“…em Portugal o industrialismo fácil do turismo foi sempre convocado como estratégia de salvação quando outros setores da economia enfrentam dificuldades.”.
O livro de Ana Drago e Mariana Mortágua, Oportunidade ou Maldição – A Indústria do Turismo em Portugal, parte desta constatação para desmontar um dos grandes mitos contemporâneos da economia portuguesa. A leitura é um mergulho lúcido (e necessário) numa história longa, onde o turismo se constrói como atalho económico, herança do “país de serviços” sonhado desde o Estado Novo.
As autoras lembram como, muito antes do 25 de Abril, se criaram prêmios como “A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal” e se instrumentalizaram os Santos Populares em Lisboa – táticas de propaganda e folclorização que datam de 1932 e já visavam atrair turistas e construir uma imagem exótica e dócil do país. Tudo feito depressa, sem planeamento nem infraestruturas. Ainda hoje se sente o eco dessa pressa: há esgotos que desaguam nas praias do Algarve, interditando banhos em plena “indústria de ouro”.
Mas este ouro é sobretudo para alguns. Drago e Mortágua expõem a teia de uma elite que prospera sobre um Estado capturado — de Luís Filipe Vieira a Ricardo Salgado, passando por escândalos como Verdelago, High Castle ou Vale do Lobo (onde um tribunal chegou a reconhecer, pasme-se, a “propriedade” de parte do oceano). Uma rede de favores e de corrupção política que incluiu ministros como Manuel Pinho, que atribuiu o estatuto PIN a projetos em áreas protegidas.
Tudo isto deriva de um modelo económico rentista, que prefere remendos rápidos a planeamento estratégico. Em vez de fomentar indústrias produtivas, como a Autoeuropa, Portugal insiste em apostar num turismo massivo e volátil, que fragiliza as cidades e a vida dos que nelas habitam. Hoje, o país é o segundo da Europa em que o turismo mais pesa no PIB — só a Islândia o supera.
E o paradoxo é cruel: este turismo destrói o próprio turismo. Restaurantes tradicionais tornam-se vitrinas onde turistas veem turistas, a Livraria Lello já quase não vende livros, e a taxa turística de Lisboa — em vez de mitigar danos — financia eventos como a Web Summit, que intensificam a pressão urbana. Há freguesias com mais Alojamentos Locais do que casas para moradores.
Tudo isto, lembram as autoras, são escolhas políticas. E é preciso, de uma vez por todas, uma conversa séria sobre o que queremos enquanto país — antes que o nosso “plano Florida” consuma de vez o que resta de autenticidade, território e comunidade.
Um livro corajoso, informado e urgente — porque desmonta o mito de que o turismo é inevitavelmente bom, mostrando que, em Portugal, ele tem sido sobretudo o espelho de uma economia frágil e desigual.
Independentemente do quadrante político, temos de falar abertamente sobre isto.