Um encontro de família provoca um sismo, quando Cláudia expõe um segredo há muito enterrado: um abuso que sofreu há mais de três décadas. Miguel, o irmão, tenta manter-se firme enquanto o chão lhe foge dos pés. O que parecia ser só mais um desentendimento revela-se o primeiro abalo de um terremoto que fará ruir certezas, memórias e afetos. À medida que o eco do trauma reprimido se torna insuportável e as versões do passado entram em colisão, a dúvida instala se.
O que foi real? O que foi apagado? Quem escolheu não ver?
Um romance cru e perturbador sobre as sombras que nos habitam, os pactos de silêncio e o preço atroz de enterrar uma verdade que, finalmente, se recusa a ficar calada.
Ângelo Fernandes nasceu em Setúbal, em 1981. Formou-se em Ensino Básico e trabalhou em áreas tão distintas como o teatro e a fotografia de cena, o design gráfico e a moderação 3D. Em 2017, fundou a Quebrar o Silêncio, a primeira associação portuguesa de apoio a homens e rapazes sobreviventes de violência sexual.
Ler este livro não é uma experiência meramente literária; é também um confronto com alguns fantasmas que o tempo ajudou a deixar lá atrás. Embora a narrativa se centre no trauma adquirido por pessoas abusadas sexualmente enquanto crianças/jovens, não deixo de olhar para este relato sem fazer uma correlação com a minha própria história enquanto homem e homossexual.
A “neblina” representa, para mim, a violência por omissão. No livro, os abusados vivem o horror de se encontrarem num ambiente onde o entorno parece pressentir, mas escolhe não ver. É aqui que a minha experiência se cruza com esta história: naquela zona cinzenta onde a família e os amigos “desconfiam”, mas nunca se chegam à frente para interromper o desamparo ou validar a existência do outro.
Crescer enquanto quem nos acerca mantém um silêncio cúmplice — um “saber sem dizer” — cria um nevoeiro mental que nos obriga a viver em modo de sobrevivência. Tal como a pessoa abusada é isolada pelo segredo, em mim foi a constante expectativa em manter as aparências que me fez isolar. Esse esforço contínuo de anulação para garantir a integração tem um custo altíssimo: o sacrifício do nosso “potencial pleno”. Passamos tanto tempo a tentar ser invisíveis, a policiar gestos e a apagar traços da nossa identidade para não confirmar as suspeitas alheias, que acabamos por abdicar de partes de nós que talvez nunca voltemos a recuperar.
A obra de Ângelo Fernandes, para além de muito bem escrita, recorda-nos que o trauma não é apenas o ato violento em si, mas também o vazio que fica quando quem nos deveria acolher escolhe o silêncio. Cresce uma sensação de desamparo, como se tivéssemos sido largados, entregues à nossa sorte no meio de um nevoeiro inesperado. E ainda que a maturidade tenha trazido alguma paz, há feridas que nunca cicatrizam por completo. O amadurecimento apenas nos ensina a dar nome a essa neblina que, durante tanto tempo, nos impediu de ver quem realmente éramos.
Obrigado Ângel Fernandes por este livro poderoso que mexeu profundamente comigo. Uma história dura e intensa. Páginas que provocaram choro. Momentos de revolta. E uma percepção de que tanto tempo para fazer para prevenir o abuso e ajudar os sobreviventes.
Quando o lar, que deveria ser refúgio, se torna cenário de abuso, nasce uma dor que o tempo sozinho não cura.
O abuso cometido por quem deveria proteger é uma ferida que rasga não apenas o corpo, mas também a alma, apagando lentamente a confiança e a inocência.
O amor verdadeiro não fere! O amor verdadeiro não exige silêncio! O amor verdadeiro não se disfarça em poder!
"Em criança, aquela casa parecia diferente da dos colegas. O ambiente era irrespirável. A sua família habitava num espaço fragmentado, denso. Não era algo palpável, que fosse capaz de concretizar, mas sempre estivera presente. Um aroma melífluo e áspero. Havia conversas cujo sentido lhe escapava, com laivos combativos. Não era tanto o que se dizia, mas o que ficava por dizer..."
É véspera de Natal e como habitualmente Miguel, a sua mulher Marta e o filho de ambos Pedro vão-se juntar aos pais de Miguel e à irmã Cláudia para passarem esta noite em família. O ambiente é de festa mas Miguel não está à vontade com os pais e muito menos com a irmã, ele não consegue relaxar na presença dela, sempre se deram mal. Para Miguel, Cláudia é a única responsável da sua infância ter sido tão infeliz, sempre foi uma criança caprichosa e mimada à qual os pais faziam todas as vontades. Já Cláudia sente-se incompreendida e quando no meio da ceia de Natal desenterra um suposto abuso sexual por parte do pai quando era criança, a família acusa-a de mentirosa e de distorcer a realidade. A partir desta noite Miguel começa a ter flashbacks da sua infância e a neblina que o toldou ao longo da sua vida começa a dissipar-se. Miguel vai ter que descer até ao Inferno até conseguir lidar com a verdade. Será que Cláudia sempre esteve certa? Será que as suas memórias são verdadeiras? Como é que vai lidar com esta nova realidade? Qual é o preço a pagar? Quando comecei a ler este romance, senti que era uma boa história que aborda um tema muito importante: o abuso sexual em contexto familiar. A meio do livro senti-me um pouco frustrada, as personagens estavam, a meu ver, a ser incoerentes e revirei os olhos várias vezes, mas quanto mais lia mais ficava intrigada e eis senão quando o Ângelo tira-me completamente o tapete e dei por mim a "sofrer" juntamente com o Miguel. A escrita do Ângelo além de excelente é muito envolvente e sentimos a dor, o desespero e a falta de pertença destes dois irmãos que foram tão mal tratados por quem os devia proteger e amar a todo o custo. Neblina é um livraço, façam o favor de o ler!
Este é um livro muito intenso, difícil de ler. É real e cruel. Chega a ser doloroso em muitas páginas. A experiência que o autor viveu na infância e o conhecimento que tem dos vários casos que acompanha na Associação que, entretanto, fundou levam a que possa falar de forma muito real sobre o abuso sexual em contexto familiar. Não é uma leitura fácil. Mas é uma leitura obrigatória , porque há que derrubar barreiras, ajudar quem é vítima e refletir sobre a prevenção. Obrigada, Ângelo, pela enorme coragem.
“É fácil errar quando não se conhece a extensão da liberdade.”
Uma história que se impõe pela escolha de um tema de enorme relevância social e emocional, abordado com contenção e sem cair no melodrama, pela honestidade com que a dor é exposta.
A narrativa surge fragmentada, em pedaços que espelham o coração do protagonista, Miguel.
Senti que o acompanhava nesse caminho à deriva, envolto na neblina do título, que funciona não apenas como metáfora da dor, mas também como atmosfera que se prolonga por toda a leitura.
A ausência de um episódio em particular pode ser sentida, mas percebe-se também que essa lacuna pode ser deliberada. E, se foi com essa intenção, a missão está cumprida.
Um livro que merece ser lido e um autor a acompanhar de perto.
“O silêncio entre ambos já não era um refúgio, era um abismo.”
“Fugiu delas e dele próprio, das memórias e da realidade. Escondeu-se do trauma.”
“Eu amava o silêncio Até o silêncio me ter mostrado Que também sabe gritar”
Há livros que nos tocam, que não foram feitos apenas para entreter, que deixam marcas e servem para sensibilizar. Neblina é exatamente isso: uma leitura dura, desconfortável, mas muito necessária.
O autor aborda um dos temas mais pesados e silenciados da nossa sociedade — o abuso sexual de menores. E fá-lo de forma exímia, sem máscaras, com uma escrita dura, crua, direta e corajosa, que não permite que o leitor fique indiferente.
É impossível atravessar estas páginas sem ficar com um nó na garganta. A cada capítulo, cresce a revolta, a tristeza, mas também a consciência de que estas histórias refletem realidades demasiado próximas de nós e muitas vezes escondidas e silenciadas.
O desconforto faz parte da experiência. E é esse desconforto que torna Neblina um livro tão importante: porque nos obriga a ver, a reconhecer e a pensar naquilo que muitas vezes preferimos ignorar.
Não é uma leitura leve. Mas é uma leitura que fica e que, de certa forma, nos responsabiliza enquanto seres humanos inseridos numa sociedade.
Recomendo a quem procura mais do que um livro: uma experiência transformadora, que confronta, dói e abre espaço para reflexão.
Neste livro muito difícil de ler pelo tema abordado, o autor conta-nos a história de um homem que aos 40 anos reconhece que foi vítima de abuso sexual. Todos os aspetos da vida de Miguel - profissional, familiar, sexual, etc - são explorados de modo a que o leitor acompanhe a influência que o abuso na infância teve neles. Este livro, embora não apresente relatos explícitos, faz como que leitor intua, o que causa repulsa, tristeza e raiva. Não sendo um livro para pessoas mais sensíveis a temas que envolvam abusos na infância é de extrema importância a sua leitura de modo a tentar compreender o sobrevivente e ficar alerta para estas situações. Gostei muito do final pois traz esperança!
Quando um livro te provoca várias emoções ao longo da sua leitura e não consegues parar de ler, é porque vale a pena. Um dos melhores que li nos últimos tempos. Parabéns ao Ângelo pela escrita e espero que venham mais livros num futuro breve.
Um livro avassalador... uma escrita crua, mas compassiva que poupa o leitor ao sensacionalismo que muitas vezes acompanha o tema. Ângelo Fernandes obrigada pela coragem
💔𝗡𝗲𝗯𝗹𝗶𝗻𝗮 Se para muitos de nós a noite de Natal 🎄traz recordações doces de afetos e brincadeiras, de família reunida à mesa, de calor e de paz, para outros, esta celebração é sinónimo de tensão, de reencontros forçados e de ressentimentos. É assim para Cláudia e para Miguel, os dois irmãos que se encontram na casa dos pais para festejar uma data que preferiam saltar no calendário.
➡️ Os cheiros, as texturas, os ruídos da casa onde cresceram trazem memórias de dor, de repressão, de abuso e violência. Memórias difíceis de ocultar, sobretudo para Cláudia, que aproveita a ocasião para confrontar os pais com os traumas que carrega desde a infância. Para Miguel essas memórias não são tão claras e, apesar do desconforto que sente quando se vê dentro daquelas paredes, acredita que há algum exagero nas acusações da irmã.
Miguel tem um casamento💍 feliz com Marta, do qual nasceu Pedro. Tem sucesso na empresa que criou com dois amigos e recusa aceitar que haja verdade em muitas das descrições que Cláudia faz do passado. Prefere acreditar que são excentricidades da cabeça criativa da sua irmã escritora.
Afinal, quem fala a verdade? Estará Cláudia a encenar uma história para chamar a atenção?Poderá um homem bem-sucedido ter sido vítima de abuso?
𝗡𝗲𝗯𝗹𝗶𝗻𝗮 é o romance de estreia de Ângelo Fernandes, mas não é o seu primeiro livro sobre abuso de menores. A experiência que traz da associação Quebrar o Silêncio permite-lhe falar com conhecimento sobre a dor, a culpa e a vergonha que corroem aqueles que aprenderam a banalizar a violência e encontrar afeto na agressão.
O título deste livro não poderia ser outro. Há uma neblina indelével que nos vai toldando e que transforma tudo sem que ninguém note e que faz com que o principal afectado acredite durante demasiado tempo que está tudo bem, que nada aconteceu. A revelação dos abusos sexuais sobre Miguel transformam a neblina num nevoeiro denso. E se é verdade que o autor disseca de forma profunda e violenta o impacto destrutivo para o próprio Miguel, também expõe com clareza todas as vítimas indirectas.
A mulher que tenta entrar no seu mundo para ajudar e para o salvar mas acaba por ir assistindo impotente ao declinio do próprio Miguel e ao fim do seu casamento. O filho Pedro que de repente ganha um pai hiper protector e vigilante que no meio da culpa vê abusos em todo o lado e o impede de ser uma criança normal. Ao mesmo tempo que faz Marta sentir novos medos e sentir-se uma mãe menos atenta. Os sócios e amigos desesperados por não o conseguirem resgatar e verem que arrasta consigo a empresa. Se não fosse neblina teria de ser avalanche… porque é a isso que assistimos ao longo das páginas. Testemunhas impotentes do pior dos abusos, o cometido sobre crianças.
Um livro que "fala" sobre abuso sexual de menores. Não é um tema leve mas o autor foi exímio a contar esta história.
A escrita crua e desprovida de emoção que, ao mesmo tempo, leva o leitor a sentir-se angustiado pelo rumo que a vida do Miguel toma a partir do momento que descobre a verdade, o sentimento se impotência por não o conseguir ajudar e a vontade que tem em dar um abraço ao Miguel para ele saber que tem algum apoio.
O autor está de parabéns por este seu primeiro romance. Tem apenas uma ponta solta no final, que deixa o final em aberto, mas no geral este livro é uma obra de arte!
Uma das melhores histórias que li este ano. Uma narrativa poderosa, sobre dinâmicas familiares e como a memória nos pode atraiçoar e nos fazer duvidar da nossa realidade. Recomendo.
Eu gostei de 𝗧𝗨𝗗𝗢 no livro e tenho mais de 50 frases sublinhadas, todas elas importantes para mim. “Neblina” teve em mim um impacto enorme, talvez por lidar com crianças e jovens. O livro aborda o abuso sexual infantil de forma profunda e responsável, sem descrições chocantes ou exageradas. A escrita do Ângelo é sensível, íntima e sóbria, transmitindo a dureza da história sem sensacionalismo e permitindo sentir empatia por qualquer vítima. É um livro que provoca emoções fortes e nos faz refletir sobre traumas e a importância de enfrentar verdades escondidas. Ao Ângelo, só me resta agradecer por ter colocado este livro nas mãos dos leitores. E sim, “Neblina” tem a capa do ano. 💙
Um livro difícil, real e cru. Muito bem escrito, ficamos presos na dor de Miguel e no que significa ser um sobrevivente de algo tão terrível. É uma leitura que marca e mostra como o passado influencia a vida de quem carrega feridas profundas. Apesar de a meio do livro me sentir algo frustrada com alguns diálogos e personagens, a fluidez da escrita e a força da superação acabaram por me fazer esquecer esses momentos. É também um livro que traz esperança, mostra que é possível encontrar luz mesmo depois da escuridão.