Um vasto conjunto de textos, correspondente a reflexões de Afonso Cruz durante as suas viagens, o qual resulta numa leitura descontraída recheada de pensamentos interessantes, envoltos numa rica base cultural revelada pelo autor, sem pretensões que não sejam a de nos levar a interessantes perspectivas da forma como encaramos a vida e o mundo em que vivemos.
Passem numa livraria e folheiem o livro. É rara a página que não seja cativante. Vejam por vós próprios.
Aqui vai um aperitivo:
«Ao contrário de budistas, estóicos, taoistas, epicuristas e de Nietzsche, eu não quero viver somente o presente e a realidade, conformar-me, moldar-me, como se tudo fosse bom, o melhor dos mundos possíveis de Leibniz, nem sob os conselhos de Epicteto (ao contrário destes, Aristipo não dizia que temos de nos adaptar à realidade para sermos felizes, mas sim adaptar a realidade). Quero viver com ideais, tornar real a fantasia, mudar o mundo onde é mais infecto, moldá-lo. Quero enfurecer-me com o fim da luz («rage against the dying of the light!»), quero revoltar-me. A ideia de amor fati é por vezes repelente. O elogio taoista da água, que desce sempre, procura os lugares mais baixos, que não enfrenta a dureza da rocha, pode ser um crime, é aceitar a maldade, a injustiça, é cruzar os braços, permitir o Holocausto, o genocídio do Ruanda, achar que Pol Pot faz parte da beleza do mundo e que esta só pode ser, em toda a sua dimensão, aceitável e, mais do que isso, venerável. Quando anulamos o idealismo, anulamos a evolução, o crescimento social e pessoal, para simplesmente aceitar com gratidão tudo o que nos é dado. Talvez haja uma maior felicidade inerente a essa atitude, mas eu não quero ser feliz assim. Entre Estaline e a infelicidade, escolho a infelicidade. Ou o desassossego ou a inquietude. A realidade tem rodas quadradas. Foi o sonho, a ficção, o ideal, que as fizeram redondas.»