorais para ser elegível presidente da república. Como se a participação democrática se medisse apenas pela presença na urna. A certa altura, caiu-me a ficha: numa democracia como a portuguesa, em que o voto é voluntário, essa obrigação é sobretudo moral, não democrática.
Depois de alguma investigação, semelhante à do Nelson, ainda que menos académica, e de muita reflexão pessoal, cheguei à conclusão de que falhar uma eleição não invalida um percurso cívico inteiro (ainda assim, confesso que cheguei a pensar que talvez pudesse “falhar uma” 😅).
Ao longo do tempo, vários fatores levaram-me a diferentes tipos de voto: já votei na oposição sabendo que o partido não teria maioria, mas reconhecendo-me em alguns dos seus posicionamentos; já votei em branco; e já me abstive. Em nenhum desses momentos foi por desinteresse. Mesmo não me considerando a pessoa mais informada do mundo, peso sempre os prós e os contras de ir votar — incluindo o impacto real na minha vida privada — e informo-me sobre os programas.
Uso também a inteligência artificial como espaço de debate ou “brainstorming” mais comigo mesma do que outra coisa, para testar argumentos, confrontar posições e perceber melhor onde me situo.
Este livro foi importante precisamente por isso: porque dá voz a quem não vota sem reduzir a abstenção a preguiça, ignorância ou indiferença. Obriga-nos a encarar o silêncio como mensagem e a aceitar que a relação com a democracia pode ser mais complexa — e mais honesta — do que uma simples cruz num boletim.
O tema é, por si só (pelo menos para mim), muito interessante: a abstenção e os abstencionistas, as suas raízes, os seus motivos e os seus impactos. Neste retrato da fundação, Nelson Nunes obriga-nos a refletir sobre o tema por via de um conjunto de histórias de abstencionistas. Podemos discordar, rever-nos ou ter dificuldades em perceber alguns dos argumentos, mas dificilmente lhes conseguimos ficar indiferentes. Para apreciar a sua leitura não é necessário estar nem de um lado (abstencionistas), nem do outro (sempre votantes). Basta ter interesse no tema e dissecar as histórias relatadas.
Já fui abstencionista a tempo parcial, colocando-me pretensiosamente do lado dos que o fazem por terem informação para tal e não por serem desinformados. Hoje não sou abstencionista. Sendo uma escolha, não me parece que não comparecer seja a melhor. Acredito que votar é a melhor forma de valorizar a democracia. Mesmo que com um voto branco, ou nulo.
Muito bem escrito e utilizando um ângulo muito interessante, este é mais um Retrato da Fundação Francisco Manuel dos Santos que vale a pena ler (e refletir). E um autor, também.
While I disagree with the theory that the majority of people don’t vote to make a statement, I found it interesting to read a fresh new perspective of why this group of people don’t vote. Interesting read on how in Portugal we can make more people vote.