As formas que a vida assume às margens do rio São Francisco são a matéria-prima dos poemas de ALUVIÃO, livro de estreia de davi de jesus do nascimento, jovem artista plástico norte-mineiro. Criado numa família de pescadores, lavadeiras e carranqueiros, ele tece memória e imaginação para nos levar ao território em que suas palavras "lá não é minas. é gerais. um sol para cada pessoa e peixeira debaixo do colchão".
É nesse pedaço do mundo, redemoinho de afetos e arestas, que o poeta se forma, lá onde viver é sempre sobreviver e tudo depende da força do rio, que é generoso para fornecer a subsistência, mas também pode ser o destino último de todos os sonhos.
É também nos barrancos do Velho Chico que ele se enreda no luto pela mã "ela é o rio. ela é o mar agridoce. ela é a esteira das frutas. o quintal dela é minha língua". Como um fio (ou rio) que atravessa e une as diversas faces de ALUVIÃO, a morte da mãe ("nunca vão entender o que foi ela, a barranqueira") é capaz de mudar o sentido de tudo que vive e do que já foi vivido, como uma presença que, abandonando o corpo individual, se multiplica em cada pequeno detalhe ao a maneira de falar e de ouvir, de trabalhar e de comer, de rezar e de dormir, tudo tem o rosto e o "mel" da mãe.
Imerso nesse amor, o poeta cria ALUVIÃO como as pessoas ali fazem as coisas que dão sentido aos seus tecer redes ou esculpir carrancas, pescar ou lavar roupas. "A minha língua é extensão das que sempre foram regadas com caldo de cabeça de peixe."
"a casa pode ser pequena, mas o nosso quintal precisa tocar o rosto dos barcos ancorados no dedo mindinho do rio." e tudo que se está aqui causa uma afeição (em mim) das grandes. o sotaque, os lugares das palavras e o lugar nas palavras. o luto, a fé, a comida, os pés nus, a fala correndo com o fio de correnteza. e "o suor da testa mora dentro dos marimbondos".
é leitura de ficar se refazendo feito o tecer de uma rede de pesca. recomendo.
Conhecia o Davi artista e agora pude conhecer o Davi poeta, por indicação insistente da Zil. Cada um dos poemas parece colaborar para construir uma atmosfera própria, com gosto de infância, cheiro de beira de rio e aspecto telúrico. Esse rio da vida que flui sem pedir licença e deságua no que conseguimos ser com o que fazemos de seus afluentes.