A longa história da vocação de Portugal para o turismo e as consequências na economia, na precariedade e, mais do que nunca, na habitação.
A vocação natural do país para o turismo foi sempre invocada pelas elites governativas quando outros sectores económicos, mais produtivos, enfrentaram dificuldades. No Estado Novo, o turismo foi pensado como actividade exportadora, mas também como encenação identitária. No período democrático, tornou-se central nas relações entre elites empresariais, Estado e sistema financeiro, em projetos megalómanos que transformaram o território. E, já no século XXI, torna-se central num regime de crescimento armadilhado.
Depois da Grande Crise Financeira de 2008, o turismo ganhou uma nova importância. O número de visitantes disparou, o comércio descaracterizou-se e o alojamento para turistas transformou cidades e bairros. O turismo criou milhares de postos de trabalho e reforçou o seu peso nas exportações portuguesas, mas acentuou velhas fragilidades da economia portuguesa e contribuiu para novos problemas sociais. Afinal, a economia do turismo é de baixa produtividade, assente em precariedade e salários baixos, e está a agigantar a crise na habitação.
Este livro refaz parte da longa e atribulada história do turismo em Portugal, analisando as suas vantagens e desafios e ousando uma pergunta incómoda: será a especialização turística uma oportunidade ou uma maldição?
Um bom livro, com dados muitíssimo interessantes e boas reflexões sobre o impacto do turismo na economia e na sociedade portuguesa. Escrito de forma acessível e menos maçador do que seria de esperar nas partes mais técnicas. Recomendo.
“…em Portugal o industrialismo fácil do turismo foi sempre convocado como estratégia de salvação quando outros setores da economia enfrentam dificuldades.”.
O livro de Ana Drago e Mariana Mortágua, Oportunidade ou Maldição – A Indústria do Turismo em Portugal, parte desta constatação para desmontar um dos grandes mitos contemporâneos da economia portuguesa. A leitura é um mergulho lúcido (e necessário) numa história longa, onde o turismo se constrói como atalho económico, herança do “país de serviços” sonhado desde o Estado Novo.
As autoras lembram como, muito antes do 25 de Abril, se criaram prêmios como “A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal” e se instrumentalizaram os Santos Populares em Lisboa – táticas de propaganda e folclorização que datam de 1932 e já visavam atrair turistas e construir uma imagem exótica e dócil do país. Tudo feito depressa, sem planeamento nem infraestruturas. Ainda hoje se sente o eco dessa pressa: há esgotos que desaguam nas praias do Algarve, interditando banhos em plena “indústria de ouro”.
Mas este ouro é sobretudo para alguns. Drago e Mortágua expõem a teia de uma elite que prospera sobre um Estado capturado — de Luís Filipe Vieira a Ricardo Salgado, passando por escândalos como Verdelago, High Castle ou Vale do Lobo (onde um tribunal chegou a reconhecer, pasme-se, a “propriedade” de parte do oceano). Uma rede de favores e de corrupção política que incluiu ministros como Manuel Pinho, que atribuiu o estatuto PIN a projetos em áreas protegidas.
Tudo isto deriva de um modelo económico rentista, que prefere remendos rápidos a planeamento estratégico. Em vez de fomentar indústrias produtivas, como a Autoeuropa, Portugal insiste em apostar num turismo massivo e volátil, que fragiliza as cidades e a vida dos que nelas habitam. Hoje, o país é o segundo da Europa em que o turismo mais pesa no PIB — só a Islândia o supera.
E o paradoxo é cruel: este turismo destrói o próprio turismo. Restaurantes tradicionais tornam-se vitrinas onde turistas veem turistas, a Livraria Lello já quase não vende livros, e a taxa turística de Lisboa — em vez de mitigar danos — financia eventos como a Web Summit, que intensificam a pressão urbana. Há freguesias com mais Alojamentos Locais do que casas para moradores.
Tudo isto, lembram as autoras, são escolhas políticas. E é preciso, de uma vez por todas, uma conversa séria sobre o que queremos enquanto país — antes que o nosso “plano Florida” consuma de vez o que resta de autenticidade, território e comunidade.
Um livro corajoso, informado e urgente — porque desmonta o mito de que o turismo é inevitavelmente bom, mostrando que, em Portugal, ele tem sido sobretudo o espelho de uma economia frágil e desigual.
Independentemente do quadrante político, temos de falar abertamente sobre isto.
Explica, de forma bastante acessível e sucinta, como o peso que o setor do turismo afecta o todo da economia portuguesa. Se, por um lado, a relação entre o crescimento do turismo e a crise da habitação estava amplamente estudada e já faz parte do senso comum, o livro vai mais além na sua articulação entre perspectivas económicas e sociológicas sobre o turismo.
Começa com uma historiografia do papel do Estado na promoção do turismo, em que a Ana e a Mariana recuam à bancarrota de 1892 e mostram como o Ministro da Fazenda da época já classificava o turismo como uma forma de "industrialismo fácil". Mais de um século depois, o governo português segue exatamente a mesma lógica ao encarar o turismo como a "boia de salvação" da economia portuguesa no rescaldo da crise financeira de 2008. A "vocação natural" de Portugal para o turismo é no fundo também responsável pelo seu atraso. Ao escolher depender do turismo para o seu crescimento económico, Portugal bloqueia o crescimento de outros setores, que, como explicam as autoras, não têm o espaço e recursos para aqui se desenvolverem. E, ao escolher depender do turismo, Portugal permanece uma economia de baixos salários, sendo que 40% dos trabalhadores deste setor recebem o salário mínimo nacional.
Esta estratégia económica, em conjugação com o crescente grau de qualificação dos jovens portugueses, é responsável quer pela emigração massiva como pela dependência de trabalho imigrante. É, portanto, no mínimo paradoxal que os defensores de um modelo económico assente em salários baixos, responsável por empurrar gerações de jovens para a emigração, sejam os mesmos que, hoje, defendem a limitação da entrada de imigrantes, precisamente daqueles que vêm suprir a falta de mão de obra criada por essas mesmas políticas.
Sei que um livro de não ficção de economia/sociedade é bom quando sinto que na mesma medida estou a aprender e novas luzes se criam na minha cabeça e, ao mesmo tempo, tenho muita vontade de pegar nele e continuar a ler. Percebemos que o turismo funciona como uma bóia de salvação em momentos de crise e pós crise. Os capítulos sobre as medidas da Troika ajudou-me a perceber melhor o que se passou e como chegámos onde chegámos, com um país com um turismo desenfreado e que expulsa os residentes das próprias cidades. A parte sobre os investimentos milionários e "sujos" em infraestruturas turisticas que desvastam a nossa costa e a nossa natureza deixou-me muito frustrada.
Aconselho, mas acho que é um livro que deve ser lido no momento. Tem algumas partes com visões muito atuais que daqui a uns anos podem estar um pouco datadas
Bom livro para entender a origem de uma economia rentista e ao serviço dos especuladores e da banca. Um boa ferramenta para as lutas políticas da atualidade.