[CONTÉM SPOILERS]
A experiência me diz para jamais escrever sobre livros ruins. Mas a vaidade (o maior de todos os pecados!) me manda colocar alguns pingos nos is. No começo da semana, publiquei em algumas redes sociais um elogio rasgado ao escritor Raphael Montes e seu Dias Perfeitos. Tinha lido as primeiras trinta ou quarenta páginas do romance e me empolguei. Equivocadamente, claro. Este texto, portanto, é um esclarecimento e um pedido de desculpas.
Escrevo este texto também porque me sinto vítima de uma espécie de estelionato literário. Explico. Conheci Raphael Montes ao assistir ao Programa do Jô, onde ele foi anunciado como “revelação da literatura policial brasileira”. Ora, todos sabem que me interesso muito por literatura policial e lá fui eu conferir. Quanta ingenuidade, a minha! Dias Perfeitos não passa nem perto de ser um livro policial. É, no máximo, uma história de amor às avessas, com certa pretensão psicológica. Na verdade, trata-se de um amontoado de lugares-comuns. Dá pena.
O fato é que, iludido pela propaganda, ao começar a ler Dias Perfeitos, resolvi dar um desconto para o autor. Afinal, ele só tem vinte e três anos. Dava para perceber que a prosa dele amadureceria. Assim, o estilo meio infanto-juvenil nem me incomodou; o que começou a me incomodar mesmo foi a construção banal dos personagens e o enredo manuelcarleano. Dê um desconto, Paulo – eu dizia para mim mesmo, página após página.
E, para minha surpresa, o livro me cativou naqueles primeiros páginas em que Téo, o estudante de medicina evidentemente psicopata, torna-se obcecado por Clarice. O problema é que fiquei esperando que entrasse na narrativa o contraponto necessário a todo vilão, isto é, alguma forma de justiça. Página após página, fui ficando frustrado na mesma proporção em que os lugares-comuns se acumulavam: Téo mata o ex-namorado de Clarice, Clarice tenta se virar contra Téo, mas a arma está descarregada, Clarice e Téo sofrem um acidente de carro e ela perde a memória…
Raphael Montes, coitado, é mais um autor-vítima desta tendência brasileira à descrença na justiça. O apego à infeliz verossimilhança só rende livros como Dias Perfeitos, que não se sustentam como literatura de qualquer tipo, muito menos policial. Ora, qualquer leitor de quinze anos sabe que a literatura policial existe para satisfazer nosso anseio por justiça. Qualquer coisa diferente disso é sociologia barata, se tanto.
Literatura policial é simples e complexa. Venho batendo nesta tecla desde 2008. Trata-se de uma fórmula que deve ser repetida. E, dentro desta fórmula, o autor tem que procurar ser o mais inventivo possível. Fugir à fórmula é suicídio literário – é burrice. Raphael Montes é jovem e parece ter talento o bastante para tentar retomar o rumo da sua prosa. Para, quem sabe, se tornar o que pretende ser: um verdadeiro escritor de romances policiais brasileiros.
Quanto a mim, prometo nunca mais elogiar ninguém, ainda que informalmente, depois de ler as primeiras páginas de um romance. E prometo também dormir mais cedo, não assistir a talk-shows e principalmente não acreditar em revelações literárias. Estou velho demais para isso.