Afonso Reis Cabral é, para mim, um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Já li todos os seus livros e aguardei impacientemente pelo lançamento deste. Conseguem imaginar a minha alegria quando vi que estava disponível no Kobo Plus!
Demorei o meu tempo a terminar esta obra. Numa fase da minha vida marcada pela falta de vontade de ler, este livro foi-me relembrando como é bom ir lendo e de como não é preciso ler de rajada para se gostar verdadeiramente de uma estória.
Neste obra, Afonso introduz-nos a relação entre um neto e o seu avô. Explora-a de um ponto de vista muito honesto e transparente. Existe a tendência de idolatrar os avós, de os associar apenas a referências positivas, como se a sabedoria deles não viesse de anos acumulados, de muitas experiências vividas e de ainda mais erros cometidos. Enganamo-nos. Mas só o fazemos porque o amor tem esta capacidade de distorcer a realidade.
O Último Avô narra a história de uma família portuguesa marcada por segredos, silêncio e ausência. O personagem central é o avô Campelo, um escritor prestigiado, mas com feridas profundas e invisíveis, contradições e frieza.
No início, Campelo queima o manuscrito no qual trabalhara durante anos. Ninguém sabe qual o tema, mas desconfia-se que, possivelmente, seria um romance sobre a Guerra Colonial.
Pouco tempo depois desse ato, Campelo morre, deixando para trás um grande mistério: porque é que não partilhou o romance com o mundo? O que é que o movia realmente e quais eram os seus fantasmas?
O neto, herdeiro do nome e da memória familiar, assume a tarefa de tentar entender o avô. Essa busca leva-o não só a interrogar a figura paternal e literária de Campelo, mas também a confrontar mágoas muito suas: a mãe (filha preferida do seu avô) foi sempre ausente, fugiu e acabou por morrer prematuramente; a avó tão doce e tão cuidadora, mas tão ferida e débil.
Assim, ao longo do romance, evocam-se (e são descobertas) memórias onde o neto tenta reconciliar o legado literário e mítico do avô com a sua face humana, com as falhas, com o silêncio, com o peso da família e com a Guerra Colonial, que se reflete nas ausências e nos traumas intergeracionais. Há dor, há amor confuso, há culpa, há reconhecimento, há uma intimidade que nem sempre foi amistosa, mas que se reflete na urgência de saber, de encontrar a ligação, de entender.
Ler este livro é mergulhar numa dor que insiste no silêncio e que se manifesta nas fissuras do amor. A relação entre o neto e Campelo é uma dessas relações que nos deixa divididos: entre idolatria e revolta; entre admiração e crítica; entre necessidade de herança e desejo de distância.
Pensar que Campelo, essa figura tão imponente, deixa ao neto a responsabilidade de carregar mistérios não resolvidos, é impactante. De alguma forma, está a permitir que as feridas se alastrem. No entanto, também está a permitir que o neto conheça o seu verdadeiro eu.
E o seu neto vai-se questionando: quanto daquilo que era o seu avô é feito de ensinamentos? Quanto é feito de exigências? Quanto é feito de silêncios? Quanto é feito de máscaras?
Ele quer entender, reconciliar e aceitar. A sua dor é a de quem ama alguém que falha. E talvez esta seja a parte mais bonita do romance: o neto que finalmente reconhece que o avô não é perfeito, mas que o amor permanece apesar (ou talvez por causa) disso.
A prova de que as pessoas não são, e não precisam de ser, figuras perfeitas para serem amadas ou para merecerem amor.
Campelo podia ser um ser humano partido, algo tirano, distante e vazio, mas era amado.
Em muitos momentos, gostava de abraçar o seu neto e de lhe pedir para não carregar tanto o peso do seu avô. Mas também para lhe dizer que admiro a sua coragem de querer saber a verdade, doa o que doer. Porque este processo de desciberta é precisamente o que aproxima neto e avô.