Uma tonelada de creme, pente, trança. Minha avó esticava os fios até o olho ficar puxado. Insistia que nosso cabelo ruim tinha que ficar sempre preso, sem nenhum arrepiadinho. Parte de mim concordava com ela, parte queria ter dinheiro para fazer escova no salão e brilhar com o liso, parte, ainda, queria deixar o crespo armado. Mas para a vó não importava o que eu queria. Importava a neta estar sempre arrumada e não parecer “essas neguinha”.
O cabelo ruim estava sempre preso e as notas do boletim precisavam ser as melhores. Assim como os desenhos. Assim como eu deveria ajudar qualquer pessoa que precisasse de qualquer coisa, sem esperar recompensa. Era preciso fazer, sempre bem, e muito. Sem cansaço ou enrolação. Ser boa não bastava. Para não ser confundida com “as neguinha”, minha vó exigia que eu fosse ótima. Em tudo.
Nas reuniões na escola, as professoras elogiavam a menina inteligente, rápida, respeitosa, solidária. Minha avó, minha mãe e tio Haroldo se orgulhavam. E de incentivo em incentivo fui ficando cada vez mais rígida. Um estado de alerta se fixou em mim.
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Não adiantava corrigir ou explicar. Para ela, ou ciências sociais era ciência e cientista era médico mesmo, ou se fazer de desentendida era um caminho para ser bem tratada no hospital. A vida toda performou ignorância ou sabedoria, dependendo do objetivo, construindo toda forma de discurso.
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Três filhos. mestrado, doutorado. Biografia de Sueli Carneiro publicada e o desejo crescente de buscar a genealogia da minha família. Chegar ao tataravô de Sueli, escravizado no norte de Minas na primeira metade do século 19, assentou minha convicção de que os documentos de nossos antepassados existem e estão esperando por nós.