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O Último Avô

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Quando Augusto Campelo, o mais genial escritor português, queima o manuscrito no qual trabalhou durante anos, deixa para trás um mistério: seria o tão esperado romance sobre a experiência traumática da Guerra Colonial, de que tantas vezes falava, mas à qual nunca dedicou um livro? Subsiste a dúvida: o escritor morre uma semana depois.

Resta por isso ao neto — herdeiro do nome e da memória familiar — a missão de descobrir a verdade e de compreender (ou não) o gesto do avô. Mas essa busca arrasta-o sem querer para um terreno bem mais doloroso, que se prende com a fuga e a morte prematura da mãe, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô.

Atravessando a intimidade de três gerações de uma família marcada por perdas, conflitos e paixões, O Último Avô conta a história da relação entre um escritor tirânico e o seu único neto, entre a herança literária e a vida real.

312 pages, ebook

First published September 15, 2025

48 people are currently reading
521 people want to read

About the author

Afonso Reis Cabral

13 books434 followers
Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Aos 15 anos, publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela NOVA FCSH, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos 13 anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo e num alfarrabista. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, em 2018 o Prémio Novos na categoria de Literatura e em 2019 o Prémio GQ MOTY na categoria de Literatura. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, Pão de Açúcar, com forte acolhimento por parte da crítica e vencedor, em 2019, do Prémio Literário José Saramago. Entre Abril e Maio de 2019, percorreu Portugal a pé ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, de que resultou o livro Leva-me Contigo – Portugal a pé pela Estrada Nacional 2 e o documentário com o mesmo nome exibido pela RTP2. As suas obras encontram-se traduzidas em várias línguas. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. Foi colunista da Mensagem de Lisboa com «O Rossio na Betesga». Participou, com Dulce Maria Cardoso e Richard Zimler, no programa semanal «Biblioteca Pública», da Antena 1. É colunista do Jornal de Notícias, semanalmente com a rubrica «Ansiedade Crónica» e é um dos anfitriões do programa «Cinco à Quinta», da Antena 1. É presidente da Fundação Eça de Queiroz desde 2022. Em 2024, recebeu o Prémio Alumni NOVA FSCH. Em Setembro de 2025, chegou às livrarias O Último Avô, o seu romance mais recente.

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3 (1%)
Displaying 1 - 30 of 37 reviews
Profile Image for Vera Sopa.
747 reviews72 followers
September 12, 2025
Não li os livros anteriores de Afonso Reis Cabral. Não porque não tivessem mérito, se o primeiro venceu o prémio Leya mas não me atraíram. Finalmente “O último avô” foi uma tentação irresistível e mal o abri fiquei cativa das iluminadas palavras deste neto sobre o avô, que era uma figura venerada enquanto escritor mas um homem tirânico na relação familiar. Marcado pela guerra, com saudades da filha e com valentias muito cobardes, ele queima o último manuscrito e deixa o neto, filho da filha muito amada, como herdeiro do mistério sobre a totalidade do seu espólio. Recordar este último avô, tão amado como odiado, é uma apaixonante leitura numa magnífica prosa.

Acho que o mais extraordinário neste romance são as personagens, todas elas, que de tão bem descritas e caracterizadas são reais para quem lê. Retratos vividos que, a sombra da guerra de Angola corrói numa história profundamente humana. A verdade da ficção.
Profile Image for Jose Garrido.
Author 2 books21 followers
October 19, 2025
‘O Último Avô’, é o terceiro romance de Afonso Reis Cabral, mas o primeiro que leio.
Curiosamente, tenho na estante os outros dois. O primeiro, onde encontrei com emoção a dedicatória de um grande amigo que já não está, redescobri-o este Verão, numa reorganização geral de prateleiras 😉
Este ‘O último avô’, ouvi o ARC mencioná-lo numa sessão, há alguns meses, em Faro, e soube que teria de o ler muito em breve…
Em hora boa, outra amiga, resolveu atirar-mo aos pés (é uma imagem, cá em casa não se maltratam livros!) e dar-me um prazo para lidar com ele.
O romance é uma obra de relojoaria, arquitectada entre três gerações, construída com um detalhe e uma perfeição incomuns. Escutei recentemente alguém dizer que o ARC ‘demora dez anos a aperfeiçoar um livro, não é dos anuais’ e recordo que então me desagradou o comentário. Hoje, depois da leitura, discordando, compreendo-o perfeitamente. É um retrato de família, seccionado, fragmentado e muitas vezes colado de novo.
Os personagens são densos, há uma tensão psicológica constante que se exerce, de forma ondulatória, diferentemente do comum, da tensão que progride de forma unidireccional e nos empurra para o desfecho…
O protagonista, um escritor, o avô Campelo, é um homem difícil, complexo, intratável, talvez, que se enovelou num conjunto de histórias que vai revelando sem muito revelar, sobre a guerra colonial – o mistério da sua vida e do livro.
Não vai, decerto, suscitar muita criatividade ao nível de memes, reels e tiktoks: é muito bom.
Profile Image for Guigui SOM.
12 reviews1 follower
October 2, 2025
Reis Cabral é O escritor e este é O livro. Não é assim tão comum que literatura (a alta) seja íntima de uma acção rápida, profunda e que entretenha a ponto de ser difícil pousar o livro. Este é um dos raros, um dos bons! Um tema muito difícil e para muitos intocável. O escritor manuseia-o com muita perícia.
Recomendo 10/10
Profile Image for Ana Marinho.
607 reviews31 followers
September 30, 2025
Afonso Reis Cabral é, para mim, um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Já li todos os seus livros e aguardei impacientemente pelo lançamento deste. Conseguem imaginar a minha alegria quando vi que estava disponível no Kobo Plus!

Demorei o meu tempo a terminar esta obra. Numa fase da minha vida marcada pela falta de vontade de ler, este livro foi-me relembrando como é bom ir lendo e de como não é preciso ler de rajada para se gostar verdadeiramente de uma estória.

Neste obra, Afonso introduz-nos a relação entre um neto e o seu avô. Explora-a de um ponto de vista muito honesto e transparente. Existe a tendência de idolatrar os avós, de os associar apenas a referências positivas, como se a sabedoria deles não viesse de anos acumulados, de muitas experiências vividas e de ainda mais erros cometidos. Enganamo-nos. Mas só o fazemos porque o amor tem esta capacidade de distorcer a realidade.

O Último Avô narra a história de uma família portuguesa marcada por segredos, silêncio e ausência. O personagem central é o avô Campelo, um escritor prestigiado, mas com feridas profundas e invisíveis, contradições e frieza.

No início, Campelo queima o manuscrito no qual trabalhara durante anos. Ninguém sabe qual o tema, mas desconfia-se que, possivelmente, seria um romance sobre a Guerra Colonial.

Pouco tempo depois desse ato, Campelo morre, deixando para trás um grande mistério: porque é que não partilhou o romance com o mundo? O que é que o movia realmente e quais eram os seus fantasmas?

O neto, herdeiro do nome e da memória familiar, assume a tarefa de tentar entender o avô. Essa busca leva-o não só a interrogar a figura paternal e literária de Campelo, mas também a confrontar mágoas muito suas: a mãe (filha preferida do seu avô) foi sempre ausente, fugiu e acabou por morrer prematuramente; a avó tão doce e tão cuidadora, mas tão ferida e débil.

Assim, ao longo do romance, evocam-se (e são descobertas) memórias onde o neto tenta reconciliar o legado literário e mítico do avô com a sua face humana, com as falhas, com o silêncio, com o peso da família e com a Guerra Colonial, que se reflete nas ausências e nos traumas intergeracionais. Há dor, há amor confuso, há culpa, há reconhecimento, há uma intimidade que nem sempre foi amistosa, mas que se reflete na urgência de saber, de encontrar a ligação, de entender.

Ler este livro é mergulhar numa dor que insiste no silêncio e que se manifesta nas fissuras do amor. A relação entre o neto e Campelo é uma dessas relações que nos deixa divididos: entre idolatria e revolta; entre admiração e crítica; entre necessidade de herança e desejo de distância.

Pensar que Campelo, essa figura tão imponente, deixa ao neto a responsabilidade de carregar mistérios não resolvidos, é impactante. De alguma forma, está a permitir que as feridas se alastrem. No entanto, também está a permitir que o neto conheça o seu verdadeiro eu.

E o seu neto vai-se questionando: quanto daquilo que era o seu avô é feito de ensinamentos? Quanto é feito de exigências? Quanto é feito de silêncios? Quanto é feito de máscaras?

Ele quer entender, reconciliar e aceitar. A sua dor é a de quem ama alguém que falha. E talvez esta seja a parte mais bonita do romance: o neto que finalmente reconhece que o avô não é perfeito, mas que o amor permanece apesar (ou talvez por causa) disso.

A prova de que as pessoas não são, e não precisam de ser, figuras perfeitas para serem amadas ou para merecerem amor.

Campelo podia ser um ser humano partido, algo tirano, distante e vazio, mas era amado.

Em muitos momentos, gostava de abraçar o seu neto e de lhe pedir para não carregar tanto o peso do seu avô. Mas também para lhe dizer que admiro a sua coragem de querer saber a verdade, doa o que doer. Porque este processo de desciberta é precisamente o que aproxima neto e avô.
Profile Image for Tomás Jonet.
39 reviews3 followers
January 16, 2026
Um livro muito bem escrito sobre amor, sobre perda e sobre a família, e como muitas vezes esta pode ser disfuncional. Desperta vários sentimentos em relação as várias personagens, de que às vezes gostamos e outras não tanto. Gostei!
Profile Image for Carla.
61 reviews
November 27, 2025
A escrita é brilhante, os personagens optimos, no entanto achei a historia arrastada, demorada!
Gostei muito do final!
Profile Image for Maria Inês Serrazina.
49 reviews5 followers
October 27, 2025
Não sei do que estava à espera, mas acho que não era o que li. Quase de uma só vez, não me apetecia parar. Não sei se pela história em si se pela forma bonita e cómica e trágica de contar a história que lá está.

De um humor discreto mas que me fez rir alto, e de uma sensibilidade muito peculiar, que acho que nunca tinha visto escrita. Põe-nos num sítio quentinho mas desconfortável, de saudades de avós que ainda cá estão e de medo de avós que se possam ir antes de os conseguirmos perceber totalmente.

Esquematicamente complexo, com histórias que se cruzam, que se interrompem umas às outras, que enervam e me deixaram meia perdida porque queria saber tudo sobre todas ao mesmo tempo. Retoma ocasionalmente pequenos trechos que já tinha escrito noutras partes, e tudo fica ligado e justificado e cheio de sentido.

Com um final ligeiramente aberto, que certamente fará com que não o consiga arrumar muito depressa.

Mais do que sobre sobre avôs ou sobre literatura ou sobre a Guerra, é sobre a complexidade das famílias e daquele limbo onde ficam por resolver assuntos que nem sabíamos que eram tema. E isso torna-o um bocadinho de todos nós.



Profile Image for Antonio Morais Leitão.
9 reviews
October 18, 2025
Amei o livro! Tem um ritmo ótima e a história vai puxando-nos para dentro! As personagens são vibrantes e o fim é divinal!
Profile Image for Lia BibliophiLia.
67 reviews
November 10, 2025
BOOK 96 (2025)
O último avô, Afonso Reis Cabral
read in Portuguese (original)
350 pages

PLOT
Um avô queima o seu último manuscrito e morre pouco depois. O seu neto, e herdeiro, procura pela verdade numa viagem pelo passado (uma mãe que morreu demasiado cedo, a guerra colonial, relações familiares difíceis).
A grandfather burns his last book and dies shortly after. The grandson is left in search for the truth on a trip through the past (a mother that died to young, a colonial war, difficult family relationships).

RATING
4/10

KEY-IDEAS/FEELINGS
Escritores, netos, morte, cancro, guerra colonial, mentiras, traumas, heranças, paixões, memórias
Writers, grandsons, death, cancer, colonial war, lies, traumas, inheritance, passions, memories

GOOD POINTS
O ritmo
A forma metafórica de abordar a história
Os detalhes visuais em forma de momentos do dia-a-dia que fazem a leitura muito bonita (fã de idiossincrasias)
The rhythm
The metaphorical way of writing the story
The visual input shown through everyday moments that make a beautiful reading (love idiosyncrasies)

BAD POINTS
Sinto que tenta demasiado: palavras muito caras e eloquentes desnecessárias, tragédias para apimentar a história demasiado óbvias (traumas, cancro, guerra), plot muito básico que vem da cabeça e não do coração perfeito para um curso de escrita criativa (vamos descobrindo, descobrindo, passamos por uns trauminhas e depois um plot twistinho)
I feel he tries too hard: words that are very eloquent unnecessarily, tragedies to spice up the story that are too obvious (traumas, cancer, war,...), basic plot that comes from the head and not from the hearth perfect fora creative writing course (we are finding out finding out and that some traumas and then a small plot twist)

FOR WHO
Para quem gosta de histórias intensas que se seguram na forma (não para quem gosta de histórias intensas de imersão/revejo)
For who likes intense stories that base themselves in the written form (not for who likes intense stories of self immersion/to relate oneself)
Profile Image for Jose Pedro.
40 reviews13 followers
November 22, 2025
Não acabei o livro, um pouco movido por desinteresse e pelo aparecimento de alternativas mais aliciantes. Não é um mau livro, e bem sei que a narrativa não é só sobra a guerra colonial (há um retrato intergeracional bastante denso de uma família aqui no meio). Mas escrevendo em língua portuguesa com a guerra colonial em pano de fundo, eu só me consigo lembrar do inigualável Lobo Antunes e dos seus Cus de Judas (salvo seja) e tudo o resto empalidece um pouco.
55 reviews
October 22, 2025
Este é o terceiro romance de Afonso Reis Cabral e o terceiro que leio. Na sua escrita irrepreensível e tantas vezes poética, mas também crua, em geral, encontramos personagens fortes e densas que carregam uma bagagem que as conduz ao longo da história e que atestam contradições, algumas virtudes e tantos defeitos. Como nós.

Neste caso, mantendo as personagens fortes e densas habituais na sua escrita, Afonso Reis Cabral leva-nos a conhecer a família de um escritor português de sucesso, Augusto Campelo e às difíceis relações familiares que orbitravam em torno de si. Conhecemos, assim o neto, homónimo do avô, que também escreve e que é narrador na primeira pessoa. Neste caminho imperfeito, damos-lhe as mãos, conhecemos-lhe os defeitos, sentimos-lhe as inseguranças, descobrimos traições e somos surpreendidos, à medida que o romance se desenrola, num ataque a alicerces que julgávamos seguros.

Percebemos, assim, através de diversas histórias e da busca pela verdade o peso da identidade e da história pessoal, familiar e transmitida e nas consequências que se sentem no confronto com a realidade.

............

Destaco uma passagem, sobre desconhecidos:

《"Maravilhosos bicos-de-lacre", disse o meu pai. "O bico vermelho podia ser uma gota de sangue. Estão sempre a comer e a bicar. Ouves, ali ao fundo, ao pé das alcachofras? (...)"
Viviam na margem sul, debicavam o miolo das alcachofras, recompensa escondida no interior das folhas, enchiam o relvado com o sangue dos bicos e pousavam nas conversas de circunstância entre dois desconhecidos.》 (p. 50)
Profile Image for Marina.
9 reviews
December 19, 2025
Leitura fácil, escrita muito aflorada e metafórica.
As alternâncias na narrativas e todas as analepses tornam a história confusa, por vezes, e deixam pontas soltas sem qualquer resolução.
As personagens eram todas muito rasas, sem grande desenvolvimento, apesar de serem personagens "reais" e com as quais nos conseguimos relacionar ou parecidas a pessoas que conhecemos.
O final deixou muito a desejar, na minha opinião
Profile Image for Ricardo Ribeiro.
354 reviews4 followers
December 20, 2025
O Meu Último Avô acompanha a relação entre um neto e o avô, construída a partir da memória. A narrativa percorre diferentes tempos para explorar a figura do avô como presença distante e o esforço do narrador em compreender quem ele foi e o que deixou por dizer.

O enredo, enquanto ideia, é forte: a investigação de quem foi este homem mítico, herói da guerra e grande escritor, e a morte da sua filha, mãe do narrador. Porém, fica a sensação de que o conceito e a arquitectura da história são mais interessantes do que a forma como são desenvolvidos.
Profile Image for Isabel Lopes.
202 reviews14 followers
November 7, 2025
Adorei este livro. Nunca tinha lido nada do Afonso Reis Cabral mas gostei bastante da sua escrita. Estranhei um pouco a interligação dos personagens deixando-me um pouco confusa, mas no final pensei que talvez fosse essa mesmo a intenção do autor. Eu teria dado um fim diferente, mas compreendo o desfecho dado.
Profile Image for Inês Villar.
18 reviews3 followers
September 23, 2025
Nunca tinha lido nada do Afonso - que descoberta maravilhosa. Um livro muito bem escrito e com personagens que ficam. A história anda para a trás e para a frente e leva-nos sempre com ela. Vou, com certeza, ler os outros livros já publicados!
Profile Image for Helder Teixeira Aguiar.
40 reviews2 followers
September 21, 2025
O Último Avô, terceiro romance de Afonso Reis Cabral, oferece-nos um retrato fragmentado, um wormhole engenhosamente criado entre três gerações portuguesas em constante replicação e fratura, todas presas à volta de uma figura central: o escritor Campelo; marido, pai e avô, um homem insidiosamente possessivo que fez da guerra colonial o grande mistério da sua vida.

É o narrador, Augusto, neto de Campelo, que assume a missão de o descobrir. Para a frente e para trás, o romance passeia-nos por vidas marcadas por esse fantasma, convidando-nos a refletir sobre um dos episódios mais traumáticos da nossa história recente a partir de um ângulo íntimo e inesperado. Aos poucos, percebemos que a guerra é menos um acontecimento fixo do passado do que uma narrativa em disputa, uma memória instável que tanto pode revelar-se heroica como cobarde, verdadeira ou inteiramente fabricada.

A prosa é fresca, repleta de imagens originais que nos entram de mansinho; as personagens, cheias e palpáveis, conquistam-nos pela riqueza das suas falhas e contradições, como Afonso Reis Cabral já nos habitou em "O Meu Irmão" e "Pão de Açúcar". É também um livro despretensioso, fácil de seguir na superfície, mas cheio de fendas e segredos nas entrelinhas, que nos obrigam a parar, reler e questionar.

O Último Avô confirma Reis Cabral como uma das vozes mais talentosas e criativas da literatura portuguesa contemporânea, capaz de unir intimidade familiar, memória coletiva e o desassossego de não sabermos nunca onde acaba a verdade e começa a ficção.

Alguns trechos que sublinhei, onde se nota a força poética e contraditória da obra:

«Por vezes penso que o mundo é um inferno onde as pessoas brincam às escondidas. Hoje, olho por elas nos livros que escrevo. Os meus livros são sítios onde as pessoas se levantam. E dou-me por satisfeito e sou feliz por isso.» (pág. 105)

«Eu queria ouvir tudo o que a minha mãe ouvira, viver o que ela vivera e compreendê-la, amá-la nem que fosse através do avô. Os anos tinham passado e a sua imagem perdia-se, embora eu sentisse a toda a hora que a minha mãe continuava comigo. A maresia depositando sal no meu cabelo era ela comigo. A avó cantando comigo era ela comigo. O cansaço à noite era ela comigo. Os sonhos, os pesadelos e a manhã, ela também.» (pág. 134)

«Tenho uma sensação terrível. Que estamos todos numa linha de desmontagem. Dure muito ou pouco, somos todos chamados à colação. Chamados ao criador por causa de um defeito de fabrico. (...) Uma linha de desmontagem. E há muito tempo que a correia me transporta.» (pág. 194)

«Eu podia ter sido pirata (...), ter descoberto o caminho para o Pólo Sul. Eu podia ter sido o primeiro homem em Marte, sim, podia. Podia ter ter compreendido a física quântica e a biologia molecular e a engenharia hidráulica. Eu podia ter sido vidente, senhor da guerra e revisor da Carris! (...) Eu ainda... eu podia... (...) Eu ainda podia ter sido pai!» (pág. 198)
Profile Image for Belem.
95 reviews3 followers
November 17, 2025
[Portuguese version below]

This book tells the story of a highly acclaimed Portuguese writer (fictional, but who at times felt inspired by a very real one), who throughout his career kept promising to one day write about the colonial war. When he apparently does so, already at the end of his life, he decides to burn the manuscript. And the story of the book “O último avô” is a dance between his grandson’s search for the truth (and, if possible, the final version of that manuscript) and past moments from the family relationship.

The story is interesting, it reads well. The narrative is engaging, although the alternation between past and present becomes, at a certain point, very “mechanical”, with the past interrupting the present, and vice versa, instead of truly contributing to the understanding of the story and the knowledge of the characters.

The language is at times… too banal and made of commonplaces (e.g., “he lived in a great loneliness full of people”; “we are what we do with what was done to us”). And even undecided (for example, when someone is being described and suddenly the narrator “remembers” that he wasn’t there, didn’t exist, and doesn’t know what happened with the mother).

The book is worthwhile, then, because of the story, which is interesting. And because of the way it works with the memory of the colonial war. For me, it was also worthwhile because of the “discovery” of a new young writer. I had been avoiding reading his first book (because of the subject), but I’ll pick it up soon.

“How many people are nothing more than the fiction we make of them, and how many stories wander around out there with no truth except their own, that is, the truth of fiction.”

***

Este livro conta a história de um escritor português muito conceituado (fictício, mas que por vezes pareceu inspirado num bem real), que ao longo da carreira foi prometendo escrever um dia sobre a guerra colonial. Quando aparentemente o faz, já no final da vida, decide queimar o manuscrito. E a história do livro "O último avô" é uma dança entre a busca do seu neto pela verdade (e, se possível, a versão final do tal manuscrito) e momentos passados da relação familiar.

A história é interessante, lê-se bem. A narrativa é cativante, apesar da alternância entre passado e presente se tornar, a certa altura, muito "mecânica", com o passado a interromper o presente, e vice versa, em vez de uma verdadeira contribuição para a compreensão da história e o conhecimento das personagens.

A linguagem é por vezes... demasiado banal e feita de lugares comuns (por exemplo "vivia numa grande solidão repleta de gente"; "somos o qe fazemos com o que nos fizeram"). E até indecisa (por exemplo, quando se descreve alguém e de repente a personagem "lembra-se" que não estava lá, não existia, e não sabe o que se passou com a mãe).

O livro vale, então, pela história, que é interessante. E pela forma como trabalha a memória da guerra colonial. Para mim, valeu também a "descoberta" de um novo jovem escritor. Andava a evitar ler o seu primeiro livro (por causa do tema), mas pegarei nele em breve.


"Quantas pessoas não são a ficção que fazemos delas, e quantas histórias não andam por aí à solta sem verdade excepto a própria, isto é, a verdade da ficção."
Profile Image for Jorge JP.
1 review
November 13, 2025
Afonso Reis Cabral, uma vez mais, utiliza magistralmente, uma linguagem límpida, mas primeiramente humana, sem florismos, onde as pessoas são uma procura imensurável de questionamentos e refúgios, para muitas, vezes, se (auto) expurgarem... É o que encontranos n`O Último Avô.
A temática do post-memoriam, como um (auto)incendiário da realidade pretérita de Campelo, transformada pelo próprio numa (auto)heroicização mitomaníaca que, na minha óptico, traveste o "cobarde" e o tirânico Campelo. É como se o velho Campelo, através da transmissão do seu corpus histórico fantasioso, se quisesse auto-exorcizar do que efectivamente foi: um cobarde magalomaníaco, mas ao mesmo tempo, detentor de uma capacidade de amar excessivamente incendiária e demolidora, principalmente direccionada para a filha, a Formiga.
Campelo, o neto, faz emergir este caleidoscópio mitómano e, ele próprio, se torna o incendiário, qual deus ex maquina, e o extintor, deste mentira abrasiva vivida na e para a família.
Profile Image for Maria Quintinha.
235 reviews5 followers
November 17, 2025
O livro fala de algo de que sempre me estranhou o silêncio. A guerra em África de que quase nenhum rapaz podia escapar. Qualquer guerra tem memórias que ninguém gostaria de ter. Mas a guerra colonial produziu homens que silenciaram as suas vivências, só mostrando os sintomas do stress pós traumático quando não o podiam esconder. Medo? Vergonha? Culpa?
Este avô que aparentemente não vivenciou grande coisa, talvez por isso mesmo fantasiou o seu stress e incontáveis histórias de trauma e violência. Um homem profundamente egoísta com uma enorme vontade de controle dos outros, sejam leitores ou familiares.
Profile Image for Rui Pereira.
8 reviews
January 11, 2026
Pode ser duro dar uma estrela mas sinceramente não consigo dar mais, um livro cansativo que podia estar resumido em metade cheio de capítulos para encher e uma história apesar de ter uma ideia interessante se arrasta durante todo o livro e nunca mais se concluí. A escrita e pontuação achei por vezes confusa e algo forçada com frases sentimentalistas mas pouco profundas e básicas ao gênero poeta da cidade. Sei que o autor coleciona vários prêmios literários e espero no futuro ter oportunidade de ler outros livros dele, mas não gostei de todo da estreia.
Profile Image for Estrela Silva.
39 reviews
December 14, 2025
4.5⭐️
só não dou mais porque me senti perdida em algumas partes
mas a história do zacarias emocionou me muito a simplicidade daquelas pessoas
achei mesmo mau o neto tornar se quase igual ao avô
queria muito saber se ele realmente queima o manuscrito falso
saber que é falso é o maior plot do mundo para mim nossa como tinha sido ingénua
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Carmen Andrade.
47 reviews1 follower
January 15, 2026
”Olhava para o jardim como para um jardim secreto. Para o trabalho que havia a fazer, tanto trabalho sempre num jardim. Tanto trabalho sempre na vida. E tanto a melhorar para sempre no nosso espírito. Fadiga sem fim - e isso era belo e bom. Enquanto tratarmos dos nossos jardins secretos, estaremos sempre ocupados." (Pág. 228)
Profile Image for Susana Valdivia.
44 reviews4 followers
October 23, 2025
Talvez o problema seja meu... Muito bem escrito mas muito pesado... Não é para mim...
8 reviews
November 4, 2025
Comecei a ler. Primeiras impressões: O início é algo confuso nas ideias e na escrita. É cedo. Espero que melhore.
Aleluia. Finalmente um capítulo que merece ser lido: o sétimo. Todos os anteriores deixam muito a desejar.
Voltamos ao mesmo problema. História desconexa e sem força, no enredo e nas personagens; piada fácil; estilo complicado. Parece que o Afonso Reis quer ser o Afonso Cruz e espalha-se ao comprido. Uma desilusão.
Displaying 1 - 30 of 37 reviews

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