RGB reuniu uma série de histórias reais de abusos e assédios e transformou-os em arte. Não para as embelezar, mas para as contar de forma a que todos ouvissem. Entre ela própria, amigas e colegas, as histórias foram tantas que não seria possível contá-las a todas.
Neste livro estão alguns desses acontecimentos, intercalados com pequenas ilustrações daqueles atos e liberdades corriqueiras que um homem não perderia um segundo a pensar nelas. Mas uma mulher pensa uma e duas vezes antes de andar de táxi à noite, sozinha; pensa se deverá comer aquele Calipo já ou esperar até chegar a casa; lamenta o autocarro cheio onde terá de aguentar um homem encostado a si; ouvirá, sem ripostar, a piadinha do médico ginecologista ou do patrão.
Tenho consciência de que, como homem, muitas das situações descritas neste livro são coisas sobre as quais raramente penso no meu dia a dia, mas que, para as mulheres, muitas vezes implicam reflexões, escolhas e cuidados. Embora também já tenha passado por algum tipo de assédio, de forma muito mais rara e leve, sei que em nada se compara ao que aqui é mostrado como a experiência quotidiana feminina. Ler e ver sobre essas histórias e situações (algumas sobre as quais nunca tinha pensado ou refletido) faz-me relembrar como essa diferença é real e constante, algo que se vai facilmente esquecendo quando não passamos por elas.
Gostei particularmente do facto de muitas páginas não precisarem de explicar por que aquela situação é um problema para a mulher: o contexto da ilustração já transmite a mensagem de forma bastante clara.
É pena pensar que, muito provavelmente, este livro será sobretudo lido por mulheres, quando na verdade o público que mais precisava de o ler somos nós, os homens
Em 91 páginas de frases, ilustrações e histórias, contabilizo um total 32 episódios por que já passei. Provavelmente este número seria maior se tivesse estado mais atenta, se não tivesse tido tanta sorte. Acredito que outras mulheres farão o mesmo exercício mental ao folhear este livro, ainda que involuntariamente. A experiência de apenas existir enquanto mulher é para lá de exasperante. Trabalho fantástico da artista visual RGB.
A contracapa deste livro diz que todas as histórias que aqui estão são verdadeiras. Nem era preciso dizê-lo, infelizmente. Todas nós, mulheres, já vivemos pelo menos uma mão cheia destes episódios. Os outros foram vividos pelas nossas amigas, pelas amigas das amigas, pela prima. E embora algumas coisas nos aconteçam menos à medida que a idade avança, a verdade é que ainda mandamos mensagem quando chegamos...
É complicado classificar este livro. Vai com o máximo porque é necessário. Porque mesmo não tendo passado por nenhuma situação mesmo complicada, tenho noção de que sou uma sortuda. Porque ao ler foi fácil perceber que também eu condiciono as minhas ações sem quase perceber (ou percebendo muito bem, no meu subconsciente), e também eu teria uma ou duas interações menos boas para contar. O que ouvimos quase todos os dias, o muito mau, é apenas a parte pior de muito mais que passamos. E este livro tão simples, que às vezes nem de palavras precisa para compreendermos a mensagem, devia chegar a todos os homens. Porque é verdade o que se diz… não todos os homens, mas sempre um homem: o culpado das hesitações, dos medos, das interações menos boas e das muito más. Que usemos todas as ferramentas para chamar à atenção destes problemas… na tentativa de melhorar a sociedade.
Eu tenho tido curiosidade sobre este livro desde o lançamento, e a semana passada, após ouvir o novo episodio do podcast Pranchas e Balões com a entrevista com a autora, eu finalmente pedi o livro emprestado e li!! Este é um livro excelente, para uma leitura rápida, tristemente descreve uma realidade presente em tantas partes do mundo, descreve desde de momentos em que todas sentimos receio do que pode acontecer, como relatos mesmo de assédio e abuso. Acompanhado também pelo um desenho simples, com um bom uso de cor e com estilo a parecer colagens... complementa o estilo da escrita, ao não fazer o desenho demasiado especifico e personalizado, de forma que está aberto a todos. Obra extremamente necessária e esteticamente bela, um livro a recomendar!!!
«Manda msg quando chegares», de RGB, é daqueles livros que se lêem num instante, mas que ficam a ecoar durante muito mais tempo. Sendo um livro ilustrado, consegue transmitir com uma simplicidade desarmante aquilo que muitas vezes é difícil pôr em palavras: a experiência de ser mulher numa sociedade onde o medo, a cautela e a constante vigilância fazem parte do dia a dia.
As ilustrações são diretas, quase cruas em alguns momentos, mas é precisamente isso que lhes dá força. Há uma honestidade muito grande na forma como retratam situações comuns — desde pequenos gestos de autoproteção até pensamentos que muitas mulheres reconhecem imediatamente, mesmo que raramente os verbalizem.
O título, por si só, já diz muito. “Manda mensagem quando chegares” é uma frase banal, dita por cuidado, mas que carrega um peso enorme sobre o que significa viver com essa preocupação constante. O livro pega nessa ideia e expande-a de forma sensível e impactante.
Gostei muito da forma como a autora equilibra leveza visual com um conteúdo emocional forte. É um livro curto, mas necessário — daqueles que se recomendam facilmente, especialmente para gerar conversa e reflexão.
O facto de muitas mulheres (para não dizer todas), de realidades completamente diferentes, de sítios distintos, de várias idades identificarem-se com este livro diz muito sobre o mundo em que vivemos. Devia ser leitura obrigatória!
As experiências por que passam as mulheres. Triste sociedade patriarcal e misógina em que vivemos. Que haja livros como este, para colocar o dedo na ferida. Que seja um bom ponto de partida para reflectirmos sobre a sociedade em que deveríamos desejar viver...
É complicado classificar um livro destes! Extremamente necessário e escrito de uma forma tão simples mas tão complexa ao mesmo tempo! Precisamos de mais autoras que possam dar voz a estas histórias que não são só histórias, são a realidade da maior parte das mulheres no mundo inteiro.
Não há outra avaliação possível sem ser esta. Ser mulher é isto. É estas situações, constantemente. É pensamentos sobre 'fazer x coisa pode levar a que algum homem me faça mal.', é estarmos sempre em alerta. Para quem é homem, pode parecer exagerado. E eu entendo: não é a vossa realidade, então torna-se difícil de imaginar que isto é real. Mas é, 100% real. Ser-se mulher é aprender a ter cuidado desde criança, é sentirmos quando um olhar nos despe, é termos receio de passar no meio de um grupo de homens. Acho que é um livro necessário: às mulheres, para não se sentirem sozinhas, e para se sentirem representadas; aos homens, para entenderem, para saberem que há coisas que irão fazer uma mulher se sentir desconfortável, mesmo que para eles pareça algo 'inocente'.
Avalio este livro com 5 estrelas pela mensagem que transmite e pela pertinência da mesma — infelizmente, ainda muito atual —, e com 4 estrelas pela forma como algumas dessas mensagens são apresentadas. Concordo plenamente com a perspetiva de que a maioria dos abusos contra os direitos das mulheres é cometida por homens, e negá-lo seria, no mínimo, irrealista. No entanto, também acredito que existem muitos homens que respeitam e defendem os direitos das mulheres e que certamente não se reveem nestas histórias. É por essas exceções que atribuo 4 estrelas, por considerar que a perspetiva apresentada acaba, por vezes, por soar demasiado global. Ainda assim, considero que a mensagem do livro é muito importante e muito bem conseguida.
This is the author’s debut, drawing on real stories to make us reflect on abuse and harassment, but above all on resistance. Although it didn’t completely win me over, I really enjoyed it—especially visually: it weaves minimalist illustrations with black-and-white photographs.
É a estreia da autora, que parte de histórias reais para nos pôr a reflectir sobre abuso e assédio, mas sobretudo resistência. Apesar de não me ter enchido as medidas, gostei muito, sobretudo graficamente: entrelaça ilustrações minimalistas com fotografias a preto e branco.