"Não a posso culpar. Os segredos fazem isto, corroem-nos, e à relação que temos com os outros. Os segredos são o cancro da alma. E mantemo-los porque achamos que, sem eles, deixaríamos de ser nós próprios, abriríamos a porta a uma qualquer espécie de catástrofe do nosso eu. Somos tão ingénuos."
Eu sei que nem toda a gente pode gostar tanto do Tordo quanto eu. A principal razão será porque trazemos dentro componentes diferentes, Passado e código genético, e o facto de isso tudo impactar a forma como experimentamos a leitura. Tordo, para mim, é e será, e desconfio que sempre, um caminho de introspeção.
No Inventário da Solidão - para além das reflexões e da escrita poética a que me habituou e que aprecio em encantamento - Tordo obrigou-me a olhar para dentro, a interromper a marcha.
Reflecti -como sempre- durante o meu caminho de leitura, mas o fecho desta janela literária é do Divino. Não me expressei bem: do D-I-V-I-N-O. Comoveu-me profundamente – e aqui as palavras não estão a fazer o seu trabalho por completo, de ilustrar a minha experiência - mas permitam-me partilhar que dou muitas graças de ter feito a leitura no resguardo do lar, porque chorei compulsivamente. Isto não me acontece muito, mas é facto que o Tordo me rodou um botão.
Como dizia, sei que nem todas as pessoas podem gostar tanto quanto eu. Cá dentro, trago os segredos de que fala o personagem principal e, esta inspiração para avaliar e olhar em perspectiva, foi um estouro. É o segundo estouro ruidoso que lhe devo.
Não posso, nem imagino, que gostem dele tanto quanto eu. Mas eu devo-lhe já umas coisas, que sei que nunca conseguirei pagar: nascem todas do sentido que me trazem as suas reflexões, da companhia no labirinto da solidão interna, da mão chegada de quem sabe, como eu, o quanto podemos inventariar numa vida.
Trocado por livros.
P.S. Acima, um dos excertos da carta mais honesta que li. Podemos sentir os personagens como pessoas reais? Podemos sim: a verdade está na consciência de quem olha.